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HistóriaReforma Protestante55 de 121

Origem dos anabatistas: Zurique, 1525 e o rebatismo

A noite que mudou a Reforma: A origem dos anabatistas

Diego Gonçalves4 min de leitura832 palavras

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Na noite fria de 21 de janeiro de 1525, em uma casa simples na cidade de Zurique, na Suíça, um pequeno grupo de jovens estudiosos da Bíblia tomou uma decisão que mudaria a história do cristianismo. Eles sabiam que o que estavam prestes a fazer era crime aos olhos do conselho da cidade, punível com prisão, banimento e até morte. Mesmo assim, depois de horas de oração de joelhos, o ex-sacerdote Jorge Blaurock pediu que Conrad Grebel, jovem humanista, o batizasse derramando água sobre sua cabeça, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Em seguida, Blaurock batizou os outros companheiros reunidos na sala, entre eles Felix Manz.

Aquele gesto simples marcou o nascimento do que se chamaria “Reforma Radical” e deu origem ao movimento dos anabatistas.

Gravura antiga mostrando Felix Manz amarrado e sendo lançado de um barco nas águas do rio Limmat, em Zurique, diante de espectadores na margem
Heinrich Thomann, Afogamento de Felix Manz no rio Limmat, c. 1605. Cópia de crônica da Reforma em Zurique. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Para entender por que um batismo causou tanto alvoroço, precisamos voltar um pouco no tempo. A Reforma em Zurique era liderada com grande brilho por Ulrico Zuínglio desde 1519. Grebel e Manz eram discípulos empolgados dele. Liam o Novo Testamento no original grego e apoiavam a pregação contra as indulgências, as imagens nas igrejas e as tradições de Roma que não tinham base bíblica.

Só que, com o avanço do estudo, mestre e discípulos divergiram no ritmo e no método.

Zuínglio era um homem prático, atento à política. Acreditava que as mudanças religiosas deviam andar de acordo com o conselho municipal, no ritmo que os magistrados julgassem prudente para não assustar a população nem provocar guerra com os cantões católicos vizinhos. Grebel e Manz pensavam diferente. Para eles, se a Bíblia ensinava uma verdade, ela devia ser obedecida de imediato, sem pedir licença a vereadores.

O estopim da crise foi o batismo infantil. Ao examinar o Novo Testamento, o grupo de Grebel chegou à convicção de que os apóstolos batizavam quem já podia ouvir a mensagem, arrepender-se e professar fé pessoal em Cristo (Atos 2:38 e 8:36-38). Para eles, a ordem de Jesus em Mateus 28:19-20 punha o ensino e o discipulado antes do batismo, e não havia no Novo Testamento um único mandamento explícito de batizar recém-nascidos. Zuínglio e os demais reformadores respondiam que o batismo tomou o lugar da circuncisão, sinal da aliança dada também às crianças (Colossenses 2:11-12), e que as famílias cristãs deviam batizar seus filhos. A discussão é antiga, e cristãos sérios seguem divididos sobre ela.

Quando a questão foi levada ao debate público, o conselho de Zurique ficou do lado de Zuínglio. As autoridades entenderam que mexer no batismo infantil era abalar a própria estrutura civil da cidade. Naquela época, o batismo de bebês era também o registro de cidadania: todo recém-nascido batizado passava a fazer parte da comunidade e do sistema de impostos.

O conselho foi taxativo: proibiu as reuniões do grupo de Grebel e deu um prazo curto para que todos os bebês ainda não batizados fossem batizados, sob pena de banimento. A reunião de 21 de janeiro de 1525 foi a resposta consciente e desobediente do grupo à ordem do governo. Diante da escolha entre obedecer aos homens ou a Deus, eles escolheram a Escritura (Atos 5:29).

Os opositores logo colaram neles o rótulo de “anabatistas”, que quer dizer “rebatizadores”. Eles rejeitavam o apelido: diziam que o batismo recebido na infância não tinha valor bíblico; portanto, não rebatizavam ninguém, mas batizavam pela primeira vez quem agora cria.

O conceito que nascia ali era a ideia de “igreja livre”, uma comunidade voluntária de discípulos. Até então, a cristandade medieval funcionava por imposição territorial: se o rei ou o príncipe era católico ou luterano, os súditos nascidos naquele território professavam a mesma fé por obrigação. Os anabatistas romperam com esse modelo. Para eles, ninguém nasce cristão por herança familiar ou por decreto do governo. A pessoa se torna cristã pelo arrependimento e pela fé em Cristo.

A reação do Estado foi dura. Menos de dois anos depois daquela reunião, em janeiro de 1527, Felix Manz foi levado preso até o rio Limmat, em Zurique. Com as mãos atadas aos joelhos, foi lançado nas águas geladas, tornando-se o primeiro mártir anabatista executado por protestantes. A pena zombava do que ele defendia: os magistrados chamaram aquilo de “a terceira imersão”.

Apesar da brutalidade que tirou a vida de muitos dos primeiros líderes, o movimento se espalhou como brasa por vilarejos da Alemanha, da Áustria e dos Países Baixos. Sem espadas e sem apoio de reis, esses cristãos semearam a ideia de que a fé não pode ser imposta pelo Estado. Deixaram um legado de liberdade de consciência que ecoa até hoje.

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