
HistóriaReforma Protestante12 de 121
Jan Hus em Praga: O debate que acendeu a fogueira
Praga em chamas: O debate acadêmico que acendeu a fogueira de Jan Hus
No início do século 15, a Europa Ocidental assistia a um espetáculo grotesco: a Igreja chegou a ter três papas ao mesmo tempo. Cada um se proclamava o único representante de Cristo na terra, lançava maldições e excomunhões contra os outros dois e vendia indulgências a torto e a direito para financiar exércitos particulares em disputas territoriais na Itália. A autoridade moral da instituição estava em frangalhos.
Foi nesse cenário de caos e desmoralização que uma universidade no coração da Boêmia se tornou o estopim de uma revolução: a Universidade de Praga.
Fundada poucas décadas antes pelo imperador Carlos IV, a universidade era o centro cultural de maior prestígio da Europa Central. O problema é que o ambiente universitário vivia conflagrado. De um lado estavam os professores e estudantes alemães, conservadores ferrenhos que defendiam a autoridade papal tradicional em troca de cargos eclesiásticos. Do outro lado estavam os mestres e estudantes tchecos, liderados por um padre humilde e brilhante chamado Jan Hus.
Hus havia tido contato clandestino com as obras do teólogo inglês John Wycliffe. Impressionado com a autoridade das Escrituras acima da de qualquer papa, ele começou a pregar na Capela de Belém, em Praga, diante de multidões de até três mil pessoas a cada sermão. Hus não falava o latim dos tribunais: pregava na língua do povo comum. Denunciava a corrupção do clero, o enriquecimento ilícito dos bispos e a falsidade de vender o perdão dos pecados por dinheiro.
A tensão explodiu em janeiro de 1409, por causa de uma disputa política.
O fraco e instável rei da Boêmia, Venceslau IV, queria o apoio da universidade para as suas pretensões ao trono imperial. Como os professores alemães se recusavam a apoiá-lo, o rei emitiu o Decreto de Kutná Hora, que mudava as regras de votação da universidade e dava aos tchecos o controle das decisões acadêmicas.
A resposta da facção alemã foi drástica. Em protesto, milhares de professores e estudantes empacotaram seus livros, deixaram Praga e foram fundar a Universidade de Leipzig, na Alemanha. Hus foi eleito reitor da Universidade de Praga e assumiu a liderança de um movimento que ultrapassava os muros da academia e contagiava todo o povo da Boêmia.
A colisão com Roma tornou-se inevitável. Quando o papa de Pisa, João XXIII, começou a vender indulgências nas praças de Praga para pagar uma guerra contra o rei de Nápoles, Hus subiu ao púlpito e denunciou o comércio do sagrado. Um líder corrupto não tem autoridade para vender o que só a graça de Cristo pode conceder, pela fé, como dom de Deus (Efésios 2:8-9).
A hierarquia respondeu decretando o interdito sobre a cidade de Praga: sinos silenciados, casamentos proibidos e mortos sem sepultamento religioso até que Hus fosse expulso. Para não castigar a população, o pregador se retirou para os castelos do interior, de onde continuou escrevendo cartas e tratados que circulavam de mão em mão.
O fim trágico veio no Concílio de Constança. Hus foi convocado em 1414 para defender suas ideias diante da maior assembleia de bispos da Europa, com a promessa de um salvo-conduto assinado pelo imperador Sigismundo, que garantia a ida e a volta em segurança.
A promessa não foi cumprida. Pouco depois de chegar, Hus foi preso e atirado numa masmorra fria às margens do lago de Constança. O concílio sustentou que a palavra empenhada a um herege não obrigava ninguém diante da lei da Igreja.
No dia 6 de julho de 1415, amarrado a um poste de madeira com o pescoço preso por uma corrente e uma carapuça de papel pintada com demônios na cabeça, Jan Hus foi queimado vivo. Quando o carrasco acendeu a palha, Hus cantou até ser sufocado pela fumaça.
A queima de Jan Hus não extinguiu o incêndio: espalhou as brasas pelo continente. A execução deu início às sangrentas Guerras Hussitas, consolidou a identidade nacional da Boêmia e mostrou que a Palavra de Deus não se incinera pela força dos tribunais. Um século depois, em 1520, ao ler os escritos de Hus, Martinho Lutero reconheceu, numa carta, que sem saber tinha ensinado quase tudo o que Hus ensinou. A Reforma já havia começado naquele púlpito de Praga.
- História da Igreja
- Jan Hus
- Reforma Protestante
- Idade Média