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História

Dieta de Worms: Lutero diante do imperador em 1521

A Dieta de Worms: O que realmente aconteceu quando Lutero enfrentou o imperador?

Diego Gonçalves4 min de leitura836 palavras

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Imagine um monge comum, de origem humilde, de pé no centro de um salão iluminado por tochas, diante do homem mais poderoso do Ocidente na época: Carlos V, soberano do Sacro Império Romano-Germânico e governante de territórios que iam da Europa até as Américas recém-descobertas. Ao redor dele, príncipes com armaduras cerimoniais, bispos com mantos caríssimos e juízes que tinham autoridade legal para condenar qualquer pessoa à fogueira.

Sobre a mesa no centro da sala, uma pilha de livros escritos por aquele monge. A pergunta feita pelas autoridades não abria espaço para debate teológico: “Estes livros são seus? Você vai retirar o que escreveu ou não?”

Lutero de pé diante do imperador Carlos V e dos príncipes reunidos no salão da Dieta de Worms
Anton von Werner, Lutero diante da Dieta de Worms, 1877. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Esse foi o cenário da Dieta de Worms, na Alemanha, em abril de 1521. Um encontro tenso, que redefiniu os rumos do cristianismo e da consciência ocidental.

Para entender como Lutero foi parar naquela sala, precisamos voltar quatro anos no tempo. Em 1517, ao divulgar as Noventa e Cinco Teses contra o comércio de indulgências, Lutero não tinha a menor intenção de fundar uma nova igreja nem de rachar a Europa. O objetivo inicial dele era apenas abrir uma conversa acadêmica e pastoral sobre a cobrança financeira que prometia perdão de pecados em troca de moedas nos cofres da igreja. Só que a reação do sistema foi rápida e agressiva.

Conforme as autoridades de Roma tentavam sufocar os questionamentos de Lutero, apelando para o poder absoluto do Papa e dos concílios, o monge foi levado a estudar as Escrituras com ainda mais profundidade. E a conclusão a que chegou acendeu o pavio da crise: líderes religiosos e concílios já haviam errado repetidas vezes no passado, até contradizendo uns aos outros. Para Lutero, a única régua infalível para orientar a fé e a prática do cristão era a Bíblia Sagrada. É o princípio que a Reforma chamou de sola Scriptura: a Escritura como autoridade suprema, e as demais autoridades julgadas por ela.

Em 1520, o Papa Leão X assinou a bula que ameaçava Lutero de excomunhão. Lutero respondeu queimando o documento em público, diante dos seus alunos, em Wittenberg. O rompimento estava consumado.

A assembleia convocada em Worms era a última tentativa do império de resolver o problema. O imperador Carlos V concedeu a Lutero um salvo-conduto, um compromisso de que ele não seria preso durante o trajeto. Mas todos se lembravam de que, pouco mais de um século antes, o reformador Jan Hus tinha recebido uma promessa idêntica e acabou queimado vivo.

Quando ouviu a ordem de retratação no primeiro dia da audiência, Lutero não reagiu com bravata. Teve a humildade de pedir vinte e quatro horas para pensar em silêncio. Passou a noite em oração, avaliando com temor o peso de contrariar todas as autoridades visíveis da sua época.

No dia seguinte, 18 de abril de 1521, voltou ao tribunal e deu a resposta que entrou para a história:

“A menos que eu seja convencido pelo testemunho das Escrituras ou por uma razão evidente, já que não confio apenas em papas ou concílios, que notoriamente já erraram e se contradisseram, minha consciência está cativa da Palavra de Deus. Não posso e não quero renunciar a nada, pois agir contra a própria consciência não é seguro nem honesto. Não posso fazer diferente. Aqui estou, que Deus me ajude.”

(Martinho Lutero, Dieta de Worms, 18 de abril de 1521)

Os historiadores discutem se o “Aqui estou” foi dito mesmo; o restante da declaração consta dos registros da época.

Aquela resposta mudou tudo. Lutero não estava defendendo o capricho de cada um criar a sua própria moral conforme o que lhe dá na cabeça. A liberdade de consciência que ele defendia era uma consciência amarrada à verdade das Escrituras. Nenhuma autoridade humana tem o direito de forçar alguém a agir contra aquilo que a Palavra de Deus estabelece com clareza.

Depois da audiência, o imperador declarou Lutero fora da lei, permitindo que qualquer pessoa o prendesse assim que o salvo-conduto perdesse a validade. Foi nesse momento que o príncipe Frederico, o Sábio, mandou organizar uma emboscada protetora na estrada e escondeu Lutero no Castelo de Wartburg. Lá dentro, sob o disfarce de um nobre com barba chamado Cavaleiro Jorge, Lutero traduziu o Novo Testamento do grego para o alemão em apenas onze semanas, colocando a Bíblia diretamente nas mãos do povo comum.

A Dieta de Worms nos ensina que a verdadeira firmeza espiritual não vem da vaidade de querer desafiar o mundo, mas da reverência diante de Deus. Quando a consciência está fundamentada na verdade de Deus, os poderes deste mundo perdem a capacidade de ditar o que a alma deve crer.