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HistóriaReforma Protestante6 de 59

A Igreja antes de Lutero: como se perdeu a simplicidade

Antes de Lutero: como a Igreja perdeu a simplicidade do Evangelho

Diego Gonçalves5 min de leitura912 palavras

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Quando a Reforma Protestante eclodiu no século XVI com Martinho Lutero, aquele abalo não surgiu do nada, como um raio em céu azul, nem foi o capricho isolado de um monge alemão rebelde: era o clímax de séculos de desvios que transformaram uma comunidade simples de irmãos numa das máquinas políticas e burocráticas mais pesadas do Ocidente medieval.

Como bem observou o historiador suíço Jean-Henri Merle d’Aubigné na sua clássica história da Reforma, o cristianismo primitivo conquistou o mundo antigo apoiado em dois princípios revolucionários. O primeiro dizia respeito aos ministros: Jesus Cristo não fundou uma casta sacerdotal mediadora nem um novo templo de rituais secretos; Ele destronou os intermediários humanos e colocou a alma em contato direto com Deus, pois Ele é o único Mediador (1 Timóteo 2:5), e todos os discípulos são irmãos (Mateus 23:8). O segundo princípio dizia respeito à salvação: o evangelho não vendia o céu como recompensa por méritos ou pagamentos humanos, mas o anunciava como dádiva gratuita da graça de Deus mediante a fé (Efésios 2:8-9).

Xilogravura do imperador Henrique IV descalço, com a esposa e o filho, diante dos portões do castelo de Canossa, esperando o papa
Gravura de Atos e monumentos (o \"Livro dos Mártires\"), de John Foxe, 1570: o imperador Henrique IV, com a esposa e o filho, espera descalço o papa Gregório VII diante de Canossa, em 1077. Domínio público (CC0), via Wikimedia Commons.

A história da decadência da igreja ocidental é a crônica da perda gradual desses dois pilares.

Nos primeiros séculos, as igrejas locais conviviam em comunhão fraternal, unidas pela fé viva no mesmo Senhor. Não havia um bispo universal com poderes sobre todos os outros. As decisões eram tomadas em colegiado, e os apóstolos escreviam suas cartas em tom fraterno: “Os apóstolos e os anciãos, e os irmãos – para os irmãos dentre os gentios” (Atos 15:23, Bíblia Livre).

Mas o prestígio político das cidades começou a contaminar a estrutura da fé. Roma era a capital do império, a “mãe das nações”, a cidade mais rica e influente do mundo ocidental. Com o passar do tempo, o bispo que pastoreava na capital imperial passou a reivindicar uma primazia que nunca existiu no Novo Testamento. Quando o império desmoronou sob as invasões bárbaras, os velhos títulos de glória que Roma havia conquistado pela força das legiões foram herdados pelo pastor que se sentava entre as ruínas do palácio dos césares.

A essa ambição política somou-se uma mudança teológica perigosa: a troca da unidade espiritual e invisível do corpo de Cristo por uma uniformidade institucional visível. A salvação, que antes brotava da Palavra acolhida pela fé no coração, passou a ser vista como um produto monopolizado pelos sacramentos do clero. A igreja visível arrogou para si o papel de distribuidora da graça. Quem estivesse fora da comunhão com a hierarquia romana estaria automaticamente fora do alcance de Deus, como se a graça coubesse num cofre guardado pela instituição. O sacerdócio universal de todos os crentes foi substituído por uma barreira intransponível entre clérigos e leigos.

Nos séculos seguintes, essa máquina de poder afundou em episódios escandalosos. No século IX, surgiram os chamados Falsos Decretos de Isidoro, uma coletânea de documentos forjados que inventava cartas de bispos dos primeiros séculos para justificar a autoridade absoluta do papa sobre reis e bispos. Documentos adulterados tornaram-se o arsenal jurídico de Roma para subjugar príncipes.

Pouco depois, no século X, o papado caiu no que os próprios historiadores chamam de “pornocracia”: o trono papal foi disputado e controlado por famílias nobres italianas, entre intrigas, assassinatos e devassidão. A degradação ainda se arrastou pelo século XI, com Bento IX, um jovem que ocupou a cátedra papal e chegou a vendê-la.

A reação a esse caos veio no século XI com a reforma centralizadora do Papa Gregório VII, o monge Hildebrando. Gregório tentou moralizar a igreja, mas o fez elevando a autoridade papal a um absolutismo teocrático sem precedentes. Ele impôs o celibato compulsório ao clero para transformá-lo num exército dependente exclusivamente de Roma e travou uma guerra contra os imperadores germânicos para garantir que nenhum rei pudesse nomear bispos. O papa passou a se enxergar como o senhor supremo de reis e nações, com autoridade para depor monarcas e cancelar juramentos de fidelidade dos povos.

Quando o poder espiritual se transformou em monarquia absolutista e a salvação pela graça foi trocada pelo comércio de indulgências, peregrinações e méritos humanos, a crise se tornou insustentável. As consciências sinceras foram sufocadas por um jugo que, nas palavras de Pedro, nem os pais nem nós pudemos levar (Atos 15:10). É o evangelho de Paulo às avessas: a justiça que vem de Deus pela fé (Romanos 3:21-24) foi trocada por uma conta que ninguém conseguia pagar.

Entender esse processo histórico mostra a verdadeira razão de existir da Reforma do século XVI. Ela não pretendia inventar uma igreja nova nem inaugurar modismos doutrinários. O objetivo dos reformadores era mais profundo e mais humilde: remover as camadas de entulho humano que se acumularam ao longo dos séculos e devolver a noiva de Cristo à simplicidade e à pureza das Escrituras (sola Scriptura), onde Cristo é o único Mediador (solus Christus) e a graça é o único alicerce da nossa salvação (sola gratia).