
TeologiaReforma Protestante122 de 133
Origem dos dogmas: Católicos e protestantes divergem
De onde vêm os dogmas? A diferença entre católicos e protestantes
A palavra “dogma” costuma causar arrepios na maioria das pessoas. Na linguagem popular, ser dogmático virou sinônimo de ser teimoso, intolerante e fechado ao diálogo. Na história da teologia cristã, porém, um dogma nunca foi teimosia caprichosa. Ele sempre representou uma verdade fundamental da fé, que a igreja formulou com cuidado para proteger a comunidade contra erros e distorções.
A grande discórdia entre a Igreja Católica Romana e os reformadores protestantes não estava na necessidade de ter doutrinas claras, mas numa pergunta essencial: de onde nasce um dogma e quem tem a autoridade final para decretá-lo?
Na perspectiva católica romana tradicional, o nascimento de um dogma é prerrogativa da chamada “igreja docente”, a hierarquia formada pelos bispos em comunhão com o papa.
Para a teologia católica, a revelação divina está guardada em duas fontes: as Escrituras Sagradas e a Tradição apostólica não escrita. O Concílio de Trento (1545-1563) declarou que ambas devem ser recebidas com igual reverência. Quando surge uma dúvida ou uma heresia, o magistério da igreja examina esse depósito da fé e proclama solenemente uma verdade como revelada por Deus.
Como a igreja romana se considera infalível quando define matérias de fé e moral, o dogma proclamado pelo papa ou por um concílio ecumênico torna-se irrevogável, imutável e de aceitação obrigatória para todos os fiéis. O povo cristão comum não participa da elaboração dessa verdade; cabe aos fiéis escutar, acatar com submissão e obedecer.
Quando Martinho Lutero e João Calvino entraram em cena, no século 16, propuseram uma visão bem diferente.
Para os reformadores, a Bíblia é a única fonte material de qualquer dogma verdadeiro (sola Scriptura). Nenhuma tradição oral, decreto papal ou bula eclesiástica tem poder para criar uma doutrina nova que não esteja expressamente revelada ou que não se deduza com clareza das Escrituras. O fundamento está no próprio texto bíblico: “Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para mostrar erros, para corrigir e para instruir na justiça” (2 Timóteo 3:16, Bíblia Livre). Os bereanos, por isso, foram elogiados por examinarem as Escrituras todos os dias, “para ver se estas coisas eram assim” (Atos 17:11, Bíblia Livre), mesmo quando quem ensinava era o apóstolo Paulo.
Isso não significa que os protestantes achassem que os dogmas caíam do céu prontos, como fatias de pão. Os reformadores reconheciam que um dogma não é um versículo isolado, copiado e colado da Bíblia. Ele é o fruto maduro da reflexão da igreja como corpo vivo de Cristo.
Ao longo dos séculos, diante de heresias e perseguições, a comunidade de crentes, iluminada pelo Espírito Santo, debruçou-se sobre as Escrituras para responder às dúvidas do seu tempo. Os credos antigos, como o de Niceia e o dos Apóstolos, e as confissões de fé da Reforma, como a de Augsburgo (1530) e a de Westminster (1646), nasceram desses embates históricos reais.
A diferença mais profunda entre os dois modelos está na infalibilidade.
Os reformadores rejeitaram com firmeza a ideia de que qualquer papa, concílio ou sínodo fosse infalível. Uma confissão de fé ou um dogma protestante tem grande peso pastoral e autoridade eclesiástica, mas é uma autoridade derivada e ministerial. A dogmática protestante posterior, luterana e reformada, resumiu isso em dois termos latinos: a Escritura é a norma normans (a regra que mede tudo), e as confissões da igreja são a norma normata (a regra que é medida pela Bíblia).
Se uma declaração doutrinária da igreja se mostrar em desacordo com o testemunho claro da Palavra de Deus, ela deve ser corrigida e reformada. Essa postura mantém a igreja humilde diante das Escrituras e lembra que nenhuma tradição humana pode ocupar o trono que pertence unicamente a Cristo e à sua Palavra.
- Teologia
- Católicos e Protestantes
- Dogmas
- Autoridade da Bíblia