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HistóriaReforma Protestante28 de 59

Anabatistas de 1525: A Reforma Radical contra o Estado

Os Anabatistas de 1525: A Reforma Radical que desafiou a espada do Estado

Diego Gonçalves6 min de leitura1.160 palavras

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Quando estudamos a Reforma Protestante na escola ou na igreja, os holofotes quase sempre se voltam para as grandes figuras da chamada “Reforma Magisterial”: Martinho Lutero na Alemanha, Ulrico Zuínglio na Suíça e João Calvino em Genebra. Eles romperam com a autoridade de Roma, traduziram a Bíblia e resgataram a justificação pela fé. Havia, porém, um detalhe decisivo na estratégia deles: todos mantiveram a Igreja atrelada ao poder político dos príncipes e dos conselhos municipais. Se o magistrado da cidade mandasse a igreja ir devagar, a reforma desacelerava o passo.

Para um grupo de jovens teólogos em Zurique, na Suíça, aquilo parecia uma meia-reforma. Eles queriam levar a autoridade da Bíblia até as últimas consequências (sola Scriptura). E em janeiro de 1525 deram um passo que incendiou a Europa e deu origem ao que os historiadores chamam de Reforma Radical: o movimento anabatista.

Placa de granito à beira do rio Limmat, em Zurique, em memória de Felix Manz e dos anabatistas afogados ali
Placa em memória dos anabatistas afogados no rio Limmat, Zurique. Foto de Roland zh, 2010, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

O racha entre Zuínglio e seus alunos

O movimento começou dentro do círculo íntimo de Zuínglio. Jovens brilhantes como Conrad Grebel e Felix Manz eram discípulos dedicados do reformador suíço. Liam o Novo Testamento no original grego e concordavam com quase tudo o que Zuínglio pregava no púlpito da catedral de Zurique.

A crise estourou quando perceberam que Zuínglio subordinava as decisões eclesiásticas ao Conselho Municipal da cidade. Para eles, a Igreja de Jesus Cristo não poderia receber ordens de prefeitos, senadores ou reis. A Igreja pertencia exclusivamente a Cristo e deveria ser governada unicamente pela Palavra de Deus.

O ponto central da ruptura caiu sobre uma prática que parecia intocável para a sociedade da época: o batismo infantil.

No século 16, ser batizado como recém-nascido não era apenas um ato religioso familiar. Era a certidão de nascimento civil, a garantia de cidadania e a inclusão automática nos cadastros tributários e militares da cidade.

Grebel e Manz foram às Escrituras e não encontraram nenhuma ordem para batizar bebês. O padrão do Novo Testamento lhes parecia claro: primeiro o Evangelho era anunciado; em seguida, a pessoa se arrependia, confessava a sua fé pessoal em Cristo e, só então, descia às águas do batismo. Foi assim em Pentecostes (Atos 2:38-41) e com o eunuco etíope (Atos 8:36-38). Para eles, o batismo não salva; é o sinal público da graça já recebida pela fé.

Defender que o batismo só tinha validade para adultos crentes que decidissem seguir a Jesus por livre e espontânea vontade não era apenas uma discordância teológica de gabinete. Para as autoridades da época, parecia um ato de anarquia política que desmanchava os alicerces do Estado.

A noite que mudou a história

Em 21 de janeiro de 1525, o Conselho de Zurique bateu o martelo: proibiu qualquer reunião do grupo e ordenou que todos os pais levassem seus bebês para o batismo em até oito dias, sob pena de prisão e banimento.

Naquela mesma noite de inverno rigoroso, um punhado de homens e mulheres se reuniu em segredo na casa de Felix Manz. Sabiam que a decisão que tomariam custaria a própria liberdade. Depois de um longo tempo de oração, um ex-sacerdote chamado George Blaurock se levantou, aproximou-se de Conrad Grebel e pediu que ele o batizasse com água, ali mesmo, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, sobre a sua confissão de fé pessoal.

Logo em seguida, Blaurock batizou os outros presentes.

Aquele gesto simples, sem paramentos solenes e sem autorização estatal, marcou o nascimento oficial dos anabatistas. O nome “anabatista” foi um rótulo pejorativo criado pelos inimigos, e quer dizer “rebatizadores”. Eles mesmos rejeitavam o termo, dizendo que não estavam se batizando pela segunda vez, mas pela primeira vez de verdade, já que a aspersão recebida na infância havia sido, a seu ver, um ato sem fé consciente.

O “terceiro batismo” e a perseguição implacável

A reação contra os anabatistas foi imediata e de uma crueldade espantosa. O mais triste da história é que a violência não veio apenas da Inquisição da Igreja Católica. Veio também das próprias autoridades protestantes luteranas e reformadas, que temiam que a desobediência civil dos radicais colocasse em risco o avanço da Reforma.

Centenas de anabatistas foram caçados, presos e executados por toda a Europa central.

Em Zurique, os magistrados criaram uma punição de ironia cruel que ficou conhecida como “o terceiro batismo”: como insistiam em ser batizados nas águas como adultos, seriam afogados nas águas dos rios. Em janeiro de 1527, Felix Manz teve as mãos amarradas atrás dos joelhos, foi colocado num barco no meio do rio Limmat e lançado nas águas geladas, enquanto sua mãe e seus irmãos, parados na margem, o encorajavam a permanecer fiel a Cristo até o fim. Tinha apenas vinte e nove anos e se tornou o primeiro mártir anabatista em Zurique.

Apesar da espada, da fogueira e do afogamento, o movimento não foi destruído. Espalhou-se entre as classes camponesas e artesãs da Suíça, da Alemanha, da Holanda e da Áustria.

Líderes equilibrados como o ex-padre holandês Menno Simons ajudaram a organizar a comunidade, distanciando o movimento de pequenos grupos exaltados (como a tragédia de Münster) e firmando a tradição em princípios pacifistas rigorosos. Dessa raiz nasceram os menonitas, os amish e os huteritas, que sobrevivem até hoje.

A herança que moldou o mundo moderno

Muitas das liberdades que desfrutamos hoje na sociedade ocidental não nasceram nos gabinetes dos grandes impérios, mas nas lágrimas e no sangue desses mártires da Reforma Radical.

Os anabatistas estiveram entre os primeiros a defender com clareza três princípios revolucionários:

  1. A estrita separação entre Igreja e Estado: O governo cuida da ordem pública civil, mas não tem o direito de interferir na fé, no culto ou na consciência das pessoas.
  2. A liberdade religiosa universal: A fé não pode ser imposta pela força da lei nem pela ponta da espada; é uma resposta voluntária do coração à graça de Deus.
  3. A comunidade de discipulado real: A igreja não é o território geográfico de uma cidade, mas a congregação daqueles que decidiram viver os ensinamentos práticos de Jesus no dia a dia, servindo ao próximo e recusando a violência.

Cristãos fiéis ainda divergem sobre o batismo, mas nenhuma divergência sobre a água justifica a espada contra a consciência. Os anabatistas pagaram o preço mais alto para nos lembrar de que seguir a Cristo custa a própria vida. Deixaram o testemunho comovente de que uma fé autêntica não precisa da proteção das armas do governo para permanecer de pé, porque a sua força repousa unicamente na fidelidade daquele que venceu o mundo.