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HistóriaReforma Protestante64 de 121

William Tyndale: Ler a Bíblia na própria língua e a fogueira

Por que ler a Bíblia na própria língua já foi punido com a fogueira? A saga de William Tyndale

Diego Gonçalves4 min de leitura808 palavras

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Hoje qualquer pessoa consegue baixar dezenas de traduções bíblicas no celular em poucos segundos, de graça e sem pedir permissão para autoridade nenhuma. Nós nos acostumamos tanto com essa facilidade que quase nunca paramos para pensar no sangue que correu para que as Escrituras saíssem do latim hermético e chegassem à língua falada no dia a dia.

Na Inglaterra do início do século 16, a situação era brutalmente diferente. Uma lei eclesiástica em vigor determinava que qualquer pessoa flagrada traduzindo ou mesmo lendo trechos da Bíblia em inglês sem autorização especial do bispo era tratada como herege, sujeita à prisão, perda de bens e morte na fogueira. O argumento oficial era que o povo comum era ignorante e instável demais para manusear as verdades divinas; se as pessoas lessem o texto por conta própria, a sociedade desmoronaria em heresias e rebeliões.

Gravura em madeira da execução de William Tyndale em Vilvoorde: frades conversam à esquerda, soldados cercam o condenado e um homem arruma a lenha ao pé do poste
Autor desconhecido, William Tyndale é queimado na fogueira, gravura de 1836, publicada na edição do Novo Testamento de Tyndale organizada por George Offor. Domínio público, via Wikimedia Commons.

William Tyndale, um jovem sacerdote e erudito brilhante formado em Oxford e Cambridge que dominava grego e hebraico, recusou-se a aceitar essa cerca imposta sobre a Palavra de Deus. Em um debate acalorado com um clérigo influente que afirmava ser melhor viver sem as leis divinas do que sem os decretos do Papa, Tyndale perdeu a paciência e disparou uma frase que entrou para a história: “Se Deus poupar a minha vida, farei com que dentro de poucos anos o rapaz que conduz o arado conheça mais das Escrituras do que você”.

Como era impossível levar o projeto adiante em solo inglês sem ser preso pelos agentes do rei Henrique VIII, Tyndale fugiu para a Alemanha. Viveu o resto da vida como fugitivo clandestino, trocando constantemente de pensão e driblando espiões reais enquanto traduzia o Novo Testamento a partir do texto grego editado por Erasmo.

Em 1526, as primeiras caixas do Novo Testamento traduzido por Tyndale foram impressas na Europa continental e contrabandeadas para portos ingleses escondidas dentro de fardos de tecido e sacos de farinha. O impacto foi imediato. Os estudantes de Londres e Oxford compravam os livretos ávidos por conhecer os ensinamentos dos apóstolos em bom inglês.

A reação da hierarquia religiosa foi implacável. O bispo de Londres mandou recolher todos os exemplares que seus agentes conseguissem encontrar para queimá-los publicamente diante da Catedral de São Paulo. E aconteceu uma das maiores ironias da história: bispos ricos começaram a pagar intermediários para comprar grandes lotes clandestinos no continente só para queimar o estoque inteiro na Inglaterra. Sem desconfiar, os bispos estavam pondo muito dinheiro no bolso do próprio Tyndale, que usou os recursos para quitar as dívidas das gráficas e imprimir uma edição revisada, muito maior e de melhor qualidade.

A perseguição terminou em tragédia pessoal. Em maio de 1535, em Antuérpia, Tyndale foi traído por um jovem inglês em quem confiava, que vendeu o paradeiro do tradutor em troca de dinheiro. Preso pelas autoridades imperiais, passou dezesseis meses encarcerado nas masmorras geladas e úmidas do castelo de Vilvoorde, perto de Bruxelas. Em outubro de 1536, foi levado ao cadafalso, estrangulado e teve o corpo queimado na fogueira. Pouco antes de perder a consciência, gritou suas últimas palavras: “Senhor, abre os olhos do rei da Inglaterra!”.

A resposta histórica veio com uma rapidez impressionante. Menos de três anos após a morte de Tyndale, o rei Henrique VIII, que já havia rompido com Roma, decretou que uma grande Bíblia em inglês fosse colocada publicamente em todas as paróquias do reino. E o texto que foi para o púlpito era, em quase sua totalidade, o trabalho deixado por Tyndale. Décadas mais tarde, quando a famosa Bíblia King James foi publicada em 1611, os comitês de tradução mantiveram cerca de 80% das palavras e construções criadas por Tyndale no Novo Testamento.

Tyndale queria a Bíblia na mão do povo porque as Escrituras “podem te fazer sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2 Timóteo 3:15, Bíblia Livre), e a fé nasce do ouvir a Palavra (Romanos 10:17).

A vida de William Tyndale ensina que o direito de ler a Palavra de Deus em nossa própria língua materna nunca foi uma cortesia pacífica de burocratas; foi uma dádiva comprada com coragem, clandestinidade e martírio. Saber o preço que custou colocar esse livro em nossas mãos deveria desmontar a nossa desculpa cômoda de deixar a Bíblia fechada na estante ou ignorada na tela do bolso.

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