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Reginald Pole: O último arcebispo católico de Cantuária
Entre o machado do rei e a fogueira da rainha: A história trágica do cardeal Reginald Pole
Poucos personagens da história da Igreja viveram uma vida tão cercada por tragédias familiares, dilemas de consciência e ironias políticas quanto o inglês Reginald Pole. Ele tinha sangue real, grande saber, espírito reformador e chegou a ficar a um único voto de ser eleito Papa. Mesmo assim, morreu amargurado, rejeitado tanto pela terra natal quanto pela cúria de Roma, e ficou marcado nos livros de história como o último arcebispo católico de Cantuária.
A trajetória de Pole mostra como as tempestades políticas e religiosas do século 16 foram capazes de arrastar até os homens mais cultos e moderados de seu tempo.
A recusa que custou uma família
Nascido em 1500, nobre de sangue tanto da Casa de Lancaster quanto da de York, Reginald Pole era primo distante do rei Henrique VIII. O monarca gostava do jovem inteligente e financiou seus estudos em Pádua e Paris, com a intenção de fazer dele uma das principais figuras da Igreja inglesa a serviço da coroa.
Só que os planos de Henrique VIII desmoronaram quando o rei decidiu anular seu casamento com Catarina de Aragão para se casar com Ana Bolena. Quando rompeu com Roma e se declarou o chefe supremo da Igreja na Inglaterra, o rei esperava que seu parente instruído escrevesse um tratado em defesa da nova ordem.
Pole se recusou. Em vez de apoiar o capricho do monarca, refugiou-se na Itália e escreveu em 1536 um livro duro em defesa da unidade da Igreja e da autoridade papal.
A vingança de Henrique VIII foi feroz. Como não conseguia alcançar o exilado no continente, o rei descontou a raiva na família que havia ficado para trás. O irmão mais velho de Pole foi condenado por traição e executado em 1538. A mãe, a condessa Margaret Pole, uma mulher devota de quase setenta anos, ficou presa na Torre de Londres e foi decapitada em 1541, numa das cenas mais brutais do reinado Tudor. A dor desse luto nunca abandonou a alma de Reginald.
O reformador que quase foi Papa
No exílio italiano, Pole conquistou a admiração do Papa Paulo III e foi criado cardeal. Ele se uniu ao círculo dos Spirituali, ao lado de homens como Gasparo Contarini e da poetisa Vittoria Colonna. Esse grupo estava convencido de que a moral e os costumes da Igreja Católica precisavam de reforma urgente, e defendia a primazia da graça e o estudo das Escrituras, numa linha próxima da justificação pela fé que os reformadores pregavam.
Pole foi um dos três legados papais que abriram o histórico Concílio de Trento em 1545. No conclave de 1549, convocado com a morte de Paulo III, o prestígio de Pole era tão grande que ele recebeu o apoio de muitos cardeais. Na votação mais acirrada, segundo a tradição, faltou um único voto para que ele alcançasse os dois terços necessários para ser eleito Papa. Alguns aliados sugeriram que ele negociasse esse voto nos bastidores, mas Pole recusou por escrúpulo de consciência, dizendo que não faria campanha por um ofício santo. A eleição acabou recaindo sobre Júlio III.
O retorno amargo à Inglaterra
A grande reviravolta na vida de Pole parecia ter chegado em 1553. Na Inglaterra, o jovem rei protestante Eduardo VI morreu cedo, e a prima católica de Pole, Maria Tudor (filha de Catarina de Aragão), assumiu o trono.
A rainha chamou Pole de volta após mais de vinte anos de exílio. Ele voltou a Londres em 1554 com pompa, recebido como o herói que restauraria a comunhão da Inglaterra com a Sé romana, e em 1556, depois da execução de Cranmer, assumiu o arcebispado de Cantuária.
A restauração, porém, virou um pesadelo. Maria I estava decidida a acabar com o protestantismo a ferro e fogo. Em um reinado de apenas cinco anos, quase trezentos clérigos e fiéis protestantes foram queimados vivos, entre eles Thomas Cranmer, Hugh Latimer e Nicholas Ridley. A soberana ficou conhecida para sempre como “Maria Sanguinária”.
Pole, segundo seus defensores, preferia a persuasão e a instrução por meio de seminários para formar o clero. Mesmo assim, era a principal autoridade eclesiástica do país, e a perseguição seguiu em frente sob o seu arcebispado. As fogueiras públicas não converteram a nação. Pelo contrário, abalaram o povo inglês e criaram uma repulsa duradoura ao catolicismo romano na ilha.
Para completar a tragédia de Pole, até Roma lhe virou as costas. Em 1555, seu velho desafeto, o rígido cardeal Gian Pietro Carafa, foi eleito Papa como Paulo IV. O novo pontífice, intransigente e desconfiado, acusou Pole de simpatias luteranas secretas por causa do seu passado nos círculos reformadores, retirou-lhe a condição de legado papal e ordenou que voltasse a Roma para ser julgado pela Inquisição.
O último ato
Protegido pela rainha Maria, que se recusou a entregar seu arcebispo ao Papa, Reginald Pole ficou na Inglaterra, exausto e doente, vendo ruir todas as suas esperanças.
Em 17 de novembro de 1558, a rainha Maria I morreu de influenza, aos 42 anos. Cerca de doze horas depois, o cardeal Reginald Pole deu seu último suspiro no Palácio de Lambeth, em Londres.
Com a morte da soberana e do seu arcebispo quase no mesmo momento, a coroa passou para Elizabeth I, que firmou a Igreja da Inglaterra no caminho do protestantismo reformado. A vida de Reginald Pole fechou um ciclo de ferro e sangue. Ficou o testemunho de um homem que tentou conciliar a consciência com lealdades contraditórias e acabou esmagado entre o poder e a intolerância de sua época.
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