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TeologiaReforma Protestante36 de 59

Maria segundo Lutero: O Natal sem filtro na manjedoura

O Natal sem filtro: O que Lutero viu na manjedoura que esquecemos?

Diego Gonçalves5 min de leitura943 palavras

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Neste texto

Se você já montou um presépio em casa ou assistiu a uma cantata de Natal na igreja, conhece o roteiro: a estrebaria parece uma casinha de boneca decorada, a palha brilha limpinha sob uma luz dourada, os bichos olham em silêncio com cara de admiração e Maria aparece sentada com um manto impecável, parecendo uma estátua de mármore que nunca pegou um resfriado na vida.

Adoramos limpar a história para deixá-la bonita e confortável na sala de estar. Só que no século 16 o reformador Martinho Lutero olhou para essas versões açucaradas e avisou: quem transforma o nascimento de Jesus num conto de fadas perde o que o evangelho tem de mais precioso.

Pintura noturna do nascimento de Jesus: Maria, José e pastores reunidos em torno do bebê deitado na palha, iluminados só pela luz que vem da criança
Gerard van Honthorst, A adoração dos pastores, 1622. Galeria dos Uffizi, Florença. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Para Lutero, o escândalo da encarnação não estava na glória celestial dos anjos, mas no barro da realidade humana: o Criador de todas as coisas nasceu no frio, no cheiro de esterco e no choro desamparado de uma adolescente pobre do interior. É o que o evangelista conta com poucas palavras:

“E aconteceu que, enquanto eles ali, completaram-se os dias em que ela havia de dar à luz. E deu à luz seu filho primogênito, e o envolveu em panos, e o deitou numa manjedoura; porque não havia lugar para eles na hospedaria.”

(Lucas 2:6-7, Bíblia Livre)

Uma camponesa exausta, não uma estátua

Na época do imperador César Augusto, um decreto de recenseamento obrigava as famílias a se registrarem na sua cidade de origem. O imperador, que se deixava chamar de “filho do deus” Júlio César, não estava nem um pouco preocupado se uma camponesa de Nazaré estava no fim da gravidez. Ela precisava andar mais de cento e trinta quilômetros a pé ou no lombo de um burro, subindo e descendo colinas poeirentas, ou seria punida pela lei.

Quando José e Maria chegaram a Belém, a cidade estava entupida de gente. Ninguém ofereceu um quarto; ninguém deu a mínima para as contrações de parto de uma menina desconhecida.

Lutero costumava pregar sobre essa cena com um realismo desconcertante. Ele lembrava que não havia médico, parteira, água aquecida nem roupas preparadas. O que havia era uma garota de cerca de quinze anos, morrendo de frio, dando à luz no chão de uma estrebaria com a ajuda de um carpinteiro que mal entendia o que estava acontecendo. Ela mesma teve que limpar o bebê, enrolá-lo em panos velhos e deitá-lo num cocho onde os animais comiam.

Na Idade Média, a igreja havia criado a ideia de que Maria não sentiu dor nenhuma no parto e que tudo aconteceu como num transe místico sem sofrimento. Lutero rejeitou essa invenção com força. Para ele, tirar de Maria as dores reais do parto, o cansaço do corpo e o medo humano não era honrar a mãe de Jesus, mas rebaixar a grandeza da sua fé.

Maria não foi uma heroína de novela, e sim uma mulher de verdade que sustentou uma fé imensa no meio da vulnerabilidade mais absoluta.

O bebê que chorava de fome

A teologia cristã passou séculos debatendo como Deus pôde se fazer homem. Algumas correntes antigas tentavam suavizar o choque dizendo que Jesus apenas parecia humano, mas que no fundo era um espírito intocável. Lutero cortava essa conversa fiada com a navalha da Bíblia: “Ele era um bebê de verdade, com carne, sangue, mãos e pés. Chorava, sujava fraldas e fazia tudo o que uma criança faz, exceto pecar”.

Existe uma frase atribuída a Lutero sobre o Natal que resume esse mistério com uma beleza que desconcerta qualquer arrogância religiosa: “O Deus que alimenta o mundo inteiro dependeu do peito de uma mulher para não morrer de fome”.

A Escritura diz o mesmo com sobriedade: “aquela Palavra se fez carne, e habitou entre nós” (João 1:14, Bíblia Livre). O Filho eterno não fingiu ser humano, e por isso é um Sumo Sacerdote “provado em tudo, conforme a nossa semelhança, porém sem pecado” (Hebreus 4:15, Bíblia Livre).

A salvação não começou num trono de ouro em Roma nem nas salas refinadas do Templo de Jerusalém. Começou na fragilidade de um recém-nascido que dependia do cuidado de pais pobres e perseguidos.

A mania de limpar o que Deus escolheu sujar

Temos uma dificuldade imensa de aceitar um Deus que se mistura com as nossas fraquezas. Queremos um evangelho asséptico, uma fé que só funciona quando a vida está organizada, o dinheiro está sobrando e os sentimentos estão em ordem. Quando a crise aperta, quando o plano dá errado ou quando a dor bate na porta, logo achamos que Deus foi embora.

Só que a manjedoura de Belém grita exatamente o contrário. Deus nunca teve medo da sujeira da nossa história. Se Ele exigisse um ambiente nobre para se revelar, nunca teria nascido num abrigo de animais nem teria escolhido uma jovem camponesa para ser a mãe do Messias.

Abandonar o presépio de porcelana é o primeiro passo para encontrar o Cristo real. Ele continua entrando exatamente nas áreas da vida que tentamos esconder de vergonha: no nosso cansaço diário, nos nossos medos silenciosos e naqueles dias em que nos sentimos sem forças e sem lugar na estalagem do mundo. Tomara que, neste Natal, deixemos Ele entrar.