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Teologia

Anglicanos vs presbiterianos: governo da igreja

Anglicanos e Presbiterianos: Duas formas de governar e viver a Igreja

Diego Gonçalves5 min de leitura979 palavras

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Neste texto

Quando duas pessoas leem a mesma Bíblia, amam o mesmo Evangelho e herdam a mesma Reforma Protestante, como é que chegam a conclusões tão diferentes sobre como organizar uma comunidade cristã? Essa é a pergunta que surge quando a gente coloca lado a lado anglicanos e presbiterianos.

As duas tradições nasceram no mesmo pedaço de terra, a Grã-Bretanha do século 16, e ambas romperam definitivamente com a autoridade de Roma. Só que, enquanto a Reforma Inglesa na Inglaterra manteve boa parte da estrutura histórica antiga adaptando-a à teologia protestante, a Reforma Escocesa liderada por John Knox foi até Genebra beber direto da fonte de João Calvino, desenhando uma estrutura eclesiástica completamente nova.

A diferença entre eles não está na doutrina básica da salvação pela graça mediante a fé em Cristo, mas naquilo que a teologia chama de eclesiologia: quem manda na igreja, como os líderes são escolhidos e como as congregações se relacionam entre si.

O bispo no centro: o governo episcopal anglicano

A marca mais visível do anglicanismo é o sistema episcopal, palavra que vem do grego episkopos, que quer dizer supervisor ou bispo.

Para os anglicanos, a liderança da Igreja preserva a ordem histórica tríplice que vem desde os primeiros séculos do cristianismo: bispos, presbíteros (muitas vezes chamados de padres ou pastores) e diáconos. O bispo não é apenas um administrador de escritório; ele é a figura central de autoridade espiritual e unidade sobre uma região chamada diocese. É o bispo quem ordena os novos ministros, quem supervisiona as paróquias e quem garante que a doutrina permaneça fiel.

Essa ênfase na continuidade histórica é acompanhada por aquilo que os anglicanos chamam de “tripé teológico”: a autoridade soberana das Escrituras, a sabedoria da Tradição histórica da Igreja antiga e o discernimento da Razão humana iluminada pelo Espírito Santo. Na prática, a unidade anglicana não se dá por uma confissão de fé rígida e minuciosa, mas em torno da liturgia comum registrada no clássico Livro de Oração Comum. É a máxima latina do lex orandi, lex credendi: a forma como a igreja ora expressa e preserva aquilo em que a igreja crê.

Além disso, na sua origem na Inglaterra, a Igreja Anglicana nasceu como uma igreja nacional, tendo o próprio monarca inglês como seu governador supremo terreno — o que historicamente ligou a estrutura eclesiástica à vida pública da nação, embora hoje a Comunhão Anglicana global seja formada por províncias autônomas espalhadas por mais de cento e sessenta países.

O concílio de iguais: o governo presbiteriano

Do outro lado da fronteira, nas terras frias da Escócia, o presbiterianismo trilhou um caminho bem diferente. Olhando para o Novo Testamento, os reformadores escoceses concluíram que as palavras bíblicas para presbítero e bispo se referiam exatamente ao mesmo ofício pastoral. Para eles, a ideia de um bispo governando sobre outros pastores não tinha base apostólica; era uma invenção humana posterior que abriu as portas para o autoritarismo de Roma.

Por isso, os presbiterianos adotaram o princípio da paridade ministerial: nenhum pastor tem autoridade sobre outro pastor. A igreja não é governada por uma pessoa só, mas por colegiados de presbíteros eleitos pela própria congregação. Esses presbíteros se dividem em dois grupos: os presbíteros docentes (os pastores vocacionados para a pregação e o ensino) e os presbíteros regentes (membros leigos experientes que cuidam do pastoreio e da administração da comunidade).

O sistema presbiteriano funciona por meio de uma pirâmide de conselhos:

  • No âmbito local, quem governa é o Conselho da Igreja, formado pelos presbíteros e pelo pastor.
  • No âmbito regional, várias igrejas enviam representantes para formar o Presbitério.
  • Vários presbitérios se reúnem num Sínodo.
  • E a representação máxima da denominação acontece na Assembleia Geral.

Todas as decisões importantes, desde a ordenação de um ministro até questões doutrinárias e disciplinares, são tomadas de forma colegiada, com votos abertos e debates fraternos. Não existe uma figura isolada que dê a última palavra.

Na teologia, os presbiterianos seguem a tradição reformada estrita sintetizada na Confissão de Fé de Westminster. Na liturgia, tendem a valorizar a sobriedade e a simplicidade, colocando a pregação expositiva da Palavra de Deus no centro indiscutível do culto. E, ao contrário do que muitos pensam, na Ceia do Senhor a tradição presbiteriana clássica calvinista rejeita tanto o memorialismo vazio quanto a transubstanciação: crê que Cristo está espiritualmente presente de forma real pelo poder do Espírito Santo, nutrindo a fé de quem participa com devoção.

Coroa contra coroa: a relação com o Estado

Essa divergência de organização gerou confrontos dramáticos no século 17. Enquanto a monarquia inglesa dos Stuarts tentava forçar os escoceses a aceitarem bispos e rituais anglicanos sob o lema de “Sem bispo, não há rei”, os presbiterianos escoceses assinaram o famoso Pacto Nacional em 1638.

Os chamados Covenanters (pactuantes) declararam que Jesus Cristo é o único Rei e Cabeça da Igreja, e que nenhum rei terreno tinha o direito de meter a mão no culto ou no governo do povo de Deus. Milhares de escoceses foram perseguidos e pagaram com a própria vida para defender que o púlpito não recebe ordens do palácio. O presbiterianismo desenvolveu assim uma forte consciência de separação entre as atribuições do Estado e a liberdade espiritual da Igreja.

Duas vocações sob a mesma graça

Quando a gente observa essas duas tradições com maturidade e sem bairrismo religioso, percebe que cada uma delas oferece uma riqueza singular ao cristianismo.

O anglicanismo nos ensina a beleza da continuidade histórica, a solenidade litúrgica, o apreço pela estética e a capacidade de manter comunhão mesmo no meio de tensões teológicas diversas. Já o presbiterianismo nos ensina a importância da prestação mútua de contas, a seriedade doutrinária, a blindagem contra o personalismo de líderes autoritários e a centralidade da Palavra proclamada com clareza.

No final das contas, bispos e presbíteros são tentativas humanas sinceras de responder à mesma responsabilidade sagrada: cuidar do rebanho pelo qual o Bom Pastor entregou a própria vida.