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Teologia

Católicos e ortodoxos: O que separa Roma do Oriente cristão

Catolicismo e Ortodoxia: O que separa Roma do Oriente cristão

Diego Gonçalves4 min de leitura705 palavras

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Para a maioria dos cristãos ocidentais, a história da igreja parece ter só duas paradas obrigatórias: a igreja antiga e a Reforma Protestante do século XVI. Só que, quase cinco séculos antes de Lutero afixar suas teses na Alemanha, o cristianismo já havia sofrido o seu maior terremoto histórico: o Grande Cisma de 1054, que separou a Igreja Católica Romana, no Ocidente, da Igreja Ortodoxa, no Oriente.

Mosaico bizantino do século XIII, com Cristo ao centro, na basílica de Santa Sofia, em Constantinopla
Mosaico da Deësis, século XIII, Santa Sofia, Constantinopla (Istambul). Foto de Osama Shukir Muhammed Amin, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Embora compartilhem os concílios ecumênicos antigos e uma rica herança litúrgica, as diferenças entre Roma e o Oriente vão muito além de hábitos de monges ou do uso de estátuas em vez de ícones pintados. Elas refletem duas maneiras bem distintas de pensar Deus, a salvação e a autoridade da igreja.

O ponto de discórdia mais evidente continua sendo a figura do Papa. No catolicismo romano, o bispo de Roma é visto como o sucessor direto do apóstolo Pedro, com autoridade suprema e jurisdição imediata sobre todas as dioceses do planeta, e o dogma da infalibilidade papal vale quando ele pronuncia definições doutrinárias ex cathedra. A Ortodoxia rejeita esse modelo monárquico. Para os ortodoxos, a igreja funciona por colegialidade entre iguais: o Patriarca de Constantinopla tem apenas uma primazia de honra (“primeiro entre iguais”) e não pode interferir nas decisões das outras igrejas autocéfalas, como a russa, a grega ou a antioquina.

No campo da doutrina da Trindade, a disputa histórica tem nome próprio: a cláusula do Filioque. Sem consultar os patriarcas orientais, a igreja ocidental acrescentou ao Credo Niceno a frase que afirma que o Espírito Santo procede “do Pai e do Filho”. Para a teologia oriental, essa alteração unilateral fere o ensino dos antigos concílios e desequilibra a harmonia trinitária, porque o Pai é a única fonte eterna dentro da Divindade.

Outro contraste marcante está na compreensão da salvação. Sob a influência de Agostinho e do direito romano, o Ocidente construiu uma visão fortemente jurídica da redenção, com conceitos como culpa herdada, méritos, penas temporais e Purgatório. A Ortodoxia enxerga o pecado não apenas como uma ofensa que exige pagamento, mas como uma enfermidade mortal que precisa de cura. A salvação no Oriente é compreendida como theosis (deificação): um processo transformador em que o ser humano, pela graça do Espírito Santo, é restaurado à imagem de Deus e participa das energias divinas em união viva com Cristo. Os reformadores ensinaram a justificação somente pela graça, mediante a fé, em Cristo; e Wesley, leitor dos Pais gregos, falava de uma santificação que leva à perfeição no amor.

Essa mesma distância moldou a visão sobre Maria. Ambas as tradições reservam à mãe de Jesus uma veneração profunda e a chamam de Theotokos (Mãe de Deus). No entanto, quando Roma proclamou em 1854 o dogma da Imaculada Conceição, a ideia de que Maria foi preservada do pecado original desde o primeiro instante de sua concepção, a Ortodoxia considerou a decisão desnecessária e alheia à tradição dos Pais da igreja, e preferiu celebrar a festa da Dormição, na qual Maria morre naturalmente e é acolhida na glória por seu Filho.

No culto, a liturgia ortodoxa continua envolvida em incenso, mistério e cânticos sem instrumentos musicais, e preserva ritos que quase não mudaram desde a época de João Crisóstomo, no século IV. Roma, por sua vez, especialmente a partir do Concílio Vaticano II, nos anos 1960, adotou as línguas do povo na missa e a adaptou às realidades culturais e pastorais do mundo contemporâneo.

Compreender essas raízes nos ajuda a enxergar como divisões culturais, políticas e teológicas profundas continuam moldando o cenário religioso mundial. Tanto Roma quanto o Oriente apelam à tradição, mas, para nós, a última palavra é da Escritura. O diálogo exige honestidade histórica e compromisso fiel com a verdade do Evangelho.

Publicado em 2 de novembro de 2026

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