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Teologia da cruz e teologia da glória: O Deus escondido

Onde Deus se Esconde: Teologia da Cruz versus Teologia da Glória

Diego Gonçalves4 min de leitura792 palavras

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Se você ligar a televisão num canal religioso ou rolar as redes sociais de muitas igrejas, vai notar um padrão: Deus é quase sempre apresentado como o patrocinador oficial do sucesso humano. A mensagem promete prosperidade financeira inabalável, saúde blindada, sorrisos perfeitos e uma sequência interminável de “vitórias”. O sofrimento é tratado como falta de fé, a dor é vista como maldição e a cruz virou a lembrança distante de um evento do passado que nos livrou de carregar qualquer fardo.

Essa obsessão pelo triunfo visível não nasceu com os televangelistas modernos. Há mais de quinhentos anos, o reformador Martinho Lutero já colocava o dedo nessa mesma ferida teológica.

Painel central da Crucificação no Retábulo de Isenheim, com Cristo coberto de feridas na cruz, Maria desfalecida, João e Maria Madalena aos pés, e João Batista apontando para Ele
Matthias Grünewald, A Crucificação, painel do Retábulo de Isenheim, 1512-1516. Museu Unterlinden, Colmar. Obra em domínio público; fotografia de Txllxt TxllxT, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Em 1518, durante uma reunião acadêmica na cidade alemã de Heidelberg, Lutero apresentou uma das distinções mais desconcertantes da história da igreja: o contraste entre o que ele chamou de “teologia da glória” e a “teologia da cruz”.

Para Lutero, o ser humano caído tem uma tendência incurável de ser um “teólogo da glória”. O teólogo da glória quer encontrar Deus naquilo que é grande, vistoso, poderoso e vitorioso. Ele tenta subir até o céu pela escada do próprio esforço moral, do conhecimento intelectual profundo ou de rituais religiosos impecáveis. Ele olha para a prosperidade e diz que aquilo é bênção; olha para o sofrimento e diz que aquilo é derrota. Nas palavras de Lutero na tese vinte e um de Heidelberg: “O teólogo da glória chama o mal de bem e o bem de mal.”

O problema é que o Deus da Bíblia não se deixa encontrar na arrogância da força humana. Deus decidiu se revelar de um modo que escandaliza a sabedoria do mundo: na fraqueza e no escândalo da cruz. Por isso Lutero falava do Deus escondido sob o seu contrário.

É aí que nasce a “teologia da cruz”. O teólogo da cruz não tenta adivinhar quem Deus é olhando para o poder visível da natureza ou para as conquistas dos homens; ele olha diretamente para o homem pendurado no madeiro do Calvário. Ali, onde o mundo só enxerga fraqueza, vergonha, abandono e fracasso, a fé descobre o próprio Deus, em Cristo, expiando o pecado da humanidade. Somos justificados pela graça, mediante a fé, somente em Cristo.

O apóstolo Paulo já havia afirmado essa mesma verdade na sua primeira carta aos Coríntios:

“Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para os que se salvam é poder de Deus. […] Pois já que, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus pela sabedoria, Deus se agradou de salvar os que creem por meio da loucura da pregação.”

(1 Coríntios 1:18,21, Bíblia Livre)

A teologia da cruz muda a forma como enxergamos a vida real.

Ela nos cura da ilusão perigosa de achar que ser fiel a Cristo significa ter uma vida blindada contra tragédias, lutos e decepções. Quando Jesus disse aos Seus discípulos: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia sua cruz, e siga-me” (Lucas 9:23, Bíblia Livre), Ele estabelecia o padrão do discipulado. O caminho da glória passa pelo Getsêmani e pelo Calvário. Deus não nos poupa do deserto; Ele se faz presente com a Sua graça sustentadora no meio do deserto.

O próprio apóstolo Paulo aprendeu essa lição na pele ao orar três vezes para que Deus tirasse um espinho na carne que o atormentava. A resposta de Deus não foi um milagre espetacular de alívio imediato, mas uma palavra que derruba qualquer triunfalismo barato: “Minha graça te basta, porque meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Coríntios 12:9, Bíblia Livre). Essa graça nos alcança antes de a procurarmos e nos sustenta até o fim.

A distinção de Lutero continua sendo um teste de sobriedade para a igreja de hoje. Precisamos escolher entre duas estradas: podemos seguir a ilusão da teologia da glória, que massageia o ego, promete facilidades e desaba na primeira crise real da vida; ou podemos abraçar a teologia da cruz, que nos despoja do orgulho, nos ensina a amar sem esperar aplausos e nos mostra que o verdadeiro poder de Deus brilha com mais intensidade exatamente quando reconhecemos a nossa total pequenez.

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