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John Wycliffe: O professor que desafiou Roma antes de Lutero
John Wycliffe: Por que ele desafiou Roma mais de um século antes de Lutero
Mais de cem anos antes de Martinho Lutero pregar as suas noventa e cinco teses na porta da igreja do castelo de Wittenberg, um professor da prestigiada Universidade de Oxford já sacudia os alicerces da Europa medieval. O nome dele era John Wycliffe, e a história da igreja lhe deu um apelido poético e merecido: a estrela da manhã da Reforma.
Wycliffe não começou a vida pública como um rebelde marginal. Era um dos acadêmicos, filósofos e teólogos mais respeitados da Inglaterra no século catorze. À medida que avançava no estudo das Escrituras, porém, percebia o abismo que separava o cristianismo simples do Novo Testamento da opulência política e da corrupção institucional da corte papal.
A controvérsia sobre a Ceia do Senhor
Embora Wycliffe denunciasse abertamente o comércio de indulgências, a ganância do clero e a pretensão papal de exercer poder político supremo sobre as nações, a polêmica que mais o expôs em vida girou em torno de um tema litúrgico: a Ceia do Senhor.
Em 1215, no Quarto Concílio de Latrão, a Igreja de Roma havia transformado a doutrina da transubstanciação em dogma oficial e obrigatório. Segundo essa formulação filosófica, baseada em Aristóteles, no momento exato em que o sacerdote pronunciava as palavras da consagração no altar, a substância do pão e do vinho deixava de existir e se transformava no corpo e no sangue de Cristo, restando apenas os “acidentes” visíveis, como a cor, o cheiro e o sabor.
Wycliffe analisou essa posição com rigor bíblico e filosófico e concluiu que ela era uma inovação sem amparo nas Escrituras e sem sentido lógico. Para o mestre inglês, Cristo está verdadeira e espiritualmente presente no sacramento, mas o pão continua sendo pão e o vinho continua sendo vinho.
Ele argumentava que afirmar o desaparecimento da matéria do pão reduzia a celebração da ceia a um ato quase mágico e concedia aos sacerdotes o poder absurdo de “fabricar o Criador” com as próprias mãos a cada missa. Essa denúncia atingiu o prestígio clerical da época. Ao atacar a transubstanciação, Wycliffe perdeu o apoio de boa parte da nobreza e foi forçado a se afastar da vida acadêmica de Oxford.
A Bíblia na língua que o povo fala
Longe de se calar após o isolamento, Wycliffe se retirou para a sua paróquia em Lutterworth e dedicou os anos finais da sua vida ao projeto mais revolucionário da sua trajetória: a tradução da Bíblia para o inglês comum.
Naquela época, a Igreja mantinha a Bíblia em latim, a Vulgata. Para a imensa maioria da população inglesa, que não sabia latim e não tinha acesso a escolas formais, as Escrituras eram um livro selado. O povo dependia do que os padres escolhiam contar ou interpretar.
Wycliffe afirmava com firmeza que a Palavra de Deus pertence a todos os crentes, do rei ao trabalhador do campo. Esse era o princípio que mais tarde os reformadores chamariam de sola Scriptura: a Escritura é a autoridade suprema da fé e, como ensina Paulo em 2 Timóteo 3:16-17, é inspirada por Deus e capaz de preparar o servo de Deus para toda boa obra. Trabalhando pacientemente à mão, com colaboradores como Nicolau de Hereford e, depois, João Purvey, e muito antes da invenção da imprensa de Gutenberg, ele e a sua equipe produziram a primeira tradução completa da Bíblia para o inglês médio, a partir da Vulgata latina. Cada cópia manual levava meses para ser concluída e custava uma pequena fortuna, mas as cópias começaram a circular de mão em mão.
Para levar essas verdades ao povo simples, Wycliffe organizou um grupo de pregadores itinerantes chamados popularmente de lolardos. Eram homens que vestiam túnicas grosseiras de lã, andavam descalços pelos vilarejos e liam trechos dos Evangelhos traduzidos nas praças e feiras. Pela primeira vez em gerações, o sapateiro, o ferreiro e a dona de casa ouviam as palavras de Jesus na língua materna que usavam dentro de casa.
As cinzas que ganharam o oceano
A hierarquia da igreja respondeu com dureza. A leitura das traduções de Wycliffe foi proibida, e os lolardos passaram a ser perseguidos como hereges, alguns deles condenados à fogueira. O próprio Wycliffe, no entanto, sofreu um derrame e faleceu na sua paróquia no fim de 1384, sem ter sido levado à fogueira em vida.
A perseguição foi tão implacável que, trinta anos após a sua morte, o Concílio de Constança (o mesmo que condenou o mártir tcheco Jan Hus à fogueira) declarou Wycliffe herege obstinado. O concílio ordenou que seus ossos fossem desenterrados do cemitério cristão e queimados, e a ordem só foi cumprida em 1428: as cinzas foram atiradas nas águas do riacho Swift.
O historiador inglês Thomas Fuller escreveu, em sua História da Igreja da Grã-Bretanha (1655), um dos comentários mais belos sobre aquele episódio: o pequeno riacho Swift levou as cinzas de Wycliffe para o rio Avon; o Avon as levou para o rio Severn; o Severn as despejou nos mares estreitos; e estes as levaram para o oceano aberto. Da mesma forma, as ideias de Wycliffe não puderam ser contidas pelo fogo. Elas se espalharam por toda a cristandade e prepararam o terreno para a grande Reforma que explodiria pouco mais de cem anos depois.
A autoridade que liberta
O legado central de John Wycliffe não foi a fundação de uma nova denominação, mas o resgate de um princípio básico: a Palavra de Deus está acima de qualquer autoridade humana, papa ou concílio.
A história de Wycliffe nos lembra que a fé cristã não se alimenta de ignorância nem de controle hierárquico. Quando as pessoas têm acesso livre às Escrituras na sua própria língua, a religiosidade de fachada perde a força, a consciência é despertada e a graça de Deus, recebida pela fé em Cristo, ganha espaço no coração da sociedade.
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