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Origem dos batistas: Reforma Inglesa, Tudors e dissidentes
O divórcio de um rei e a fé dos dissidentes: Como a Reforma Inglesa gerou os batistas
Quando estudamos a Reforma Protestante na Europa, o cenário quase sempre começa com Martinho Lutero afixando as 95 teses na porta da igreja em Wittenberg, angustiado com a salvação da sua alma, ou com João Calvino escrevendo tratados minuciosos em Genebra sobre a glória de Deus e a autoridade da Bíblia. No continente europeu, o motor da Reforma foi uma crise espiritual e teológica profunda: como o pecador é justificado diante de Deus, só pela graça, mediante a fé.
Só que na Inglaterra o início da história foi completamente diferente e bem menos nobre.
A ruptura inglesa com a Igreja Católica Romana não começou por causa de um debate sobre justificação pela fé, mas porque o rei Henrique VIII queria um herdeiro homem e o papa se recusou a anular o seu casamento com Catarina de Aragão para que ele pudesse se casar com Ana Bolena. Diante da negativa de Roma, o monarca rompeu relações com o papado, confiscou as terras dos mosteiros e, pelo Ato de Supremacia de 1534, declarou-se o chefe supremo da Igreja da Inglaterra.
A ironia da história é que foi exatamente no meio dessa confusão dinástica, política e violenta que germinou o movimento que mais tarde daria origem aos batistas.
A montanha-russa religiosa dos Tudors
Durante quase todo o século XVI, a Inglaterra viveu uma gangorra religiosa. O povo inglês dormia obrigado a rezar em latim e acordava obrigado a cantar hinos protestantes, dependendo exclusivamente de quem estivesse sentado no trono:
- Henrique VIII (1509–1547): Ele não queria ser protestante; queria ser, na prática, um papa inglês. Manteve as missas, a hierarquia de bispos e as doutrinas católicas quase intactas. Quem defendia Lutero era queimado na fogueira por heresia; quem defendia o papa era enforcado por traição.
- Eduardo VI (1547–1553): Filho de Henrique, assumiu o trono ainda menino e, sob a orientação de conselheiros reformados como o arcebispo Thomas Cranmer, abriu as portas da Inglaterra para a teologia protestante, permitiu o casamento dos padres e publicou o famoso Livro de Oração Comum em inglês.
- Maria I (1553–1558): Filha católica de Henrique com Catarina de Aragão, assumiu após a morte prematura de Eduardo e tentou empurrar a Inglaterra de volta para Roma à força de ferro e fogo. Ficou conhecida como “Maria Sanguinária” por mandar queimar quase trezentos líderes protestantes em praça pública, incluindo o próprio Cranmer e os bispos Hugh Latimer e Nicholas Ridley.
- Elizabeth I (1558–1603): Chegou ao trono decidida a acalmar os ânimos. Ela estabeleceu o chamado Acordo Elisabetano (Via Media): a Igreja Anglicana teria teologia protestante na confissão de fé, mas manteria toda a pompa, os trajes clericais e a hierarquia episcopal do catolicismo. Atribui-se a ela a frase de que não queria “abrir janelas nas almas dos homens”, desde que todo mundo comparecesse aos cultos estatais no domingo e jurasse lealdade à rainha.
Os puritanos e o grupo dos “radicais”
Para muitos ingleses que tinham fugido para a Europa durante as perseguições e aprendido a teologia bíblica em Genebra e Frankfurt, aquele acordo elisabetano parecia hipocrisia.
Eles começaram a ser chamados pejorativamente de puritanos porque queriam purificar a Igreja da Inglaterra de qualquer vestígio de papismo. Eles não aceitavam que os pastores usassem sobrepelizes cerimoniais, que os noivos usassem alianças no casamento ou que os fiéis se ajoelhassem diante do altar para tomar a ceia. Consideravam tudo isso invenção humana sem base bíblica, em nome da sola Scriptura: só a Escritura tem autoridade para ordenar o culto.
Só que havia uma divisão profunda entre eles:
- Os puritanos conformistas: acreditavam que valia a pena ficar dentro da Igreja Anglicana oficial, pregando e tentando reformá-la pacientemente por dentro.
- Os separatistas: olhavam para a igreja estatal e diziam que ela estava morta e corrompida além de qualquer esperança de conserto. Para eles, a verdadeira igreja de Cristo não podia ser um departamento burocrático do governo britânico. Pela leitura que faziam da Bíblia, o caminho era sair do meio dela e fundar congregações livres, baseadas na aliança voluntária entre os crentes e Cristo.
Ser separatista na Inglaterra de Elizabeth e, depois, de Tiago I era pedir para ser preso. Leis severas proibiam reuniões religiosas clandestinas em casas particulares.
A semente batista brota no exílio
Foi dentro dessa ala separatista perseguida que surgiu a centelha batista.
Por volta de 1606, em Gainsborough e Scrooby, dois grupos de separatistas se organizaram em congregações. Pouco depois, decidiram que não podiam mais viver sob a pressão da Coroa inglesa e fugiram para a Holanda, onde havia relativa tolerância religiosa. O grupo de Scrooby, que anos mais tarde embarcou no navio Mayflower, ficou conhecido como os “Pais Peregrinos” da Nova Inglaterra.
O grupo de Gainsborough era liderado por John Smyth, um ex-clérigo anglicano graduado em Cambridge, e por um advogado abastado chamado Thomas Helwys.
Em Amsterdã, enquanto estudavam a Bíblia dia e noite para descobrir o que significava ser uma igreja verdadeiramente neotestamentária, eles deram um passo que os próprios puritanos temiam dar. Olharam para o batismo infantil e perceberam a contradição: se a igreja é uma comunidade voluntária de santos reunidos por fé consciente, como continuar batizando recém-nascidos que não sabem discernir a mão direita da esquerda? No Novo Testamento, a ordem de Jesus é primeiro fazer discípulos e depois batizá-los (Mateus 28:19), e o batismo aparece depois da fé e do arrependimento (Atos 2:38).
Por volta de 1609, Smyth e Helwys romperam de vez com a tradição milenar da cristandade. Começaram a praticar o batismo exclusivamente de adultos convertidos, dando origem à primeira congregação batista da história.
O retorno corajoso à fornalha
A história poderia ter terminado em Amsterdã, onde eles viviam em paz. Só que a consciência de Helwys não o deixava sossegar. Ele sentiu que fugir para o exterior para salvar a própria pele, enquanto outros irmãos sofriam perseguição na Inglaterra, era covardia.
Em 1612, Helwys pegou uma parte da igreja, voltou para Londres e fundou em Spitalfields a primeira congregação batista em solo inglês. Ele sabia perfeitamente o risco que estava correndo.
Publicou seu famoso livro defendendo a liberdade de consciência para todos os cidadãos, dedicou a obra ao rei Tiago I e acabou preso em Newgate, onde morreu poucos anos depois. Pagou o preço máximo para que a semente da fé voluntária não morresse.
A soberania de Deus acima dos caprichos humanos
A trajetória que vai do divórcio de Henrique VIII até as celas de Newgate nos ensina algo comovente sobre a providência divina, que governa a história e faz o mal servir ao bem (Romanos 8:28).
Os reis e governantes daquela época achavam que estavam no controle absoluto da história: faziam leis religiosas, prendiam dissidentes, mudavam liturgias por capricho dinástico e usavam a igreja como instrumento de poder pessoal. Só que Deus não depende da santidade dos governos da terra para cumprir os seus planos.
Foi no meio do caos daquela política violenta que o Espírito Santo despertou a consciência de homens e mulheres comuns para lerem a Bíblia com novos olhos. Eles descobriram que a igreja de Jesus não pertence a Londres, a Roma ou a qualquer palácio terreno; ela pertence àquele que a comprou com o seu próprio sangue na cruz (Atos 20:28). Quando a fé se liberta das amarras do poder mundano, ela reencontra a sua verdadeira força espiritual.
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