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John Bunyan: a conversão do funileiro de Bedford

Uma Mudança Radical: A História da Conversão de John Bunyan

Diego Gonçalvesatualizado 5 min de leitura930 palavras

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Neste texto

Poucos livros influenciaram tanto o imaginário cristão quanto O Peregrino. O clássico de John Bunyan foi traduzido pra centenas de línguas e mostra com muita precisão o caminho da alma, desde a Cidade da Destruição até a entrada na Cidade Celestial. Só que a caminhada do próprio Bunyan começou na lama de Bedford, onde um funileiro brigão foi despertado por uma conversa que ele ouviu por acaso no meio da rua.

Três mulheres na soleira da porta

Quando era jovem, Bunyan era conhecido pelo gênio esquentado, pela boca suja e pela mania de blasfemar até deixar incomodados os próprios companheiros de taberna. Serviu no exército parlamentar durante a Guerra Civil Inglesa. Depois casou e tentou melhorar de vida consertando tachos e panelas velhas.

Um dia, andando pelas ruas de Bedford com a caixa de ferramentas nas costas, atrás de clientes, ele passou por uma porta ensolarada perto da High Street. Ali estavam sentadas três mulheres pobres, costurando e conversando tranquilas ao sol. Bunyan chegou perto pra ouvir o assunto e levou um susto. Segundo o relato, foi mais ou menos isto que ele ouviu:

“Elas falavam de um novo nascimento, de como Deus havia trabalhado no coração delas para mostrar seu estado perdido e como estavam antes sob condenação por causa do pecado. Falavam com tanta doçura da misericórdia de Deus em entregar o Seu Filho amado na cruz, e de como encontraram em Cristo verdadeira paz e descanso para a alma! Pareceu-me que estavam num mundo totalmente diferente do meu. Elas falavam da graça de Deus com uma alegria viva que eu nunca tinha visto em lugar nenhum.”

A chaleira confiscada e a viúva na miséria

Uma das mulheres, Mary Fenne, lembrou de uma época em que o oficial de justiça bateu na porta dela e levou a única chaleira de ferro e a almofada de fazer renda, pra pagar uma taxa da igreja:

“Fiquei tão aflita que caminhei no escuro pela margem do rio, perto da prisão da cidade. Ao olhar para as águas escuras, lembrei-me do rio que o profeta Ezequiel viu na visão, e senti que as águas curativas de Deus alcançavam o meu coração seco. A doçura de Cristo desceu sobre mim de tal maneira que senti que pouco importava o que os homens tirassem de mim, desde que me deixassem Cristo e Sua graça. Fiquei tão cheia de paz que tive vontade de gritar de alegria para as nuvens e para as árvores.”

Aí uma senhora idosa e enrugada, a quem chamavam de Norton, balançou a cabeça concordando:

“É exatamente isso. Conheci dores profundas nesta vida. Quando meu marido morreu devido aos ferimentos da guerra, minha alma encontrou apoio firme na promessa de Deus. Vejam, comadres: hoje eu tenho apenas um tostão por semana para me sustentar, mas não trocaria o amor de Cristo para ser o grande Conde de Bedford!”

Bunyan ficou parado, de queixo caído. Aquelas mulheres não estavam repetindo reza decorada nem discutindo regra de paróquia. Elas conheciam a Deus de verdade. O funileiro abriu o coração pra elas e admitiu a aflição que sentia. As mulheres acolheram ele na hora e levaram ele ao pastor John Gifford, líder de uma congregação dissidente na cidade.

O engano da reforma moral

No começo, Bunyan tentou resolver a angústia reformando a conduta por fora. Parou de praguejar, começou a ir aos cultos e passou a cumprir os mandamentos com um rigor fanático. Os vizinhos se admiraram com a mudança e começaram a elogiar ele como modelo de virtude.

Só que por dentro a angústia continuava. Bunyan sabia que estava só pintando a parede de uma casa em ruínas:

“Se eu tivesse morrido naquela época, meu estado teria sido o mais terrível possível. Eu estava tentando construir o meu próprio caminho para o céu por meio das obras.”

A consciência acusava cada falha e cada pensamento impuro. Não havia paz, nem certeza de perdão.

A luz de Hebreus 12

O nó só se desfez numa conversa em casa, com a esposa. Aflito, Bunyan perguntou se ela lembrava de alguma passagem da Bíblia que dissesse “eu devo ir a Jesus”. Ela respondeu que não sabia.

Bunyan sentou num canto da sala e começou a passar a Bíblia na memória. De repente, as palavras de Hebreus 12 vieram com a força de um relâmpago:

“Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo […] e a Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão que fala coisas superiores às que Abel falou.”(Hebreus 12:22, 24)

Bunyan pulou da cadeira e disse pra mulher: “Agora eu sei! Agora eu entendi!”.

O Mediador já tinha feito a paz. O sangue da aspersão tinha quitado a dívida do pecador, e não havia mais condenação pra quem estava refugiado em Cristo. Mais tarde, ele descreveu aquela noite:

“Aquela foi uma das melhores noites da minha vida. Mal consegui pregar os olhos na cama de tanta paz e alegria em Cristo. Toda a escuridão que me atormentava durante anos desapareceu, e a realidade bendita do Céu ficou límpida diante dos meus olhos. Bendito seja Deus por ter tido misericórdia de mim!”

Anos depois, Bunyan passou doze anos preso na cadeia de Bedford por se recusar a parar de pregar. Foi lá, segundo a tradição, que ele pegou pena e papel e escreveu O Peregrino. O mundo inteiro aprendeu o caminho da cruz por meio de um funileiro que um dia parou numa calçada ensolarada pra ouvir três mulheres falarem da graça de Deus.