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Como ler os anabatistas sem preconceito histórico
Quais leituras ajudam a corrigir a imagem de um movimento descrito por seus inimigos
Durante quase quatrocentos anos, a história dos anabatistas foi contada quase só pela pena dos seus maiores inimigos. Quem abrisse um manual de história da igreja escrito no século XVII ou XVIII, fosse católico ou protestante, encontrava sempre a mesma imagem: fanáticos perigosos, desordeiros, hereges obstinados que mereciam o cadafalso. A tragédia do levante violento de Münster, em 1534, quando uma facção descontrolada tentou instaurar uma teocracia pela força das armas, serviu de pretexto para manchar a reputação de todo um movimento que, em sua esmagadora maioria, era pacífico, ordeiro e apaixonado pelas Escrituras.
Essa injustiça só começou a ser reparada para valer no século XX, quando pesquisadores de diversas tradições foram aos arquivos originais, leram os manuscritos preservados e refizeram o quadro. O marco foi o ensaio A Visão Anabatista (The Anabaptist Vision), publicado pelo historiador Harold S. Bender em 1944. Bender mostrou, de forma convincente, que o coração do anabatismo histórico não era o delírio milenarista de tomar cidades à força. O cerne do movimento era a redescoberta do discipulado pessoal, a igreja entendida como comunidade voluntária de crentes e a prática do amor e da não violência em obediência a Jesus.
Depois do trabalho pioneiro de Bender, outros historiadores de peso aprofundaram a pesquisa. Franklin H. Littell publicou A Concepção Anabatista da Igreja (The Anabaptist View of the Church), mostrando que aqueles dissidentes não queriam apenas reformar certas práticas morais ou ritos, mas restaurar o padrão da igreja apostólica antes de sua ligação com o poder imperial de Constantino. Walter Klaassen seguiu com Anabatismo: Nem Católico, Nem Protestante (Anabaptism: Neither Catholic nor Protestant), que o apresenta como terceira via, rompida com o papa e também com a aliança entre clérigos e príncipes. Pesquisas posteriores corrigiram o próprio Bender: o anabatismo teve várias origens, e nem todas as correntes eram pacíficas.
Corrigir a caricatura não obriga ninguém a concordar com tudo o que os anabatistas ensinaram. Os reformadores clássicos discordaram deles em pontos reais, como a rejeição do juramento e do cargo de magistrado. Mas a fé recebida só pela graça não se impõe com espada, e a história honesta reconhece que protestantes também fizeram vítimas.
Para uma compreensão sólida desse capítulo, o caminho passa por três categorias de leitura.
A primeira categoria reúne as fontes primárias, as palavras registradas no calor do sofrimento por quem viveu a fé radical. Destaca-se a monumental coletânea O Espelho dos Mártires (Martyrs’ Mirror), compilada no século XVII por Thieleman J. van Braght, com cartas de despedida da prisão, confissões e relatórios judiciais. Ao lado dela, Anabaptism in Outline, organizado por Walter Klaassen, e Spiritual and Anabaptist Writers, editado por George H. Williams e Angel Mergal na coleção de clássicos cristãos, reúnem tratados, sermões e confissões de líderes como Michael Sattler, Menno Simons e Pilgram Marpeck.
A segunda categoria é a da narrativa histórica e biográfica acessível. A História dos Anabatistas (The Anabaptist Story), de William R. Estep, segue como a obra introdutória mais equilibrada e fluida, com o nascimento do movimento em Zurique e a expansão pela Europa. Para conhecer a vida cotidiana dos discípulos e o nascimento dos menonitas, há Introdução à História Menonita (An Introduction to Mennonite History), de Cornelius J. Dyck, e os perfis biográficos reunidos por Hans-Jürgen Goertz em Profiles of Radical Reformers.
Por fim, a terceira categoria é a pesquisa acadêmica de fôlego internacional. A grande obra de referência sobre o período continua sendo The Radical Reformation, de George Huntston Williams, de Harvard. Com mais de mil páginas amparadas em arquivos de vários países, Williams traçou a genealogia das correntes dissidentes do século XVI, distinguindo a ala evangélica dos anabatistas dos espiritualistas e dos revolucionários.
Ler essas fontes nos livra de anacronismos e de preconceitos herdados. Por trás das velhas caricaturas havia homens e mulheres apaixonados pelas Escrituras, dispostos a pagar com o próprio sangue pelo direito de confessar que somente Jesus Cristo é o Senhor da consciência.
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