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Por que a Reforma Protestante ainda importa hoje
Por que a Reforma ainda importa para todos nós?
Quando ouvimos falar da Reforma Protestante do século XVI, a tendência quase automática é pensar numa briga entre duas facções religiosas que racharam a Europa há quinhentos anos. O historiador genebrino J. H. Merle d’Aubigné propôs uma distinção lúcida: a história da Reforma não se confunde com a história do protestantismo institucional. O protestantismo, ao longo dos séculos, muitas vezes se perdeu em disputas políticas, divisões sectárias e picuinhas humanas. A Reforma, pelo contrário, foi um poderoso movimento de renovação espiritual que recolocou a humanidade diante da verdade do evangelho. Por isso tem lições indispensáveis para qualquer cristão de hoje.
A pergunta central que d’Aubigné coloca diante de nós é simples: como enxergamos o passado? Para muita gente, a história humana parece um amontoado caótico de datas, guerras, reis gananciosos e acidentes aleatórios. Os antigos procuravam explicar os grandes eventos pela arte ou pela filosofia política. Só que existe uma dimensão mais profunda, que os cristãos sempre sustentaram: Deus governa ativamente a história.
Deus age de uma maneira que costuma desconcertar o orgulho humano. Quando o homem decide construir um império ou fazer uma revolução, mobiliza exércitos imensos, gasta fortunas e arma palanques gigantescos. Deus prefere agir como a semente de mostarda, a menor de todas, que cresce até virar árvore (Mateus 13:31-32). Ele escolhe começos discretos, quase imperceptíveis, para transformar o mundo. Foi assim que o Salvador nasceu numa estrebaria em Belém, e foi assim que a Reforma começou, quando um monge anônimo da Saxônia protestou contra a venda abusiva de indulgências em 1517.
Martinho Lutero usava uma comparação divertida para explicar esse princípio. Dizia que o mundo se parecia com uma mesa de jogo de cartas dominada por reis, duques e pelo próprio papa de Roma. De repente, Deus entrou na sala, virou o jogo e decidiu vencer a partida com as cartas mais fracas da mesa, cumprindo o cântico de Maria: “Derrubou dos seus tronos os poderosos e exaltou os humildes” (Lucas 1:52).
Examinando o fenômeno religioso, vemos três modelos básicos de fé competindo entre si.
O primeiro é a religião do sacerdote, também chamada de hierarquismo. Nela, uma casta clerical se coloca como mediadora exclusiva entre o ser humano e Deus, controlando o acesso ao sagrado e transformando a graça divina num monopólio institucional. Mas há “um só Mediador entre Deus e os seres humanos” (1 Timóteo 2:5, Bíblia Livre).
O segundo é a religião do homem, ou seja, o racionalismo. É a tentativa humana de domesticar a fé, reduzindo as Escrituras e os mistérios divinos àquilo que cabe confortavelmente na lógica da razão finita.
O terceiro é a religião de Deus, o evangelho puro revelado nas Escrituras (sola Scriptura). Nele, a salvação não depende da autorização de uma casta sacerdotal nem da pretensão intelectual humana, mas do dom soberano da graça, recebido pela fé, somente em Jesus Cristo (sola gratia, sola fide, solus Christus; Efésios 2:8-9).
Tanto o catolicismo romano preso ao peso das suas estruturas políticas quanto o protestantismo contemporâneo diluído em sermões vagos e mundanos sofrem do mesmo mal quando se afastam desse centro. A verdadeira renovação nunca nasce de comissões eclesiásticas nem de acordos humanos. Como dizia Arquimedes, para mover a terra é preciso um ponto de apoio fora dela. O evangelho de Cristo é esse ponto firme fora das vaidades humanas, capaz de transformar a nossa vida e endireitar os rumos da sociedade.
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