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Conversão de João Calvino: A mudança súbita que ele contou
A conversão de João Calvino: A mudança que ele mesmo chamou de súbita
João Calvino é conhecido como o teólogo de Genebra, autor das Institutas da Religião Cristã. O que quase ninguém sabe é que ele falou da própria conversão num único lugar, e em poucas linhas. Foi no prefácio do Comentário dos Salmos, escrito já perto do fim da vida. Ali ele conta o que lembrava, sem dar data nem lugar. Isso deixou os biógrafos discutindo até hoje.
Um filho para o altar, depois para as leis
Calvino nasceu em 1509, em Noyon, na Picardia, norte da França. O pai, Gérard Cauvin, trabalhava como escrivão e notário na catedral e queria o filho na vida da igreja. O garoto recebeu a tonsura (o corte de cabelo dos clérigos) ainda criança e foi estudar em Paris, primeiro no Collège de la Marche, depois no Collège de Montaigu.
Pelo que o próprio Calvino conta no prefácio, o pai mudou de ideia: viu que o direito dava mais dinheiro que a teologia e mandou o filho estudar leis. Calvino foi para Orléans e depois para Bourges. Em 1532 tirou a licença em direito e publicou o primeiro livro, um comentário sobre De Clementia, de Sêneca. Até ali, a vida dele caminhava para ser a de um humanista e jurista de talento.
“Preso demais às superstições”
No prefácio, Calvino descreve como estava naquele tempo. Dizia-se apegado demais às práticas da religião em que cresceu para sair dela com facilidade. Mais tarde, numa carta ao cardeal Sadoleto, admitiu que tinha resistido com força às ideias novas, ofendido pela novidade delas.
Foi então, escreveu, que Deus o mudou. Em tradução livre da versão inglesa de James Anderson, o prefácio diz que Deus, “por uma conversão súbita, dominou e levou a minha mente a ficar disposta a aprender”. Calvino não aponta nenhuma pessoa como causa: nem Olivétan, parente e amigo dele, nem o professor Wolmar. Para ele, a iniciativa tinha sido de Deus.
Quando foi, ninguém sabe ao certo
O texto não traz ano. Alguns estudiosos, como T. H. L. Parker, colocam a mudança no fim de 1529 ou começo de 1530. Outros apontam 1532 ou 1533, e há quem veja um processo mais longo que um só momento. O historiador Philip Schaff lembra que “súbita” não exclui anos de preparação, assim como no caso de Paulo. Um estudioso observa ainda que a palavra latina subita pode ter o sentido de “inesperada”, e Calvino a usou assim em outro lugar.
Do refúgio ao palco
Calvino conta que, depois de provar um pouco da verdadeira piedade, ficou com um desejo ardente de aprender mais. Menos de um ano depois, gente que queria uma doutrina mais pura já o procurava para ouvi-lo. Ele se considerava um principiante.
Em novembro de 1533, o amigo Nicolas Cop, reitor da Universidade de Paris, fez um discurso pedindo reforma na igreja. A reação foi dura, Cop fugiu para Basileia e Calvino se escondeu por cerca de um ano. Depois dos cartazes protestantes que apareceram em Paris no fim de 1534, deixou a França. Em Basileia, em 1536, publicou a primeira edição das Institutas, em defesa dos cristãos perseguidos no seu país.
Calvino queria uma vida quieta, de estudo. Era tímido e dizia gostar de retiro. Naquele mesmo ano de 1536, passou por Genebra a caminho de Estrasburgo, pensando só em passar. Guilherme Farel o segurou ali, com uma advertência tão séria que Calvino a tomou como palavra do próprio Deus. Ele ficou.
Calvino entendia a própria conversão como obra da graça de Deus do começo ao fim, e essa é a ênfase da tradição reformada sobre a salvação. Cristãos de outras tradições, como a wesleyana, também confessam que a conversão nasce da graça, e explicam de outro jeito como Deus e a pessoa agem juntos na resposta. Em muita coisa essas tradições caminham juntas, e a gratidão de Calvino no prefácio é a de todos eles.
“Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não por obras, para que ninguém tenha orgulho de si mesmo.”
(Efésios 2:8-9, Bíblia Livre)
Um rapaz que só queria estudar acabou sendo usado por Deus onde nunca tinha planejado. Nós também costumamos ter planos para a vida, e às vezes Deus tem outros.
Fontes consultadas: João Calvino, Prefácio ao Comentário dos Salmos (trad. inglesa de James Anderson, 1845) [https://ccel.org/ccel/calvin/calcom08.vi.html]; Philip Schaff, History of the Christian Church, vol. 8 [https://ccel.org/ccel/schaff/hcc8.iv.ix.iv.html]; “John Calvin” na Wikipédia em inglês [https://en.wikipedia.org/wiki/John_Calvin]; “John Calvin’s Conversion in His Own Words”, Christian Reformed Church [https://network.crcna.org/evangelism/john-calvins-conversion-his-own-words].
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