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História

Amnésia evangélica: por que a história da Igreja importa

A Amnésia Evangélica e o Medo do Passado

Diego Gonçalves3 min de leitura616 palavras

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Muitos evangélicos cresceram sob a impressão bizarra de que a história da Igreja começou no dia 31 de outubro de 1517, quando Martinho Lutero pregou as 95 teses na porta do castelo de Wittenberg. O roteiro que costuma ser ensinado nos púlpitos é simples e raso: os apóstolos morreram no primeiro século, o cristianismo entrou em mil e quinhentos anos de trevas absolutas e, de repente, a luz do Evangelho reapareceu como mágica na Europa do século XVI.

Essa narrativa não é apenas historicamente ignorante; ela é espiritualmente perigosa. Cortar as nossas raízes e agir como se a fé cristã tivesse sido inventada ontem pela nossa denominação é a receita perfeita para transformar igrejas em comunidades mimadas, vulneráveis a qualquer vento de doutrina e incapazes de sustentar conversas maduras com a cultura.

O mito da pureza isolada

A desculpa comum para justificar o desprezo pelo passado é o lema simplista: “Eu só preciso da minha Bíblia e do Espírito Santo”. Soa piedoso, mas esconde uma arrogância desmedida. Quem fala isso parte do princípio de que é a primeira pessoa na história da humanidade iluminada o bastante para ler as Escrituras sem cometer equívocos graves.

A própria Bíblia desmente essa postura individualista. Ela é, em grande medida, um livro de memória comunitária. O povo de Israel era constantemente convocado a lembrar dos feitos do Senhor, a contar as histórias dos pais aos filhos e a aprender com as cicatrizes de quem já tinha atravessado o deserto. As cartas do apóstolo Paulo estão repletas de referências às batalhas concretas que as primeiras comunidades enfrentaram para preservar a sã doutrina.

Ignorar a história da Igreja significa abrir mão de aprender com quem deu a vida pela fé antes de nós. Quando a gente se recusa a estudar o que aconteceu nos concílios antigos, nas perseguições do Império Romano, nos claustros medievais e nos grandes avivamentos, a gente não se torna mais puro; a gente só fica condenado a repetir velhos erros com roupagem moderna.

Encarar as contradições sem medo

Parte do medo que muitos cristãos têm de estudar história vem do pavor de encontrar contradições. É muito mais confortável alimentar uma versão santificada e higienizada do passado do que descobrir que grandes heróis da fé tinham pontos cegos assustadores, que concílios importantes foram marcados por brigas políticas pesadas e que homens santos muitas vezes falharam de maneira humilhante.

Acontece que a maturidade espiritual só nasce no confronto honesto com a realidade dos fatos. O cristianismo não precisa de propaganda partidária nem de maquiagem ideológica para se sustentar. A história da Igreja não é um conto de fadas sobre seres perfeitos; é a narrativa emocionante e trágica de pessoas de carne e osso, limitadas e pecadoras, que tentaram responder à grande pergunta deixada por Jesus: “E vocês, quem dizem que eu sou?”

O preço da superficialidade

Quando uma comunidade de fé se desconecta de dois mil anos de herança cristã, ela perde o vocabulário para dialogar com os grandes dilemas da alma humana. A fé vira um conjunto de slogans motivacionais de autoajuda, os cultos viram shows de entretenimento descartável e qualquer discordância teológica é tratada como heresia imperdoável.

Resgatar a história da Igreja com rigor, honestidade e respeito pelas diferentes tradições não significa enfraquecer a nossa identidade evangélica ou protestante. Muito pelo contrário: quem realmente compreende as origens da fé descobre por que crê naquilo que crê, aprende a ter empatia por quem pensa diferente e desenvolve uma firmeza que resiste aos modismos da época.

A fé cristã não começou quando a gente abriu os olhos pela primeira vez, e ter a humildade de sentar à mesa com vinte séculos de história é o primeiro passo para deixarmos de ser crianças espirituais.