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Anglicanos vs reformados: 10 pontos de atrito protestante

Anglicanos e reformados: 10 pontos de atrito na história protestante

Diego Gonçalves9 min de leitura1.700 palavras

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Quando a Reforma Protestante sacudiu a Europa no século XVI, a Inglaterra e a Escócia viveram um dos dramas religiosos e políticos mais intensos da história ocidental. De um lado da fronteira, os ingleses consolidaram o anglicanismo, num caminho que ficou conhecido como a Via Media: uma igreja que rompeu com o papado romano, mas manteve a solenidade litúrgica, as catedrais imponentes e o governo por bispos. Do outro lado, os escoceses liderados por John Knox e os puritanos ingleses abraçaram a tradição reformada calvinista e exigiram uma ruptura radical com qualquer elemento litúrgico que lembrasse a igreja medieval.

Essa disputa não ficou apenas em livros acadêmicos. Ela provocou guerras civis sangrentas, derrubou um rei do trono britânico (Carlos I, executado em 1649) e levou milhares de puritanos a fugir em navios para colonizar a América do Norte.

Pintura da assinatura do Pacto Nacional escocês sobre uma lápide no cemitério da Greyfriars, em Edimburgo, com uma multidão em volta
William Hole, A assinatura do Pacto Nacional no cemitério da Greyfriars, Edimburgo, 1638, 1903. Centro de Arte da Cidade de Edimburgo. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Embora as duas igrejas pertençam à família protestante histórica e professem a justificação somente pela fé em Cristo, os dez pontos a seguir mostram onde as duas tradições entraram em rota de colisão.

1. O governo da igreja: bispos versus presbitérios

O ponto de conflito mais barulhento sempre foi o modelo de liderança eclesiástica:

  • Os anglicanos (governo episcopal): mantiveram a estrutura histórica do episcopado. A igreja é governada por três ordens ministeriais: bispos, presbíteros (padres ou pastores) e diáconos. Para o anglicanismo, os bispos guardam a unidade da fé e representam a continuidade histórica da igreja desde os tempos dos apóstolos (a sucessão apostólica).
  • Os reformados (governo presbiteriano): rejeitaram o poder dos bispos. Afirmam, com base no Novo Testamento, que as palavras gregas presbyteros (ancião ou presbítero) e episkopos (bispo ou supervisor) descrevem o mesmo ofício pastoral. Em Tito 1:5 e 1:7, Paulo fala dos mesmos homens primeiro como presbíteros e depois como bispos; em Atos 20:17 e 20:28, os presbíteros de Éfeso são chamados de supervisores do rebanho. Na eclesiologia reformada, todos os pastores têm a mesma autoridade e governam juntos em conselhos representativos: conselhos locais, presbitérios regionais e assembleias gerais.

2. A adoração: o princípio normativo versus o princípio regulador

Como a igreja deve cultuar a Deus no domingo?

Os anglicanos adotaram o chamado princípio normativo do culto. Formulado pelo teólogo Richard Hooker na clássica obra Das Leis da Política Eclesiástica, esse princípio defende que a igreja tem liberdade de adotar cerimônias, vestimentas, símbolos e costumes que a Bíblia não proíbe, desde que sirvam à ordem, à beleza e à decência do culto (1 Coríntios 14:40).

Os reformados e puritanos responderam com o rigoroso princípio regulador do culto. Para a tradição calvinista, a igreja só pode praticar na adoração pública o que as Escrituras ordenam, por mandamento ou por exemplo. Eles apoiavam isso em passagens como Deuteronômio 12:32 e Mateus 15:9. Qualquer acréscimo humano na liturgia, por mais bonito ou antigo que parecesse, era visto pelos puritanos como ofensa à suficiência da Palavra de Deus.

3. A liturgia: o Livro de Oração Comum versus a pregação expositiva livre

Para os anglicanos, o coração da vida comunitária pulsa nas páginas do Livro de Oração Comum (Book of Common Prayer), redigido pelo arcebispo Thomas Cranmer em 1549. O culto segue uma ordem fixa de orações lidas, recitação de salmos, respostas da congregação e a celebração reverente da Ceia.

Folha de rosto da primeira edição do Livro de Oração Comum, de 1549
Folha de rosto do Livro de Oração Comum, de Thomas Cranmer, 1549. Biblioteca Britânica, Londres. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Os reformados criticavam o uso obrigatório de orações prontas. Temiam que a repetição mecânica de textos decorados esfriasse o coração diante do Espírito Santo. No culto puritano, a liturgia foi simplificada ao máximo para dar lugar ao momento central: o sermão expositivo da Bíblia, que costumava durar mais de uma hora.

4. A polêmica dos adiaphora e os resquícios medievais

Entre os séculos XVI e XVII, a Inglaterra viveu a chamada “Controvérsia das Vestimentas”. Para os anglicanos, o uso de sobrepelizes brancas pelo clero, o sinal da cruz feito na testa dos bebês no batismo, a troca de alianças no casamento e o gesto de ajoelhar-se para receber o pão e o vinho na Ceia eram questões secundárias e indiferentes (adiaphora), que o rei e os bispos tinham o direito de exigir para manter a uniformidade do reino.

Para os reformados, essas práticas eram resquícios perigosos do catolicismo medieval, que alimentavam a superstição do povo simples. Cerca de dois mil pastores puritanos preferiram ser expulsos de seus púlpitos, na “Grande Ejeção de 1662”, a se submeter a ritos que consideravam contrários à liberdade cristã.

5. Quem é o chefe da igreja? O monarca versus Cristo

No anglicanismo, desde o Ato de Supremacia de Henrique VIII (1534) e a restauração dele por Elizabeth I (1559), o rei ou a rainha da Inglaterra detém o título legal de Governador Supremo da Igreja da Inglaterra. A coroa nomeava os bispos e o parlamento aprovava as leis eclesiásticas.

Os reformados escoceses consideravam essa subordinação da igreja ao trono uma traição espiritual inaceitável. Na Escócia, os Covenanters assinaram o Pacto Nacional em 1638, alguns deles, segundo a tradição, com o próprio sangue, sob o lema “Pela Coroa e pela Aliança de Cristo” (For Christ’s Crown and Covenant). Sustentavam que Jesus Cristo é o único Rei e Cabeça da igreja (Colossenses 1:18; Efésios 1:22) e que nenhum magistrado civil tem autoridade sobre o governo espiritual do Reino de Deus.

6. A regeneração batismal

No rito tradicional de batismo infantil do Livro de Oração Comum, depois de derramar a água sobre a criança, o sacerdote dizia: “Visto que esta criança agora foi regenerada…”.

Os teólogos reformados rejeitavam essa declaração. Para os calvinistas, o batismo é sinal e selo externo da Aliança da Graça, mas a regeneração interior é obra soberana e invisível do Espírito Santo, concedida aos eleitos de Deus no Seu tempo, e não um efeito automático do contato com a água da pia batismal. O próprio John Wesley, que nasceu e morreu anglicano, distinguiu as duas coisas no sermão “O novo nascimento”: o batismo é o sinal externo, e o novo nascimento é a obra interior do Espírito, que se dá pela fé.

7. O tripé hermenêutico versus Sola Scriptura

O teólogo anglicano Richard Hooker consolidou a ideia, que depois foi resumida na imagem do tripé, de que a teologia cristã caminha sobre três pernas interligadas: a Escritura, a tradição dos primeiros séculos e a razão humana. Em Hooker, a Bíblia ocupa o lugar de honra, e o Artigo 6 dos Trinta e Nove Artigos afirma que ela contém tudo o que é necessário para a salvação. Ainda assim, a tradição e a razão ganham peso interpretativo importante.

A tradição reformada sempre insistiu no princípio da Sola Scriptura sem nada ao lado da Bíblia como regra de fé. A Bíblia interpreta a própria Bíblia (Scriptura sacra sui ipsius interpres). A razão humana é uma faculdade caída, que precisa ser corrigida pelo texto sagrado, e a tradição dos homens não tem autoridade que prenda a consciência do crente.

8. As confissões de fé: artigos concisos versus sistemas dogmáticos

A identidade doutrinária de cada igreja reflete temperamentos diferentes:

  • Anglicanismo: adotou os Trinta e Nove Artigos de Religião (1563). Os artigos são moderados, concisos e redigidos com certa amplitude, de modo que cristãos de sensibilidades diferentes pudessem conviver sob o mesmo teto nacional.
  • Tradição reformada: produziu a Confissão de Fé de Westminster (1647) e os Catecismos Maior e Breve. Westminster é um sistema teológico calvinista extenso, minucioso e rigoroso, que exige concordância doutrinária precisa de todos os oficiais ordenados da igreja.

9. Diversidade interna: a grande tenda versus a ortodoxia confessional

Ao longo dos séculos, o anglicanismo virou uma “grande tenda” que abriga três correntes bem distintas sob a mesma comunhão:

  1. A Low Church (evangélica): teologicamente reformada, voltada para a pregação bíblica e o evangelismo.
  2. A High Church (anglo-católica): apegada à liturgia solene, aos sacramentos e à herança anterior à Reforma.
  3. A Broad Church (liberal): aberta ao pensamento crítico moderno e às mudanças culturais.

O presbiterianismo e as igrejas reformadas continentais, por outro lado, sempre deram prioridade à pureza confessional e preferiram divisões eclesiásticas a tolerar teologias contraditórias dentro do mesmo presbitério.

10. A estética no santuário: beleza sacramental versus sobriedade da Palavra

Quem visita os templos das duas tradições percebe a teologia pelos olhos.

As catedrais anglicanas são monumentos de beleza artística: vitrais com cenas bíblicas, corais treinados que cantam peças sacras clássicas, cruzes processionais e mesas de altar adornadas. A adoração anglicana usa a visão, a audição e o olfato como caminhos de reverência ao Criador.

Os templos reformados históricos, por sua vez, abraçaram uma sobriedade marcante: paredes claras e sem imagens, nenhum altar ornamentado e um grande púlpito de madeira no centro do edifício. Para o reformado, nada deve competir com a atenção de quem ouve. O único brilho necessário na casa de Deus é o da Palavra fielmente pregada.

O que essa tensão nos ensina

A disputa entre anglicanos e reformados mostra duas buscas legítimas da alma cristã.

O anglicanismo nos lembra da importância da reverência litúrgica, da beleza das artes no culto, da ligação com a história antiga da igreja e da generosidade pastoral para acolher irmãos que pensam diferente em questões secundárias.

A tradição reformada nos confronta com o zelo pela pureza do Evangelho, com a autoridade das Escrituras acima de qualquer autoridade terrena e com a coragem de lembrar que a igreja de Cristo só se mantém de pé quando a Palavra de Deus governa com fidelidade cada detalhe da sua vida. Nos dois casos, a salvação é a mesma: pela graça, mediante a fé, somente em Cristo.