
Maria e o protestantismo: O que a Reforma esqueceu
O que o protestantismo esqueceu sobre Maria
Existe um constrangimento no meio evangélico brasileiro quando o assunto é a mãe de Jesus. Para a maioria das congregações, Maria só tem permissão para existir durante três semanas em dezembro: ela aparece vestida de azul segurando uma boneca de plástico no presépio do coral infantil e, assim que o culto da virada termina, é guardada na caixa de papelão até o próximo Natal. Se alguém ousar falar dela em pleno mês de julho, logo surge uma sobrancelha levantada e uma acusação tácita de desvio doutrinário.
Esse medo não vem de fidelidade bíblica nem de zelo protestante, mas de pouca memória histórica. Ao tentar se afastar a todo custo dos exageros da devoção católica medieval, o evangelicalismo contemporâneo acabou jogando a criança fora junto com a água do banho.
O teólogo batista Timothy George resumiu esse paradoxo: os reformadores do século XVI foram simultaneamente críticos ferozes dos excessos marianos de Roma e discípulos devotos de Maria dentro dos limites estritos das Escrituras. O protestantismo moderno herdou a crítica amarga, mas perdeu a devoção bíblica. Com isso, os evangélicos de hoje ficaram aquém dos próprios pais da Reforma que afirmam seguir.
Quem lê os escritos de Martinho Lutero sem o filtro do preconceito denominacional se surpreende. Em 1521, no auge do confronto com o papado, Lutero escreveu um longo comentário sobre o Magnificat, o cântico de Maria em Lucas 1:46-55. Para o reformador alemão, as palavras de Maria ilustravam com clareza a salvação pela graça, mediante a fé (sola gratia, sola fide). Maria não canta sobre seus próprios méritos, sobre sua pureza herdada ou sobre sua suposta grandeza moral; ela se alegra porque o Deus Todo-Poderoso olhou para a baixeza da Sua serva (Lucas 1:48). Ela mostra a graça: uma pessoa que não tem nada a oferecer e recebe tudo da misericórdia divina, e que por isso chama a Deus de seu Salvador (Lucas 1:47).
Nas igrejas da Reforma, Lutero manteve no calendário litúrgico a celebração da Anunciação, da Purificação e da Visitação, enquanto Zuínglio, em Zurique, recitava com reverência as palavras do anjo Gabriel. João Calvino, sempre sóbrio, ensinava que chamar Maria de bendita entre as mulheres (Lucas 1:42) não era idolatria, e sim aceitar o que o texto sagrado diz. Nenhum deles tinha medo de honrar a memória daquela que foi a primeira a crer na encarnação do Filho de Deus. Honrar, aqui, quer dizer admirar e imitar a fé dela, sem orar a ela: a mediação pertence somente a Cristo (1 Timóteo 2:5).
O Novo Testamento não nos apresenta uma deusa sentada em um trono de mármore dourado, e sim uma mulher de carne, osso e coragem. É a jovem que arriscou a própria reputação ao responder com um “sim” à palavra do anjo (Lucas 1:38). É a mãe que ouviu de Simeão que uma espada atravessaria a sua própria alma (Lucas 2:35). É a discípula que permaneceu em pé junto à cruz quando quase todos os apóstolos haviam fugido (João 19:25). E é a irmã de fé que perseverava em oração no cenáculo, aguardando a descida do Espírito Santo (Atos 1:14).
Ao transformar Maria em tabu, o protestantismo perdeu uma das referências mais profundas de discipulado, humildade e obediência que a Bíblia preservou. Recuperar a voz de Maria não quer dizer aceitar dogmas tardios ou rezas a santos, mas ter a coragem de ler o Evangelho por inteiro e aprender com aquela que soube apontar para Cristo, quando disse aos serventes: “Fazei tudo quanto ele vos disser” (João 2:5, Bíblia Livre).
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