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HistóriaReforma Protestante80 de 121

Por que os anabatistas foram tão odiados no século 16

Diego Gonçalves4 min de leitura767 palavras

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Durante as turbulentas décadas da Reforma Protestante, poucas coisas conseguiam unir católicos fervorosos, luteranos zelosos e reformados convictos numa mesma causa. Uma dessas raras unanimidades era a repulsa contra os anabatistas. Eles foram caçados, afogados em rios, decapitados e queimados em praça pública, dos dois lados da fronteira religiosa.

Para quem olha de longe, essa violência parece incompreensível, porque a maioria das comunidades anabatistas era formada por camponeses e artesãos pacíficos, que se recusavam a empunhar qualquer arma. De onde veio, então, a fama que transformou o termo “anabatista” em sinônimo de perigo social e anarquia?

Três gaiolas de ferro penduradas na torre gótica da igreja de São Lamberto, em Münster, iluminadas pelo sol poente
As gaiolas de ferro na torre da igreja de São Lamberto, em Münster, onde os corpos dos líderes anabatistas foram expostos em 1536. Foto de Dietmar Rabich, 2020. CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

A primeira razão era legal. A palavra “anabatista” quer dizer “rebatizador”. No século 16, isso não era só uma divergência sobre como batizar: era crime passível de pena de morte. Pelo antigo Código de Justiniano, que ainda valia no Sacro Império Romano, negar o batismo infantil e rebatizar adultos era violação grave da ordem pública. Ao rejeitar o batismo de recém-nascidos, os anabatistas rompiam o registro civil da época, já que o batismo funcionava como certidão de nascimento e como garantia de submissão ao imperador e à igreja local.

O segundo motivo, e o mais destrutivo para a imagem do grupo, foi a tragédia de Münster, em 1535. Um grupo de extremistas, liderado por Jan van Leyden, tomou o controle da cidade alemã, proclamou uma teocracia apocalíptica, aboliu a propriedade privada, instituiu a poligamia e prometeu defender a “Nova Jerusalém” pelas armas. O cerco que se seguiu terminou em massacre.

A imensa maioria dos anabatistas da Suíça, da Alemanha e da Holanda repudiou a loucura de Münster. Mesmo assim, as autoridades civis e religiosas usaram aquele banho de sangue como prova de que toda comunidade que se recusava a batizar bebês escondia um revolucionário pronto para pegar em armas. Todo anabatista passou a ser visto como rebelde à espera do momento certo.

Havia também o choque com a ordem social europeia. Os anabatistas levavam o Sermão do Monte ao pé da letra. Quando Jesus disse “de maneira nenhuma jureis” (Mateus 5:34, Bíblia Livre), eles levaram a sério e se recusaram a prestar os juramentos cívicos e feudais de fidelidade aos príncipes. Na Europa do século 16, o juramento era o cimento que sustentava a sociedade: os súditos juravam obedecer às leis, pagar tributos e lutar na guerra. Recusar o juramento equivalia a declarar desobediência civil.

Além de não jurar, eles se recusavam a servir nos exércitos e defendiam algo inaceitável para o pensamento da época: a separação entre a igreja e o estado. Para um magistrado católico ou um príncipe luterano, a ideia de que a fé não deveria ser imposta pelas leis parecia receita de caos. Permitir que cada um escolhesse a sua fé era, a seus olhos, abrir a porta para a desintegração da autoridade civil.

Encurralados por leis que puniam sua presença com a fogueira ou a forca, os anabatistas foram empurrados para a clandestinidade. Reuniam-se em celeiros, florestas e porões, à noite. Essa vida escondida alimentava ainda mais a desconfiança popular: quem precisa se esconder para falar de Bíblia deve estar tramando alguma coisa contra a cidade.

Na teologia, reformadores como Martinho Lutero e Ulrico Zuínglio também os olhavam com desconfiança. Eles próprios ensinavam que o pecador é justificado pela graça, mediante a fé, e não por mérito algum (Efésios 2:8-9). Por isso, a insistência anabatista na disciplina moral rigorosa e na fé vivida por meio das boas obras soava aos ouvidos luteranos como um retorno disfarçado à salvação pelas obras. Os anabatistas, porém, também confessavam a salvação pela graça; o que cobravam era que a fé verdadeira desse fruto em obediência a Cristo.

O resultado foi uma máquina de propaganda. Os anabatistas foram rotulados de fanáticos (Schwärmer), hereges e inimigos públicos. Foi preciso o sacrifício sereno de milhares de mártires anônimos, que morreram cantando hinos e perdoando seus algozes, para que a história começasse a limpar o preconceito e a reconhecer neles pioneiros da liberdade de consciência e do cristianismo voluntário no Ocidente.

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