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Hans Luder e a educação de Lutero: O pai e o monge
O pai que pagou os estudos e o filho que virou monge: A família de Lutero
Todo pai que trabalhou no pesado sonha em ver os filhos chegarem aonde ele não conseguiu. É uma das aspirações mais humanas e compreensíveis que existem: acordar cedo, gastar a saúde no trabalho braçal, economizar cada centavo e investir tudo nos estudos dos filhos, para que tenham a vida confortável e respeitada que o pai nunca teve. No começo do século XVI, na Alemanha, foi esse sonho que moveu o minerador de cobre Hans Luder em relação ao seu primogênito, Martinho.
Hans vinha de uma família humilde de camponeses. Com disciplina e muito suor, deixou a picareta para trás e montou suas próprias fundições em Mansfeld, chegando a conquistar um assento no conselho municipal. Sabia bem como a sociedade da época tratava quem não tinha dinheiro ou instrução. Por isso, traçou um plano para o filho mais velho: Martinho não cuidaria de fornalhas nem de minério; Martinho seria advogado.
Naquela época, o direito era a porta de entrada para a alta sociedade e para os gabinetes dos príncipes. Hans não economizou. Pagou escolas de latim e sustentou Martinho na Universidade de Erfurt. Quando o jovem concluiu o mestrado com louvor e entrou na faculdade de direito, o pai estava tão orgulhoso que lhe deu de presente o Corpus Juris Civilis, uma coleção de livros jurídicos caríssima, equivalente a um pequeno patrimônio na época.
Só que a vida tem reviravoltas que nenhum planejamento paterno consegue prever.
Em 1505, depois do susto do raio na tempestade, Martinho tomou a decisão que Hans menos esperava: largou a faculdade, vendeu seus livros de direito e entrou no Mosteiro dos Agostinianos.
Para Hans, aquilo foi um golpe devastador. Ele não viu santidade nenhuma na escolha; viu um ato de ingratidão. O investimento de uma vida inteira parecia jogado fora, para o filho se trancar numa cela fria, vivendo de esmolas e orações. Furioso, o pai lembrou a Lutero o mandamento que ordena honrar pai e mãe e o acusou de desonrar a família:
“Honra a teu pai e a tua mãe, para que teus dias se alarguem na terra que o SENHOR teu Deus te dá.”
(Êxodo 20:12, Bíblia Livre)
Os dois ficaram anos sem se falar direito.
Mas a providência de Deus tem uma ironia refinada. O dinheiro que Hans gastou com a educação do filho não foi perdido. O domínio rigoroso da lógica, do latim e da argumentação jurídica que Hans financiou deu a Lutero ferramentas intelectuais para enfrentar a teologia das indulgências anos depois. Sem a formação de jurista afiado, dificilmente teria sustentado seus debates diante de cardeais e imperadores. Foi Deus, e não a astúcia de Hans, quem conduziu cada passo; ainda assim, serviu-se do esforço honesto daquele pai.
Com o tempo, a reconciliação veio. Em 1521, já como líder da Reforma, Lutero escreveu o tratado Sobre os Votos Monásticos e o dedicou ao seu velho pai. Na dedicatória, com ternura e humildade, Martinho reconheceu que o pai tinha razão naquela discussão antiga: ninguém deve usar votos religiosos para fugir das responsabilidades naturais com a família e com o próximo. Para Lutero, o que nos faz justos diante de Deus nunca foi a vida de claustro, mas a graça, recebida pela fé em Cristo.
Essa história nos faz pensar nas tensões entre as expectativas dos pais e os chamados misteriosos da vida. Hans queria um advogado bem-sucedido na corte; Deus usou o esforço honesto daquele pai para preparar a mente que sacudiria a história da igreja.
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