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Maria e o protestantismo: o que se perdeu ao ignorá-la
O Que o Protestantismo Perdeu ao Ignorar Maria
Durante séculos, a menção ao nome de Maria no ambiente evangélico brasileiro despertou uma reação quase automática de desconfiança. Por causa de disputas teológicas históricas e do medo legítimo de cair em desvios doutrinários, a maioria das igrejas protestantes preferiu o caminho do silêncio absoluto. Tirando o domingo de Natal, quando ela aparece rapidamente no presépio ao lado de José e dos pastores, a mãe de Jesus praticamente desapareceu dos sermões, dos estudos bíblicos e da hinologia evangélica.
A grande ironia é que os próprios reformadores do século dezesseis nunca trataram Maria dessa forma. Martinho Lutero escreveu, em 1521, um comentário sensível e pastoral sobre o cântico do Magnificat (Lucas 1:46-55). Ele defendia o título de Theotokos (Mãe de Deus), definido no Concílio de Éfeso, em 431, entendendo que honrar a maternidade de Maria era indispensável para proteger a divindade e a humanidade plena de Cristo. Ulrico Zuínglio e João Calvino também falavam dela com reverência, sem lhe atribuir culto algum.
O problema veio com as gerações seguintes. Em meio às guerras religiosas e às disputas acirradas entre católicos e protestantes na Europa, a identidade evangélica acabou sendo definida em grande parte pelo contraste. Se a teologia católica medieval havia acumulado títulos e devoções que ultrapassavam os limites da Bíblia, a resposta protestante foi cortar o assunto pela raiz. A justa preocupação com a centralidade exclusiva de Cristo (solus Christus) acabou gerando um esquecimento histórico e bíblico: para não correr o risco de venerar Maria, simplesmente paramos de olhar para ela.
Nas últimas décadas, porém, esse silêncio de quinhentos anos começou a se romper. Um movimento consistente de teólogos, historiadores e estudiosos bíblicos tem resgatado o estudo sério de Maria sem abrir mão do princípio do sola Scriptura.
O historiador Jaroslav Pelikan foi uma das figuras centrais nessa redescoberta. Em seu livro clássico Maria ao Longo dos Séculos (Mary Through the Centuries, 1996), Pelikan mostrou como a reflexão sobre a mãe de Jesus sempre esteve amarrada à defesa do próprio evangelho. Nos primeiros séculos, quando os gnósticos ensinavam que Jesus era apenas um espírito iluminado, sem corpo real, os Pais da Igreja apontavam para Maria: se Jesus nasceu de uma mulher de carne e osso, sentiu dores e foi amamentado por ela, a encarnação é um fato concreto da história humana. Em outra obra, The Vindication of Tradition (1984), Pelikan distinguiu a tradição, que é a fé viva dos mortos, do tradicionalismo, que é a fé morta dos vivos. Resgatar as raízes históricas da fé não é abraçar dogmas sem base bíblica; é aprender com os cristãos que vieram antes de nós, sempre com a Escritura como juíza (sola Scriptura).
Outra contribuição veio da teóloga católica Elizabeth Johnson, em obras como Verdadeiramente Nossa Irmã. Em vez da imagem distante de uma estátua de mármore, a pesquisa histórica e bíblica recente nos devolve a jovem judia de Nazaré do primeiro século: uma mulher simples, de uma aldeia periférica, vivendo sob o domínio do Império Romano, que conheceu a pobreza e o preconceito, mas confiou na promessa da aliança de Deus. Quando Maria canta, em Lucas 1:52, que Deus derrubou dos tronos os poderosos e exaltou os humildes, ela proclama a justiça de Deus, que vira a ordem do mundo de cabeça para baixo.
Livros como Blessed One: Protestant Perspectives on Mary, organizado por teólogos presbiterianos, mostram que o mundo reformado contemporâneo está aprendendo a tratar do tema com seriedade acadêmica e fidelidade bíblica. Não precisamos adotar doutrinas tardias que a Bíblia não ensina para reconhecer a grandeza do testemunho de Maria. Honrá-la como exemplo de fé é muito diferente de orar a ela: Cristo é o único mediador (1 Timóteo 2:5).
O Novo Testamento apresenta Maria como a primeira discípula de Jesus. Ela foi quem ouviu o anúncio angelical e respondeu com obediência corajosa: “Aqui está a serva do Senhor” (Lucas 1:38). Ela guardou no coração o que Deus fazia na vida do Filho (Lucas 2:19,51). Ela permaneceu de pé aos pés da cruz quando quase todos os discípulos haviam fugido (João 19:25). E estava reunida em oração com a igreja nascente, no cenáculo, nos dias que antecederam Pentecostes (Atos 1:14).
Quando o protestantismo se recusa a aprender com Maria, quem perde somos nós. O evangelho de Lucas registra que todas as gerações a chamariam de bem-aventurada (Lucas 1:48). Recuperar esse olhar bíblico e equilibrado nos livra da mera reação partidária e nos ajuda a contemplar, com gratidão, a fidelidade da jovem de Nazaré, cujo exemplo de fé continua a servir à igreja em todos os tempos.
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