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TeologiaReforma Protestante31 de 59

Liberdade e responsabilidade humana: O paradoxo de Lutero

Liberdade e responsabilidade: O paradoxo de ser livre para servir

Diego Gonçalves4 min de leitura823 palavras

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Neste texto

“Pois vós, irmãos, fostes chamados para a liberdade. Somente não useis a liberdade como oportunidade para a carne; em vez disso, servi-vos uns aos outros pelo amor. Pois toda a Lei se cumpre em uma só regra, que é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo.”

(Gálatas 5:13-14, Bíblia Livre)

A palavra “liberdade” é um dos maiores slogans da nossa época. Propagandas de carro, discursos políticos, cursos de autoajuda e músicas populares repetem sem parar a ideia de que ser livre é poder fazer exatamente o que quiser, na hora em que bem entender, sem prestar contas para ninguém.

Essa promessa moderna, porém, costuma terminar em amargura. Quanto mais o ser humano corre atrás de uma autonomia cega e sem limites, mais ele se descobre escravo da própria ansiedade, da solidão e de vícios que não consegue largar. A ilusão de viver sem limites produz relacionamentos descartáveis, lares desfeitos e um vazio que nenhuma conquista material consegue preencher.

Gravura de Martinho Lutero como monge agostiniano, com um livro nas mãos, diante de um nicho em arco
Lucas Cranach, o Velho, Martinho Lutero como monge agostiniano, 1520. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Quando o apóstolo Paulo escreveu aos crentes da Galácia, colocou a liberdade no centro da fé cristã e uniu a ela uma verdade inseparável: a liberdade bíblica só tem sentido quando acompanhada de responsabilidade pelo outro.

O falso dilema

Ao longo da história, as pessoas costumam oscilar entre dois erros igualmente destrutivos:

De um lado está o legalismo religioso. É a tentativa de controlar o comportamento humano criando uma gaiola de regras exteriores, proibições minuciosas e julgamentos moralistas. O legalista obedece por medo do castigo ou por vaidade espiritual, querendo provar a Deus que é melhor do que os outros. Esse caminho sufoca a alma e transforma a igreja em um tribunal amargo.

Do outro lado está a licenciosidade. É o caminho de quem descobre que a salvação é pela graça e logo conclui que pode viver de forma relaxada, ferindo a esposa, negligenciando os filhos e alimentando o próprio egoísmo sob o pretexto de que “Deus perdoa tudo”.

O Evangelho de Jesus Cristo desfaz esses dois enganos de uma vez só. Fomos libertos da condenação da lei e da necessidade de negociar o favor divino com rituais: somos justificados gratuitamente, por Sua graça, mediante a fé, pelo sangue de Cristo (Romanos 3:24-25). Essa liberdade, porém, nunca foi um salvo-conduto para a irresponsabilidade. Cristo nos resgatou da tirania do pecado para nos devolver a dignidade de amar de verdade, pois em Cristo Jesus o que vale é “a fé, que opera por meio do amor” (Gálatas 5:6, Bíblia Livre).

O paradoxo de Lutero

Em 1520, Martinho Lutero escreveu um dos seus tratados mais conhecidos, A Liberdade do Cristão. Logo nas primeiras linhas, ele formulou duas proposições que parecem contraditórias à primeira vista, mas que guardam o segredo da maturidade espiritual:

  • O cristão é um senhor perfeitamente livre de todas as coisas, a ninguém sujeito.
  • O cristão é um servo perfeitamente dedicado a todas as coisas, a todos sujeito.

Como essas duas afirmações podem ser verdadeiras ao mesmo tempo?

Pela fé na obra consumada de Cristo na cruz, somente por graça, o crente é um senhor livre: nenhuma culpa do passado o condena, nenhum tirano humano governa a sua consciência e nenhuma exigência de homens pode anular a paz que ele tem com Deus. Ele não precisa bajular ninguém nem viver desesperado para impressionar os outros.

Mas, pelo amor que o Espírito derrama no coração de quem foi perdoado, esse mesmo crente se torna voluntariamente servo de todos, como Paulo, que se fez “servo de todos” para ganhar mais pessoas (1 Coríntios 9:19, Bíblia Livre). As obras não compram a salvação; nascem dela. Ele olha ao redor, vê a dor do próximo, as carências da sua comunidade e as feridas da sua família, e decide gastar a sua liberdade para abençoar, cuidar e servir.

Liberdade que edifica

A pergunta que mede a qualidade da nossa vida com Deus não é “eu tenho o direito de fazer isso?”. A pergunta do Evangelho é bem mais profunda: “fazer isso edifica quem está ao meu lado? Revela o amor de Cristo para quem me observa?”.

Quem é verdadeiramente maduro em Cristo não vive calculando até onde pode ir sem pecar. Ele prefere renunciar a direitos legítimos e abrir mão de preferências pessoais se isso for necessário para proteger a fé de um irmão mais frágil ou para levar consolo a quem está abatido.

A maior prova de que alguém experimentou a verdadeira liberdade da cruz não é a arrogância de fazer o que quer, mas a humildade de se abaixar para lavar os pés dos outros com alegria e amor sincero.