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Lutero e a justificação pela fé: A luta que gerou a Reforma
A luta interior de Lutero e a descoberta da justificação pela fé
Muita gente imagina que a Reforma Protestante começou como uma disputa política ou uma briga acadêmica sobre teses pregadas na porta de uma igreja. Na verdade, tudo nasceu de uma crise de consciência dentro da cela de um monge alemão. Antes de desafiar papas e imperadores, Martinho Lutero passou anos travando uma guerra silenciosa contra o próprio desespero espiritual.
Quando entrou para a ordem dos agostinianos eremitas em Erfurt, em 1505, Lutero levou a sério demais a promessa da vida religiosa. A teologia popular da Idade Média tardia ensinava um princípio que parecia simples: faça o que estiver ao seu alcance, cumpra os sacramentos e Deus não negará a graça. O problema é que Lutero levou a sério a si mesmo e levou a sério a santidade de Deus, e assim percebeu a armadilha. Quem garante que já fizemos o melhor possível? Onde termina o nosso esforço sincero e começa a nossa hipocrisia disfarçada?
Lutero jejuava até adoecer, passava noites sem dormir no chão frio, orava sem parar e fazia penitências extremas. Anos mais tarde, ele próprio resumiu esse período: se algum monge pudesse entrar no céu pelos méritos da vida monástica, com certeza teria sido ele. Só que, em vez de paz interior, encontrava um terror crescente.
A prática da confissão auricular era o centro desse tormento. Para que os pecados fossem perdoados, o penitente precisava confessar todas as faltas e, acima de tudo, sentir verdadeira contrição por amor a Deus, não apenas medo do inferno. Lutero passava horas no confessionário desenterrando os menores pensamentos e deslizes da mente. Mal saía da sala, já se lembrava de alguma intenção imperfeita e voltava correndo. Seu confessor e superior na ordem, Johann von Staupitz, via aquele jovem brilhante se autodestruir num perfeccionismo doentio e chegou a dizer: “Irmão Martinho, se você quer tanto ser perdoado, traga pecados reais, como assassinato ou adultério, e pare de vir aqui com essas bobagens artificiais”.
Staupitz percebeu o que realmente estava em jogo. Lutero não estava lidando com pequenas falhas de comportamento, mas com o que os alemães chamam de Anfechtung: uma angústia existencial profunda, um choque aterrador diante da majestade de Deus. Quando celebrou sua primeira missa em 1507, as mãos de Lutero tremeram tanto diante do cálice e do pão que ele quase derrubou os elementos sagrados, paralisado pelo medo de se aproximar do Criador. Lutero chegou a confessar a Staupitz que não conseguia amar aquele Deus juiz que punia pecadores desamparados; na verdade, ele o odiava em segredo.
A virada não veio por meio de mais disciplinas corporais, mas quando Staupitz obrigou Lutero a estudar teologia a fundo e assumir a cadeira de professor de Bíblia na Universidade de Wittenberg. Ao ter que preparar aulas sobre os Salmos, Romanos e Gálatas, entre 1513 e 1519, Lutero foi empurrado para o texto bíblico com uma urgência de quem luta pela própria sanidade.
O grande nó de Lutero estava em Romanos 1:17, onde o apóstolo Paulo escreve:
“Pois no Evangelho se revela a justiça de Deus de fé em fé; como está escrito: O justo viverá pela fé.”
(Romanos 1:17, Bíblia Livre)
Durante muito tempo, Lutero lia a expressão “justiça de Deus” (iustitia Dei) com a lente da teologia escolástica medieval. Para ele, a justiça de Deus só podia significar a justiça retributiva: o padrão rigoroso com que Deus pune os culpados e recompensa os justos. Ele pensava: se o homem já está condenado pela lei e pela sua fraqueza moral, que tipo de “boa notícia” (evangelho) é essa que apenas revela mais uma vez a justiça que vai nos condenar?
A descoberta libertadora, conhecida historicamente como a “experiência da torre”, aconteceu quando Lutero finalmente prestou atenção na ligação que Paulo faz entre as duas metades do versículo. Ele percebeu que a justiça da qual Paulo fala não é a justiça ativa com que Deus nos julga e pune pelas nossas obras, mas a justiça passiva que Ele nos concede graciosamente por meio da fé em Cristo. Em outras palavras, a justiça que Deus exige de nós é a mesma que Ele mesmo providencia, de graça, em Jesus.
O justo não vive porque acumulou justiça própria para depois merecer a vida; ele vive porque recebe a justiça de Cristo como presente imerecido.
Lutero descreveu esse momento como se as portas do paraíso tivessem se aberto de par em par diante dos seus olhos. Aquela mesma frase que antes lhe despertava ódio e pavor se tornou a declaração mais doce de toda a Escritura.
Dessa descoberta brotou a doutrina da justificação somente pela fé (sola fide), que se tornaria o coração do protestantismo histórico. Lutero a chamava de “o artigo pelo qual a igreja se mantém de pé ou cai”. A justificação não é um processo gradual em que o ser humano vai se tornando santo até finalmente merecer o céu; é uma declaração legal e definitiva de Deus, que considera o pecador perdoado e justo unicamente pelos méritos de Cristo na cruz. A santificação, obra do Espírito Santo que nos transforma por dentro, nasce dessa justificação como fruto, e não como condição para recebê-la.
Para explicar a realidade prática de quem é justificado, Lutero cunhou a célebre expressão simul iustus et peccator: somos simultaneamente justos e pecadores. Diante dos próprios limites, fraquezas e imperfeições diárias, continuamos necessitados de misericórdia; só que, diante do tribunal de Deus, somos cobertos pela justiça perfeita de Cristo, que nos foi imputada. O evangelho, portanto, não é um manual de esforço religioso para tentar barganhar com Deus, mas o anúncio de um perdão consumado que liberta a consciência da culpa e devolve a paz ao coração.
Foi esse mesmo anúncio que, mais de duzentos anos depois, aqueceu o coração de John Wesley em Londres, em 24 de maio de 1738, enquanto alguém lia o prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos. A luta de Lutero no mosteiro continua sendo a nossa: tomara que também saibamos descansar na justiça que só Cristo pode dar.
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