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HistóriaReforma Protestante68 de 121

Origem da palavra protestante: A Protestatio de Espira

De onde vem a palavra "protestante"? O dia em que a fé desafiou o império em Espira

Diego Gonçalves5 min de leitura1.043 palavras

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Neste texto

Quase todo mundo que frequenta uma igreja evangélica já ouviu ou usou o termo “protestante”. No vocabulário popular de hoje, a palavra costuma evocar a imagem de alguém que vive reclamando, que bate o pé contra tudo ou que simplesmente se opõe à Igreja Católica.

Só que a história por trás desse nome é muito mais rica, nobre e surpreendente do que um simples rótulo de oposição. Ela nasceu em abril de 1529, dentro do salão nobre de uma cidade alemã às margens do rio Reno chamada Espira.

Vitral que mostra João, o Constante, eleitor da Saxônia, de manto de pele e com um pergaminho na mão
João, o Constante, eleitor da Saxônia, um dos signatários da Protestatio. Vitral da Igreja Memorial da Protestação, Espira. Fotografia de Immanuel Giel, domínio público, via Wikimedia Commons.

Naquele dia, um punhado de líderes corajosos se levantou diante das maiores autoridades civis da Europa para afirmar um princípio que mudaria para sempre a história do Ocidente: a consciência de um crente diante de Deus não pode ser confiscada pelo voto de nenhuma maioria política.

O cabo de guerra político e religioso

Para entender o que aconteceu em Espira, precisamos voltar alguns anos no tempo. Em 1521, na famosa Dieta de Worms, Martinho Lutero havia sido declarado herege oficial e banido do Sacro Império Romano-Germânico. Pela lei da época, qualquer súdito do imperador tinha autorização para prender Lutero e entregá-lo à execução.

A mensagem bíblica da graça, no entanto, já havia incendiado a Alemanha. Vários príncipes alemães e governos municipais abraçaram a Reforma e se recusaram a perseguir os pregadores evangélicos.

Em 1526, durante a Primeira Dieta de Espira, o imperador Carlos V, atolado em guerras contra o rei da França e preocupado com o avanço do exército turco-otomano no leste, foi obrigado a fazer concessões. Ficou decidido provisoriamente que cada governante local responderia diante de Deus e do imperador sobre como administraria a religião em seu próprio território até que um concílio geral da Igreja fosse convocado. Essa trégua permitiu que as igrejas evangélicas florescessem e se organizassem em paz por três anos.

Em 1529, a maré virou. Com as fronteiras militares temporariamente estabilizadas, Carlos V enviou seu irmão, o arquiduque Ferdinando da Áustria, para presidir a Segunda Dieta de Espira.

A ordem imperial era explícita e intransigente: revogar a trégua de 1526, restabelecer com vigor o Édito de Worms, proibir qualquer expansão das doutrinas de Lutero e forçar os territórios evangélicos a aceitar missas e a autoridade dos bispos católicos dentro de seus domínios. A maioria católica na assembleia imperial votou a favor do decreto e considerou o assunto encerrado.

O verdadeiro significado de protestar

Foi exatamente aí que a história fez uma curva inesperada. Seis príncipes alemães, entre eles João, o Constante, da Saxônia, e Filipe de Hesse, e os representantes de catorze cidades livres imperiais se recusaram a assinar o decreto.

No dia 19 de abril de 1529, eles redigiram um documento formal e o entregaram às autoridades no plenário da assembleia. O texto ficou conhecido nos registros históricos como a Protestatio.

Na língua latina do século dezesseis, o verbo protestari tinha um peso muito diferente do uso que fazemos hoje. Ele não significava rebeldia ressentida, nem queixa inconsequente. A palavra é formada pela junção de pro (em favor de) e testari (dar testemunho, testificar).

A Protestatio de Espira não era apenas um manifesto contra uma ordem abusiva; era uma declaração pública e solene de fidelidade em favor da verdade de Deus. Os príncipes agiam como os apóstolos diante do Sinédrio: “Antes importa obedecer a Deus do que aos homens” (Atos 5:29, tradução livre do grego).

Os príncipes deixaram gravadas palavras que ecoam até os dias de hoje:

“Protestamos publicamente diante de Deus, nosso único Criador, Preservador, Redentor e Salvador, e que um dia será o nosso Juiz, assim como diante de todos os homens e de todas as criaturas, que nós, por nós mesmos e por nosso povo, não consentimos nem aderimos de maneira alguma ao decreto proposto em qualquer coisa que seja contrária a Deus, à Sua santa Palavra, à nossa boa consciência e à salvação de nossas almas.”

Eles completaram dizendo que, nas questões que dizem respeito à glória de Deus e à vida eterna, cada indivíduo terá de se apresentar pessoalmente diante do Criador para prestar contas de seus atos. É o que Paulo escreve aos romanos: “cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus” (Romanos 14:12, Bíblia Livre). Ninguém pode terceirizar a própria alma nem justificar sua covardia sob o pretexto de ter seguido uma votação de maioria parlamentar.

Uma herança viva de liberdade

Os partidários de Roma começaram a usar o termo “protestantes” de maneira desdenhosa para apelidar os signatários do documento de Espira, acusando-os de desordeiros e rebeldes contra o império.

Na Alemanha, os seguidores da Reforma preferiam chamar a si mesmos simplesmente de “evangélicos”, enquanto na França ficaram conhecidos como “huguenotes” e na Suíça e Holanda como “reformados”. Com o passar das décadas, o nome protestante foi adotado em escala global como o título legítimo de todos os cristãos que afirmam a autoridade suprema das Escrituras Sagradas contra as imposições humanas.

A herança de Espira foi a semente que germinou a liberdade de consciência e a liberdade religiosa no mundo moderno. Ali ficou consagrado que o Estado e as instituições políticas têm limites bem claros: eles podem cobrar impostos e organizar a ordem pública, mas não têm o direito de invadir o santuário da consciência humana para ditar no que o coração deve crer.

Ser protestante, no sentido bíblico e histórico do termo, nunca foi sinônimo de viver procurando brigas desnecessárias. Significa ter a coragem tranquila e inabalável de dar testemunho público de Cristo e da Sua Palavra, custe o que custar, lembrando que a lealdade suprema de quem tem fé pertence unicamente ao Senhor da glória.

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