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HistóriaReforma Protestante38 de 59

Henrique VIII e o Ato de Supremacia de 1534: Reforma inglesa

O divórcio de Henrique VIII: Como a política moldou a Reforma na Inglaterra

Diego Gonçalves4 min de leitura852 palavras

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Quando estudamos a Reforma Protestante, a imagem comum que vem à cabeça é a de homens piedosos, com a Bíblia aberta na mão, discutindo teologia profunda sobre graça, fé e salvação, como Martinho Lutero na Alemanha ou João Calvino em Genebra.

Só que, quando o assunto é a Reforma na Inglaterra, o ponto de partida foi bem menos espiritual. O estopim que rompeu os laços dos ingleses com a Igreja de Roma em 1534 não foi um debate bíblico na universidade, mas uma crise de sucessão e um impasse conjugal dentro do palácio de Londres.

Retrato de Henrique VIII da Inglaterra, de corpo inteiro até a cintura, com roupas de brocado e joias, pintado a partir de Holbein
Hans Holbein, o Jovem, Retrato de Henrique VIII da Inglaterra, c. 1537. Museu Thyssen-Bornemisza, Madri. Domínio público, via Wikimedia Commons.

No centro dessa confusão estava o rei Henrique VIII.

Henrique era um homem culto, impetuoso e muito cioso da sua autoridade. Ele era tão apegado à tradição católica que, anos antes, havia escrito um tratado refutando os ensinamentos de Lutero. O texto agradou tanto a Roma que o Papa Leão X concedeu a ele o título honorífico de “Defensor da Fé”. Ou seja, Henrique não tinha nenhuma simpatia pela teologia dos reformadores protestantes. Ele gostava da liturgia solene, dos sacramentos e da hierarquia tradicional da igreja.

A grande obsessão de Henrique era outra: ele precisava de um herdeiro homem para garantir o trono.

A Inglaterra havia saído poucas décadas antes de uma guerra civil violenta pela coroa, a chamada Guerra das Rosas. O rei temia que, se morresse sem deixar um filho homem no comando, o país afundasse de novo no caos político. Sua esposa, Catarina de Aragão, era uma nobre espanhola respeitada, mas, depois de anos de casamento e várias gestações que não vingaram, apenas uma filha havia sobrevivido: a princesa Maria.

Convencido de que aquele casamento não daria frutos e interessado em se casar com a jovem Ana Bolena, Henrique pediu ao Papa Clemente VII a anulação da união.

Naquela época, anulações de casamentos reais por conveniência política eram comuns nas cortes europeias. Só que havia um enorme obstáculo geopolítico no meio do caminho: Catarina de Aragão era tia de Carlos V, o homem mais poderoso do continente, cujas tropas haviam acabado de invadir Roma. O Papa estava praticamente refém do imperador. Anular o casamento da tia de Carlos V traria consequências desastrosas para o Vaticano. O pontífice protelou o processo por anos e acabou negando o pedido.

Foi então que Henrique VIII decidiu tomar as rédeas da situação à sua maneira.

Se o Papa não anulava o casamento, o rei tirava a Inglaterra da jurisdição de Roma. Apoiado pelo Parlamento inglês e por conselheiros como Thomas Cromwell e Thomas Cranmer, ele fez aprovar, em 1534, o Ato de Supremacia.

A nova lei declarou que o rei da Inglaterra passava a ser o “único chefe supremo na terra da Igreja da Inglaterra”. Com esse decreto, séculos de ligação com o papado foram desfeitos. Cranmer, já arcebispo de Cantuária, havia declarado nulo o casamento com Catarina em 1533, e Henrique já estava casado com Ana Bolena. Agora o rei confiscava as terras e as imensas propriedades dos mosteiros católicos ingleses e mandava executar quem se recusasse a jurar fidelidade à sua nova posição religiosa.

O cenário que se formou era contraditório: a Inglaterra estava separada de Roma, mas continuava com uma teologia profundamente católica. O próprio Henrique mandava para a fogueira os simpatizantes do protestantismo com o mesmo rigor com que mandava para a forca os católicos fiéis ao Papa.

A grande surpresa da história é que, embora o motivo original do rei fosse apenas político e pessoal, a porta que ele abriu não pôde mais ser fechada.

Para sustentar o rompimento, Henrique acabou autorizando a tradução e a leitura pública da Bíblia em língua inglesa nas igrejas. E quando o texto bíblico chegou às mãos do povo comum, as ideias da Reforma ganharam força própria no coração da população. Nas décadas seguintes, sob o reinado de seu filho Eduardo VI e, mais tarde, com a rainha Elizabeth I, aquela separação política amadureceu e se consolidou como uma igreja reformada em suas bases doutrinárias, com a Escritura como regra de fé e a salvação pela graça, mediante a fé em Cristo.

A história da Reforma inglesa revela uma verdade desconcertante sobre os caminhos de Deus: Ele é soberano para guiar a história mesmo através das ambições, das brigas de poder e das contradições humanas. A Escritura já dizia:

“Como ribeiros de águas é o coração do rei na mão do SENHOR, ele o conduz para onde quer.”

(Provérbios 21:1, Bíblia Livre)

Governantes terrenos tomam decisões pensando na própria estabilidade, mas quem continua escrevendo a história da Igreja é o Senhor que governa sobre todos os impérios.