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Justificação pela fé: Lutero e o tribunal de Deus
A justificação pela fé
No início do século XVI, dentro de um mosteiro austero na Alemanha, um jovem monge agostiniano vivia um tormento interior que quase o levou à loucura. O nome dele era Martinho Lutero.
Lutero não era um homem relaxado na fé. Pelo contrário: ele jejuava tanto que chegava a desmaiar de fraqueza no chão de pedra da cela, passava noites inteiras em vigília no frio cortante do inverno e chegava a passar seis horas ininterruptas confessando pecados aos seus superiores, a ponto de o confessor pedir para ele parar de inventar bobagens. Só que, quanto mais Lutero tentava se purificar por meio de disciplinas religiosas e boas obras, mais a sua consciência o acusava diante da santidade absoluta de Deus.
Ele olhava para o teto e se perguntava em desespero: como é que um homem culpado, quebrado e cheio de falhas pode se apresentar de pé diante de um Deus infinitamente justo sem ser consumido pela sua ira?
A resposta para essa angústia histórica, que virou a Europa de cabeça para baixo e deu início à Reforma Protestante, é o coração pulsante do evangelho cristão: a doutrina da justificação pela fé.
O que acontece no tribunal de Deus
Para compreender a justificação, precisamos primeiro entender de onde essa palavra veio.
A palavra “justificação” não é um termo médico que descreve uma cirurgia interior ou um processo gradual de cura moral. Ela é um termo jurídico, tirado diretamente dos tribunais de direito.
Quando um juiz bate o martelo na corte e declara um réu justificado, ele não está dizendo que aquele homem se tornou um anjo de bondade, nem que o réu nunca teve um pensamento ruim na vida. O juiz está emitindo uma sentença oficial, legal e irrevogável de que a lei foi plenamente satisfeita, de que não há nenhuma pendência contra aquele indivíduo e de que a corte o reconhece como inocente e livre de condenação.
A tragédia da raça humana é que, diante do tribunal de Deus, todos nós somos réus confessos. O apóstolo Paulo declara em Romanos 3.23 que “todos pecaram e carecem da glória de Deus”. Ninguém tem um currículo limpo para apresentar. Se a sentença dependesse da nossa conduta moral, o único veredito possível seria a condenação eterna.
E é aqui que entra o escândalo da graça.
A Bíblia afirma que Deus nos justifica gratuitamente, não ignorando a sua própria justiça, mas imputando, ou seja, creditando na nossa conta, a perfeita obediência e o sacrifício de Jesus Cristo.
O apóstolo Paulo resume essa grande troca em 2 Coríntios 5.21: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus”.
Na cruz do Calvário, Deus tratou Jesus como se ele tivesse cometido todos os nossos pecados. E, quando cremos em Jesus, Deus passa a nos olhar e nos tratar como se tivéssemos vivido a vida perfeitamente santa que apenas o Filho viveu. A dívida foi cancelada por completo e a justiça de Cristo nos foi dada de presente como uma veste nupcial alva e imaculada.
A fé como a mão estendida do mendigo
Se a justificação é um presente divino tão imenso, como é que ela se torna nossa?
A resposta de Paulo em Romanos 3.28 é direta e cortante: “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei”.
Muita gente tropeça aqui por achar que a fé é uma espécie de nova obra meritória, como se Deus dissesse: “Já que você não consegue cumprir os dez mandamentos, eu vou aceitar a sua fé como pagamento substituto”.
Isso seria transformar a fé num mérito humano. Mas a fé cristã não salva pelo seu valor próprio nem pela sua intensidade emocional. A fé não é a causa da salvação; ela é apenas o canal, a mão estendida do mendigo que se abre para receber o pedaço de pão que alguém lhe oferece de graça. Até essa mão estendida é obra da graça preveniente, que antes de tudo nos desperta e nos atrai a Cristo: “Pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus” (Efésios 2.8).
Pense numa pessoa doente que toma um remédio para salvar a vida. O que cura a infecção não é a firmeza com que os dedos seguram o comprimido; é o princípio ativo do remédio que entra na corrente sanguínea. Uma mão trêmula e fraca que leva o remédio à boca é curada da mesma forma que a mão firme de um atleta profissional.
Da mesma maneira, o que nos salva não é o tamanho ou a perfeição da nossa fé, mas a perfeição do Salvador a quem a nossa fé se apega. Crer é simplesmente tirar os olhos das nossas pretensões vazias de justiça própria e lançar todo o peso da nossa esperança sobre os ombros de Cristo.
E as boas obras, onde entram?
Toda vez que a justificação pela fé é proclamada com fidelidade bíblica, surge a velha dúvida: “Se somos aceitos por Deus unicamente pela fé, sem depender de obras, então as boas obras não servem para nada? Podemos viver de qualquer jeito?”.
Os reformadores do século XVI respondiam a essa acusação com uma frase conhecida: a fé sozinha salva, mas a fé que salva nunca está sozinha.
As boas obras não são a raiz ou o pagamento da nossa salvação; elas são o fruto inevitável de um coração que foi alcançado e transformado pela graça.
Um homem não ama a sua esposa para que ela aceite se casar com ele em cartório; ele a ama, cuida dela e lhe é fiel precisamente porque já está casado com ela. Da mesma forma, o cristão não pratica a caridade, a justiça e a honestidade para tentar comprar um pedaço do céu ou dobrar o coração de Deus a seu favor. Ele pratica o bem como uma explosão espontânea de gratidão por já ter sido perdoado e recebido como filho amado do Pai. Na tradição wesleyana, a justificação é a obra de Deus por nós, e a santificação, a obra de Deus em nós; uma não existe sem a outra.
O descanso que nenhuma religião humana dá
Em Romanos 5.1, o apóstolo Paulo descreve o fruto imediato dessa verdade: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo”.
Paz com Deus não é apenas uma sensação psicológica agradável de tranquilidade interior; é o fim definitivo do estado de inimizade entre a criatura rebelde e o seu Criador. A guerra acabou. A dívida foi rasgada.
É por isso que Romanos 8.1 pode começar com uma das frases mais libertadoras de toda a história: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus”.
A justificação pela fé liberta o crente da escravidão neurótica de viver tentando provar o seu valor para Deus. Você não precisa passar o dia com medo de ser rejeitado ao menor tropeço, porque o seu lugar seguro na família do Pai não foi conquistado pelas suas mãos, mas sustentado pelas mãos cravadas de Jesus. Descansar nessa verdade é o início da verdadeira liberdade espiritual.
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