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Por que os anabatistas foram tão odiados no século 16
Durante as turbulentas décadas da Reforma Protestante, poucas coisas conseguiam unir católicos fervorosos, luteranos zelosos e reformados convictos numa mesma causa. Uma dessas raras unanimidades era a repulsa contra os anabatistas. Eles foram caçados, afogados em rios, decapitados e queimados em praça pública, dos dois lados da fronteira religiosa.
Para quem olha de longe, essa violência parece incompreensível, porque a maioria das comunidades anabatistas era formada por camponeses e artesãos pacíficos, que se recusavam a empunhar qualquer arma. De onde veio, então, a fama que transformou o termo “anabatista” em sinônimo de perigo social e anarquia?
A primeira razão era legal. A palavra “anabatista” quer dizer “rebatizador”. No século 16, isso não era só uma divergência sobre como batizar: era crime passível de pena de morte. Pelo antigo Código de Justiniano, que ainda valia no Sacro Império Romano, negar o batismo infantil e rebatizar adultos era violação grave da ordem pública. Ao rejeitar o batismo de recém-nascidos, os anabatistas rompiam o registro civil da época, já que o batismo funcionava como certidão de nascimento e como garantia de submissão ao imperador e à igreja local.
O segundo motivo, e o mais destrutivo para a imagem do grupo, foi a tragédia de Münster, em 1535. Um grupo de extremistas, liderado por Jan van Leyden, tomou o controle da cidade alemã, proclamou uma teocracia apocalíptica, aboliu a propriedade privada, instituiu a poligamia e prometeu defender a “Nova Jerusalém” pelas armas. O cerco que se seguiu terminou em massacre.
A imensa maioria dos anabatistas da Suíça, da Alemanha e da Holanda repudiou a loucura de Münster. Mesmo assim, as autoridades civis e religiosas usaram aquele banho de sangue como prova de que toda comunidade que se recusava a batizar bebês escondia um revolucionário pronto para pegar em armas. Todo anabatista passou a ser visto como rebelde à espera do momento certo.
Havia também o choque com a ordem social europeia. Os anabatistas levavam o Sermão do Monte ao pé da letra. Quando Jesus disse “de maneira nenhuma jureis” (Mateus 5:34, Bíblia Livre), eles levaram a sério e se recusaram a prestar os juramentos cívicos e feudais de fidelidade aos príncipes. Na Europa do século 16, o juramento era o cimento que sustentava a sociedade: os súditos juravam obedecer às leis, pagar tributos e lutar na guerra. Recusar o juramento equivalia a declarar desobediência civil.
Além de não jurar, eles se recusavam a servir nos exércitos e defendiam algo inaceitável para o pensamento da época: a separação entre a igreja e o estado. Para um magistrado católico ou um príncipe luterano, a ideia de que a fé não deveria ser imposta pelas leis parecia receita de caos. Permitir que cada um escolhesse a sua fé era, a seus olhos, abrir a porta para a desintegração da autoridade civil.
Encurralados por leis que puniam sua presença com a fogueira ou a forca, os anabatistas foram empurrados para a clandestinidade. Reuniam-se em celeiros, florestas e porões, à noite. Essa vida escondida alimentava ainda mais a desconfiança popular: quem precisa se esconder para falar de Bíblia deve estar tramando alguma coisa contra a cidade.
Na teologia, reformadores como Martinho Lutero e Ulrico Zuínglio também os olhavam com desconfiança. Eles próprios ensinavam que o pecador é justificado pela graça, mediante a fé, e não por mérito algum (Efésios 2:8-9). Por isso, a insistência anabatista na disciplina moral rigorosa e na fé vivida por meio das boas obras soava aos ouvidos luteranos como um retorno disfarçado à salvação pelas obras. Os anabatistas, porém, também confessavam a salvação pela graça; o que cobravam era que a fé verdadeira desse fruto em obediência a Cristo.
O resultado foi uma máquina de propaganda. Os anabatistas foram rotulados de fanáticos (Schwärmer), hereges e inimigos públicos. Foi preciso o sacrifício sereno de milhares de mártires anônimos, que morreram cantando hinos e perdoando seus algozes, para que a história começasse a limpar o preconceito e a reconhecer neles pioneiros da liberdade de consciência e do cristianismo voluntário no Ocidente.
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