
HistóriaReforma Protestante29 de 59
Martinho Lutero na maturidade: Glórias e tragédias
O outro lado de Martinho Lutero: Glórias e tragédias da maturidade
A maioria dos livros e filmes sobre Martinho Lutero termina no auge do drama: o monge corajoso em pé diante do imperador Carlos V, na Dieta de Worms, em 1521, dizendo a famosa frase: “Minha consciência é cativa da Palavra de Deus. Não posso e não vou me retratar de nada… Aqui permaneço, não posso fazer outra coisa. Que Deus me ajude”.
É um desfecho épico, só que a vida de Lutero não acabou ali. Ele viveu mais vinte e cinco anos depois daquele dia. E a segunda metade da sua trajetória, de 1525 até a morte, em 1546, é bem mais complexa, e mais desconcertante, do que o heroísmo da juventude.
Conhecer o Lutero da maturidade nos ajuda a enxergar o reformador sem a maquiagem da idolatria religiosa e sem o cancelamento fácil da nossa época: um homem apaixonado pelo evangelho, mas também marcado por dores crônicas, teimosias dolorosas e contradições que deixaram cicatrizes profundas na história da igreja.
O lar em Wittenberg e o fim do tabu monástico
O ano de 1525 começou com um escândalo que abalou a Europa: o casamento de Martinho Lutero com Catarina von Bora, uma ex-freira cisterciense que havia fugido de um convento, com outras freiras, escondida em barris de peixe.
Aquele casamento foi mais do que uma união amorosa: foi uma demolição pública de séculos de desvalorização do matrimônio e do corpo humano. O antigo mosteiro agostiniano de Wittenberg virou a casa da família Lutero. Ali nasceram seis filhos e foram acolhidos órfãos, parentes pobres e estudantes universitários, que se sentavam em volta de uma mesa de carvalho para comer, rir e discutir teologia, anotando o que mais tarde seria publicado como as Conversas à Mesa.
Lutero descobriu no casamento uma escola diária de santificação e paciência. Escreveu sobre a dignidade de trocar fraldas de bebês e ordenhar vacas como atos de adoração tão santos quanto qualquer oração litúrgica em latim.
A Bíblia na língua do povo e os catecismos
Foi também nessa fase que Lutero deu às famílias alemãs alguns dos seus maiores presentes pastorais.
Ao perceber que o povo das aldeias vivia numa ignorância religiosa assustadora (a maioria não sabia recitar nem o Pai Nosso, e muitos pastores mal sabiam ler), Lutero escreveu em 1529 o Catecismo Menor. Era um livreto simples e direto, feito para que os pais de família ensinassem aos filhos os Dez Mandamentos, o Credo dos Apóstolos, a Oração do Senhor e os sacramentos em volta da mesa de jantar.
Em 1534 concluiu a sua obra-prima literária: a tradução completa do Antigo e do Novo Testamento para o alemão (o Novo Testamento já havia saído em 1522). Ele não traduziu a Bíblia com palavras difíceis de tribunal; traduziu com a linguagem viva da feira e das mães que conversavam nas esquinas. Com isso, colocou a Palavra de Deus nas mãos do camponês, em coerência com o princípio da sola Scriptura, e contribuiu de modo decisivo para a formação da língua alemã moderna.
A ferida da Guerra dos Camponeses
Ao lado dessas grandezas, a maturidade de Lutero também teve decisões trágicas. A mais grave delas ocorreu durante a Guerra dos Camponeses (1524-1525).
Inspirados pelas pregações sobre a liberdade cristã, milhares de camponeses alemães se rebelaram contra a tirania dos senhores feudais, exigindo o fim da servidão e a redução de impostos abusivos. No início, Lutero advertiu os nobres com severidade: a opressão feudal era injusta e merecia o juízo de Deus.
Só que, quando os rebeldes pegaram em armas sob a liderança de pregadores radicais como Thomas Müntzer, queimando castelos e igrejas, o medo do caos e da anarquia tomou conta de Lutero.
Ele publicou um panfleto furioso, Contra as Hordas de Camponeses Ladrões e Assassinos, e convocou os príncipes a esmagar a revolta sem misericórdia. O resultado foi um massacre: mais de cem mil camponeses foram mortos pelas tropas dos nobres. Essa postura abriu uma ferida que afastou muitos trabalhadores pobres da Reforma e atrelou o luteranismo à tutela política dos príncipes alemães.
A intransigência na mesa de comunhão
Outra sombra dolorosa foi a divisão entre os próprios reformadores. Em outubro de 1529, o príncipe Filipe de Hesse reuniu os principais líderes protestantes no castelo de Marburgo, para tentar formar uma frente teológica unida diante do imperador católico.
Lutero e o reformador suíço Ulrico Zuínglio sentaram-se frente a frente. Concordaram em catorze de quinze artigos doutrinários fundamentais. Mas travaram no último ponto: a presença de Cristo na Ceia do Senhor. Zuínglio defendia que o pão e o vinho eram memoriais simbólicos do corpo e do sangue de Jesus; Lutero insistia na presença real de Cristo “em, com e sob” os elementos.
Tomado pela teimosia, Lutero escreveu a giz sobre a mesa as palavras latinas de Jesus: Hoc est corpus meum (Isto é o meu corpo). Quando Zuínglio, em lágrimas, estendeu a mão em sinal de comunhão ao final dos debates, Lutero recusou o aperto e disse que eles eram de espíritos diferentes. A fratura entre o luteranismo e a tradição reformada não foi superada em vida de nenhum dos dois.
O amargor dos últimos dias e o bilhete no bolso
Nos últimos anos, com a saúde em frangalhos (pedras nos rins, problemas cardíacos, úlceras dolorosas e zumbidos ensurdecedores nos ouvidos), o temperamento combativo de Lutero piorou. Sentindo que o fim do mundo estava próximo e que o diabo tentava sufocar a verdade a qualquer custo, escreveu panfletos agressivos contra os turcos, contra o papa e, de forma lamentável, contra os judeus, em 1543. Suas palavras amargas contra as sinagogas mancharam a sua reputação e foram usadas, séculos mais tarde, para fins desastrosos.
No dia 18 de fevereiro de 1546, em Eisleben, a mesma cidade onde havia nascido, Lutero morreu, aos sessenta e dois anos.
Depois da sua morte, amigos encontraram um pedaço de papel rabiscado no bolso do seu casaco. Era a sua última anotação teológica, escrita parte em latim e parte em alemão. A frase final resumia com honestidade toda a sua existência:
“Somos mendigos, esta é a verdade.”
Lutero sabia quem era. Não era um herói impecável, nem um santo intocável de vitral. Era um mendigo faminto que um dia encontrou o pão da graça de Deus e passou a vida inteira tentando dizer a outros mendigos onde encontrar comida. É o que a Escritura ensina: somos salvos pela graça, mediante a fé, e isso não vem de nós, é dom de Deus (Efésios 2:8-9), para que ninguém se orgulhe. A grandeza da Reforma nunca esteve na perfeição dos reformadores, mas na fidelidade dAquele que usa instrumentos imperfeitos e quebrados para fazer brilhar a glória soberana do Seu evangelho.
- História da Igreja
- Reforma Protestante
- Lutero