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Jan Hus a Herrnhut: A semente oculta da Unidade dos Irmãos

De Jan Hus a Herrnhut: A história da igreja que sobreviveu três séculos no esconderijo

Diego Gonçalves7 min de leitura1.398 palavras

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Neste texto

Em 6 de julho de 1415, o pregador e professor Jan Hus foi amarrado a um poste de madeira na cidade de Constança, na atual Alemanha. O concílio da igreja o condenou como herege por denunciar a corrupção do clero e defender a autoridade da Bíblia, e ele foi cercado por feixes de lenha e queimado vivo. Uma tradição antiga conta que, pouco antes de o fogo subir, ele olhou para os juízes e disse uma frase profética: “Hoje vocês assam um ganso [Hus significa ganso em tcheco], mas daqui a cem anos surgirá um cisne que vocês não conseguirão queimar”.

Cento e dois anos depois, Martinho Lutero afixava as suas teses em Wittenberg.

Pintura de Jan Hus de pé diante da fogueira, cercado de soldados e clérigos, em Constança
Carl Friedrich Lessing, Hus diante da fogueira, c. 1850. Domínio público, via Wikimedia Commons.

A história de Jan Hus, porém, não gerou ecos apenas em Lutero. No coração das florestas da Boêmia (na atual República Tcheca), os seguidores de Hus se recusaram a pegar em armas e decidiram viver a fé de um jeito radicalmente simples. Em 1457, fundaram a Unitas Fratrum, a Unidade dos Irmãos.

Eles foram pioneiros da Reforma: sessenta anos antes de Lutero, já levavam a Bíblia à língua do povo, imprimiam hinários para a congregação cantar e viviam uma fé sem hierarquias pesadas, firmada na Escritura como autoridade suprema.

Essa pequena comunidade, porém, estava prestes a atravessar um dos períodos mais sangrentos da Europa.

O massacre da Montanha Branca

Durante o século dezesseis, a Unidade dos Irmãos floresceu, conquistando o respeito de protestantes por todo o continente. Em 1620, porém, a fúria da Guerra dos Trinta Anos caiu sobre a Boêmia.

Na Batalha da Montanha Branca, os exércitos imperiais católicos dos Habsburgos esmagaram as forças protestantes. A perseguição que se seguiu foi devastadora: os líderes dos Irmãos foram decapitados em praça pública em Praga, as Bíblias foram queimadas em fogueiras, as propriedades foram confiscadas e milhares de famílias foram expulsas para o exílio no meio do inverno.

O último bispo daquela igreja agonizante era Jan Amos Comenius, um dos homens mais brilhantes do seu tempo, hoje considerado o pai da pedagogia moderna.

Comenius viu a sua casa ser saqueada, perdeu a esposa e os filhos para a peste nos anos da perseguição e passou décadas vagando como refugiado pela Polônia, Suécia e Holanda. Em 1650, com o coração partido ao ver as congregações da sua juventude completamente destruídas, ele escreveu um pequeno livro de despedida intitulado O Legado da Mãe Moribunda, a Unidade dos Irmãos.

Naquela obra, Comenius parecia redigir o atestado de óbito da sua própria igreja. Nas últimas páginas, porém, ele fez uma oração carregada de esperança bíblica: pediu a Deus que guardasse uma “semente oculta” no solo da história e confiou que, mesmo que a árvore parecesse cortada até a raiz, o Senhor ainda faria brotar novos ramos, conforme a promessa feita a Abraão de que todas as famílias da terra seriam abençoadas (Gênesis 12:3). A esperança dele não estava na força dos Irmãos, e sim na fidelidade de Deus à Sua promessa.

Comenius morreu em Amsterdã em 1670, sem ver nenhum sinal de resposta. Durante cinquenta anos, pareceu que a oração não fora atendida e que a história dos Irmãos havia virado poeira.

O machado que acordou a semente

Vista da vila de Herrnhut, na Saxônia, com telhados vermelhos entre árvores e o cemitério morávio em primeiro plano
A vila de Herrnhut, na Saxônia, com o cemitério morávio em primeiro plano. Foto de heyeje, 2016, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.

Em 1722, um grupo humilde de refugiados da Morávia, entre carpinteiros, tecelões e camponeses que ainda guardavam em segredo a fé dos seus antepassados, cruzou a fronteira da Alemanha buscando abrigo contra as perseguições.

Eles bateram à porta de um jovem nobre luterano de vinte e dois anos, o conde Nicolau von Zinzendorf. Tocado pela história daquelas famílias que não tinham onde morar, Zinzendorf cedeu um pedaço de terra pantanosa e cheia de árvores na sua propriedade na Saxônia.

O carpinteiro Christian David pegou um machado, deu o primeiro golpe numa árvore e citou o Salmo 84:3:

“Até o pardal acha casa, e a andorinha ninho para si, onde ponha filhotes perto de teus altares, ó SENHOR dos exércitos, Rei meu e Deus meu.”

(Salmos 84:3, Bíblia Livre)

Ali nascia a vila de Herrnhut, nome que em alemão quer dizer “A Guarda do Senhor” ou “Sob a Proteção do Senhor”.

Nos primeiros anos, a convivência foi um desastre. Refugiados de várias partes da Europa se juntaram ao vilarejo, cada um trazendo manias, discussões doutrinárias e brigas de orgulho religioso. A vila quase ruiu por causa das intrigas.

Foi então que Zinzendorf viajou até uma biblioteca em Zittau e encontrou por acaso um exemplar em latim da Ratio Disciplinae, o manual de ordem eclesiástica que Comenius havia escrito setenta anos antes para a Unidade dos Irmãos. Ao ler aquelas páginas, o conde chorou. Ele percebeu que aqueles camponeses briguentos de Herrnhut não eram uma seita qualquer: eram a “semente oculta” que Comenius havia entregado a Deus antes de morrer.

O fogo que atravessou os oceanos

Zinzendorf reuniu a comunidade, leu as regras antigas de amor mútuo dos antepassados e confrontou a hipocrisia de todos. O arrependimento quebrou o orgulho dos moradores, e a graça de Deus fez o que nenhum regulamento conseguiria fazer.

Em 13 de agosto de 1727, durante uma ceia do Senhor na pequena igreja de Berthelsdorf, o Espírito Santo veio sobre a comunidade de um modo que os próprios morávios compararam ao dia de Pentecostes. Homens e mulheres caíram em prantos de reconciliação, perdoando-se mutuamente.

Daquele encontro nasceu uma das coisas mais extraordinárias da história da igreja: uma corrente de oração contínua, vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, em que irmãos se revezavam a cada hora sem jamais interromper a intercessão. Essa oração durou, sem interrupção, por mais de cem anos.

E a oração não virou fuga do mundo. Em menos de duas décadas, aquela pequena vila de camponeses enviou mais missionários aos confins da terra do que as igrejas protestantes haviam enviado nos dois séculos anteriores.

Os morávios foram para o Caribe trabalhar ao lado de escravizados nas plantações de cana, navegaram para o gelo da Groenlândia, entraram no interior da África do Sul e pregaram aos povos nativos das Américas. Foi o testemunho da paz serena dos morávios no meio de uma tempestade no oceano Atlântico que ajudou a levar à conversão de John Wesley em 1738, quando ele sentiu o coração “estranhamente aquecido” e confiou somente em Cristo para a sua salvação, o que acendeu o avivamento metodista na Inglaterra.

A paciência de quem semeia na terra

A caminhada entre a fogueira de Jan Hus em 1415 e o fogo missionário de Herrnhut em 1727 durou mais de trezentos anos. Foram séculos de dor, perseguição, exílio e aparente fracasso.

Vivemos numa época imediatista, em que todo mundo quer resultados para ontem. Se um projeto cristão não cresce nas redes sociais em seis meses, achamos que Deus nos abandonou e desistimos no meio do caminho.

A história da Unidade dos Irmãos nos lembra que Deus trabalha no tempo Dele, e não no nosso cronômetro ansioso. Nenhuma lágrima derramada por amor a Cristo se perde. A semente da fé autêntica pode passar décadas ou séculos enterrada no escuro da terra, coberta pelo esquecimento dos homens. Quando a chuva da graça de Deus vem no momento certo, ela rompe o solo e enche a terra de frutos que duram para sempre. Quem planta, planta com esperança, porque quem faz crescer é Deus (1 Coríntios 3:6).

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