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HistóriaReforma Protestante7 de 59

John Wycliffe e a Bíblia na língua do povo inglês

John Wycliffe e a Luta para Colocar a Bíblia na Língua do Povo

Diego Gonçalves3 min de leitura657 palavras

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Muito antes de Martinho Lutero afixar suas 95 teses em Wittenberg ou de João Calvino lecionar em Genebra, um professor da Universidade de Oxford já sacudia as estruturas da Europa medieval com uma verdade simples e perigosa: nenhuma autoridade humana, seja ela bispo, concílio ou papa, pode estar acima da Palavra de Deus. Aquele homem era John Wycliffe, que a história da igreja mais tarde consagraria com o belo título de “A Estrela da Manhã da Reforma”.

Para compreender a coragem de Wycliffe no século XIV, precisamos olhar para a realidade espiritual da Inglaterra de então. O país era formalmente católico, mas a imensa maioria dos camponeses e artesãos jamais havia visto uma Bíblia aberta. O texto sagrado estava trancado no latim, um idioma acessível apenas a uma minoria culta e ao alto clero.

Pintura em que John Wycliffe, sentado, lê sua tradução da Bíblia em inglês a João de Gante e a outros presentes
Ford Madox Brown, John Wycliffe lendo sua tradução da Bíblia a João de Gante, 1847-1848. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Essa barreira linguística mantinha a população completamente dependente dos intermediários religiosos. Os fiéis acreditavam em tudo o que lhes era ensinado no confessionário e compravam indulgências com o pouco dinheiro que tinham, sem desconfiar de que nada daquilo encontrava respaldo nas páginas dos evangelhos.

Wycliffe era um dos acadêmicos mais respeitados de Oxford, profundo conhecedor da filosofia e da teologia. Ao mergulhar no texto bíblico, ele percebeu o abismo moral entre a simplicidade de Cristo e a opulência dos altos prelados de Roma, que acumulavam bispados e cobravam tributos pesados da nobreza e do povo. Wycliffe começou a lecionar e escrever que a igreja visível não era dona da graça divina e disparou uma frase que escandalizou a hierarquia da época: “Mesmo que houvesse cem papas e todos os frades fossem cardeais, eles só deveriam ser ouvidos se concordassem com a Escritura”.

Wycliffe, porém, não se contentou em fazer críticas teóricas dentro das salas de aula universitárias. Ele entendeu que a raiz da manipulação religiosa só seria cortada quando o lavrador no campo e a dona de casa na cozinha pudessem ler a Bíblia no próprio idioma materno. Lembrando o antigo adágio de Jerônimo, “ignorar as Escrituras é ignorar o próprio Cristo”, ele e seus colaboradores iniciaram uma empreitada clandestina monumental: traduzir a Bíblia inteira do latim para o inglês popular, cópia por cópia, à mão, décadas antes da invenção da imprensa.

A hierarquia da igreja proibiu terminantemente as traduções não autorizadas, considerando que colocar a Bíblia na boca dos leigos era lançar pérolas aos porcos. Cópias manuscritas de Wycliffe foram caçadas e queimadas em fogueiras públicas. Mesmo assim, os discípulos de Wycliffe, chamados pejorativamente de Lollardos, decoravam longos trechos dos evangelhos, escondiam pergaminhos debaixo das vestes e viajavam a pé por toda a Inglaterra ensinando a mensagem da salvação pela graça, mediante a fé em Cristo, diretamente às famílias humildes.

A semente lançada por Wycliffe cruzou as fronteiras britânicas. Seus livros chegaram à Universidade de Praga, na Boêmia, e acenderam a chama da pregação de Jan Hus, que morreria na fogueira em 1415 defendendo os mesmos princípios bíblicos.

Ter uma Bíblia aberta em nossa própria língua hoje, num exemplar na estante ou num aplicativo no celular, é um privilégio conquistado com o sangue e o suor de homens que arriscaram a vida contra o monopólio da fé. A história de Wycliffe nos ensina que a Palavra de Deus não tolera correntes. Ela liberta as consciências, devolve o crente ao contato direto com o Salvador e permanece como a autoridade suprema, o único padrão seguro para avaliar qualquer discurso religioso em qualquer época.