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HistóriaReforma Protestante4 de 59

Por que as reformas da igreja falharam antes de Lutero

Por que as reformas da igreja falharam antes de Martinho Lutero

Diego Gonçalves3 min de leitura589 palavras

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Durante quase trezentos anos antes de Martinho Lutero afixar as suas 95 Teses na porta da igreja de Wittenberg em 1517, papas piedosos, monges dedicados e concílios ecumênicos tentaram limpar a corrupção da Igreja medieval. Por que essas sucessivas tentativas de reforma moral e administrativa fracassaram em conter a decadência espiritual da época?

Para responder a essa pergunta, precisamos olhar para a realidade da Europa entre os séculos 12 e 15. A Igreja Católica exercia uma hegemonia cultural, política e econômica absoluta sobre o continente ocidental. Essa concentração desmedida de terras e influência mundana cobrou um preço espiritual alto: a simonia (comércio aberto de cargos eclesiásticos) era rotina nos bispados, o celibato clerical era desrespeitado com frequência e o medo da condenação eterna era explorado pelo comércio de relíquias e indulgências.

Iluminura medieval da eleição do papa Martinho V pelos cardeais no Concílio de Constança, em 1417
Ulrich Richental, Crônica do Concílio de Constança: a eleição do papa Martinho V, 1417 (cópia de c. 1464). Domínio público, via Wikimedia Commons.

A liderança cristã daquele período não era cega a esses escândalos. Grandes líderes tentaram consertar a estrutura por dentro.

Em 1215, o influente Papa Inocêncio III convocou o Quarto Concílio de Latrão, aprovando decretos severos para punir a devassidão do clero, exigir formação bíblica mínima para os sacerdotes e restaurar a disciplina litúrgica. Quase na mesma época, figuras extraordinárias como Francisco de Assis e Domingos de Gusmão fundaram ordens mendicantes com o objetivo de resgatar o ideal de pobreza evangélica, caminhando descalços e pregando aos pobres.

Dois séculos depois, o Concílio de Constança (1414-1418) conseguiu encerrar o escândalo do Grande Cisma do Ocidente (quando três homens afirmavam ser o papa legítimo ao mesmo tempo), depondo os rivais e elegendo um único pontífice, Martinho V, em 1417, sob a teoria do conciliarismo, que submetia a autoridade papal às decisões das assembleias eclesiásticas.

O problema de todas essas tentativas louváveis estava no diagnóstico do mal: tentaram podar os galhos podres da árvore sem tocar na raiz da enfermidade.

Buscavam padres mais honestos, monges mais disciplinados e finanças mais transparentes, mas mantinham intacta a teologia distorcida que sustentava todo o sistema. Acreditava-se que a salvação continuava sendo uma conquista merecida pela penitência humana, pelos sacramentos administrados pelo clero e pela mediação da cúria romana. O mesmo Concílio de Constança que tentava moralizar a igreja condenou o pré-reformador Jan Hus (John Huss, em inglês) à morte na fogueira, em 1415, por denunciar os abusos e os erros do papado com base na Bíblia.

A verdadeira virada histórica só se tornou possível no século 16 porque a Reforma Protestante compreendeu algo elementar: a moralidade da igreja não melhora de fora para dentro por meio de decretos. A restauração do povo de Deus só acontece quando o fundamento doutrinário é restabelecido. Ao resgatar a supremacia exclusiva das Escrituras e a justificação do pecador unicamente pela graça mediante a fé na cruz de Cristo, os reformadores devolveram à igreja o único poder capaz de regenerar o coração humano. Paulo já dizia que a salvação não nasce de nós: “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus” (Efésios 2:8, Bíblia Livre). Wesley chamaria esse dom de novo nascimento, a obra do Espírito que transforma a vida por dentro e produz a santidade que nenhum decreto consegue impor.