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Tradução da Bíblia: de Wycliffe e Tyndale até hoje

O preço de ler na própria língua: como a Bíblia saiu do latim e ganhou o mundo

Diego Gonçalves9 min de leitura1.821 palavras

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Neste texto

Hoje abrimos o celular na fila do banco ou no ponto de ônibus e temos dezenas de versões da Bíblia na palma da mão, de graça, em português claro e atual. Se uma palavra parecer estranha, basta um toque na tela para comparar a tradução com outra versão mais moderna. Essa facilidade toda, porém, é uma exceção na história da humanidade. Durante séculos, querer ler a Bíblia na língua que aprendemos com a nossa mãe, dentro de casa, não era apenas difícil: podia custar a vida numa fogueira.

A história de como a Bíblia chegou até a nossa língua é mais do que uma crônica de gramática ou de esforço editorial. Ela conta de homens e mulheres que enfrentaram monopólios religiosos, prisões e perseguições para que qualquer pessoa comum pudesse escutar a voz de Deus na Escritura, sem intermediários que decidissem o que ela podia dizer.

Saltério wiclifita em inglês medieval, aberto no Salmo 6, exposto na Biblioteca Britânica
Saltério wiclifita (tradução inglesa dos Salmos da tradição de Wycliffe), Inglaterra, c. 1500. Biblioteca Britânica, Londres. Foto de Daderot, CC0, via Wikimedia Commons.

O monopólio do latim e o livro trancado

Durante a maior parte da Idade Média na Europa ocidental, a Bíblia existia quase que exclusivamente em latim, na versão conhecida como Vulgata, traduzida por Jerônimo séculos antes. Para a liderança da igreja, o latim era a língua sagrada, universal e protegida de erros.

Havia também um argumento pastoral de proteção: dizia-se que, se a pessoa comum tivesse acesso direto às Escrituras sem a tutela teológica do clero, ela fatalmente cometeria heresias e deturparia a fé. Por trás desse argumento cuidadoso, porém, havia na prática um controle de poder. Quem dominava a língua dominava a interpretação; quem dominava a interpretação decidia o que era vontade de Deus para a vida de toda a sociedade.

Para piorar, antes da imprensa, cada Bíblia tinha de ser copiada à mão por monges copistas, letra por letra, em pergaminhos caros feitos de pele de animal. Um único exemplar levava meses ou anos para ficar pronto e chegava a custar o equivalente ao patrimônio de uma vida de trabalho. A Bíblia ficava acorrentada nas catedrais, literalmente trancada, inacessível ao lavrador, ao ferreiro ou à dona de casa.

John Wycliffe e a fagulha em Oxford

A primeira grande rachadura nesse muro aconteceu na Inglaterra do século 14, pelas mãos de John Wycliffe, um respeitado professor e teólogo da Universidade de Oxford.

Wycliffe olhava para as contradições entre a simplicidade do Evangelho e os abusos de riqueza e poder de Roma e chegou a uma conclusão que os reformadores depois repetiriam: a autoridade final para a fé cristã não repousava nas decisões dos concílios ou nos decretos papais, mas na própria Palavra de Deus (sola Scriptura). E se a Escritura era a regra de fé para todos os cristãos, todos os cristãos tinham o direito de conhecê-la na língua que falavam.

Com o apoio de seus discípulos, conhecidos popularmente como lolardos, Wycliffe traduziu a Bíblia do latim para o inglês da época. Cada cópia ainda precisava ser feita à mão, mas os lolardos viajavam a pé de vila em vila, pregando em praça pública e lendo as porções das Escrituras na língua do povo.

A reação das autoridades eclesiásticas foi implacável. As traduções foram proibidas, os lolardos caçados e queimados vivos como hereges. Wycliffe morreu em 1384 por causas naturais em sua paróquia, mas a fúria contra ele era tão grande que o Concílio de Constança o condenou postumamente, em 1415, e em 1428 seus ossos foram desenterrados, queimados numa pira pública e as cinzas jogadas no rio Swift. Mais tarde, o historiador Thomas Fuller registrou a ironia daquele ato de vingança: as cinzas de Wycliffe foram levadas pelo riacho até o rio Avon, do Avon até o Severn, do Severn para o mar, e do mar para o mundo inteiro. As ideias de Wycliffe já não podiam ser recolhidas nem queimadas.

A prensa de tipos móveis e o retorno aos originais

Por volta de 1450, uma revolução tecnológica mudou para sempre a transmissão do conhecimento: Johannes Gutenberg desenvolveu na Alemanha a imprensa de tipos móveis. Livros que antes demandavam um ano de trabalho de um copista agora podiam ser reproduzidos em centenas de cópias idênticas em poucas semanas.

Pouco tempo depois, eruditos renascentistas como Erasmo de Roterdã resgataram os manuscritos antigos e, em 1516, publicaram o Novo Testamento em grego. O mundo acadêmico percebeu que a Vulgata Latina continha escolhas de palavras que sustentavam certas práticas e doutrinas medievais que o grego dos apóstolos não apresentava. A porta estava aberta para uma nova geração de tradutores que queriam beber direto da fonte.

William Tyndale e a promessa ao menino do arado

O nome mais emblemático dessa travessia em língua inglesa é William Tyndale. Diferente de Wycliffe, que havia traduzido do latim, Tyndale dominava o hebraico e o grego e decidiu traduzir a Bíblia diretamente dessas línguas originais para o inglês falado pelo homem simples. Seu Novo Testamento saiu em 1526.

Retrato gravado de William Tyndale, tradutor da Bíblia para o inglês
Retrato de William Tyndale (c. 1494-1536), gravura reproduzida em George Offor, O Novo Testamento de 1526, primeira tradução do grego para o inglês, 1836. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Ao debater certa vez com um clérigo influente que afirmava que as leis do Papa eram mais importantes do que as leis de Deus, Tyndale rebateu com uma frase que ficou gravada na história: “Se Deus poupar a minha vida, farei com que, dentro de poucos anos, o menino que conduz o arado conheça as Escrituras melhor do que você.”

Tyndale precisou fugir da Inglaterra para a Alemanha e para os Países Baixos, vivendo como foragido. Imprimia seus Novos Testamentos em pequenas prensas clandestinas e enviava os volumes escondidos dentro de fardos de tecidos e barris de vinho que entravam nos portos ingleses.

As autoridades compravam estoques inteiros desses livros para queimar publicamente diante da Catedral de São Paulo, em Londres. Sem querer, os bispos acabavam financiando as edições seguintes de Tyndale com o dinheiro usado para confiscar os exemplares.

Em 1535, Tyndale foi traído por um falso amigo em Antuérpia, jogado numa masmorra fria e úmida por cerca de quinhentos dias e condenado à morte por heresia. Em outubro de 1536, ele foi amarrado a um poste, estrangulado e o seu corpo queimado na fogueira. Suas últimas palavras antes de morrer foram uma súplica em voz alta: “Senhor, abre os olhos do rei da Inglaterra!”

Em pouco tempo, aquela oração foi respondida. Menos de três anos depois, o rei Henrique VIII aprovou a impressão e a circulação da chamada “Grande Bíblia” em língua inglesa, determinando que uma cópia fosse colocada em cada igreja do reino. Boa parte do texto dessa Bíblia oficial vinha do trabalho de Tyndale.

Martinho Lutero e a língua das feiras

Na Alemanha, Martinho Lutero compreendeu a mesma urgência. Refugiado no Castelo de Wartburg após ser condenado na Dieta de Worms, Lutero traduziu o Novo Testamento do grego para o alemão em apenas onze semanas.

O grande mérito da tradução de Lutero não foi apenas a erudição linguística, mas a sua sensibilidade para com a vida real. Ele mesmo explicava que, para traduzir a Bíblia, não se devia consultar os professores latinos, mas prestar atenção na mãe conversando em casa com os filhos, nos homens negociando na praça do mercado e nas crianças brincando na rua. Era a língua viva do povo que devia dar corpo à Palavra de Deus. A tradução de Lutero não apenas alimentou a Reforma como também ajudou a unificar os dialetos germânicos, moldando a própria língua alemã moderna.

A expansão missionária e William Carey

Durante séculos, a tradução da Bíblia permaneceu concentrada nas línguas das potências europeias. Essa realidade só começou a mudar radicalmente no final do século 18 com o nascimento do movimento missionário moderno.

O marco desse período é William Carey, um sapateiro inglês autodidata que embarcou para a Índia em 1793. Carey compreendeu desde o primeiro instante que, para o Evangelho criar raízes verdadeiras entre o povo indiano, a Bíblia não podia chegar em inglês britânico. Ela precisava falar bengali, sânscrito, marati, híndi e as dezenas de dialetos regionais daquele subcontinente.

Carey e sua equipe em Serampore montaram oficinas de impressão, fundiram tipos móveis em alfabetos orientais e trabalharam durante décadas. Até o fim de sua vida, o trabalho liderado por Carey havia produzido a Bíblia completa ou porções dela em mais de quarenta línguas e dialetos indianos.

Esse esforço impulsionou a criação das grandes sociedades bíblicas no século 19, como a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, fundada em 1804. A tradução e distribuição da Bíblia deixava de ser uma iniciativa isolada de teólogos individuais e passava a ser um movimento internacional organizado e sistemático.

O desafio no nosso tempo

No século 20, surgiram entidades focadas em alcançar povos com línguas ágrafas, isto é, idiomas que sequer possuíam um alfabeto escrito, como a Wycliffe Bible Translators, fundada por Cameron Townsend. Linguistas e tradutores passaram a morar em comunidades remotas nas florestas tropicais, nas montanhas e nos desertos para aprender a língua nativa pelo convívio diário, criar um sistema alfabético, alfabetizar a comunidade e, finalmente, traduzir os Evangelhos.

Hoje, partes da Bíblia já foram traduzidas para mais de 3.500 idiomas no planeta. O trabalho continua avançando com o auxílio de softwares especializados e tecnologia digital, com o objetivo de que nenhuma etnia sobre a Terra fique sem ouvir Deus falar na sua língua do coração.

Saber que homens enfrentaram a forca e a fogueira para que as Escrituras saíssem das correntes e chegassem até nós muda a nossa relação com o livro que temos em casa. O grande drama da nossa geração não é a falta de acesso ao texto bíblico, mas a facilidade de deixá-lo fechado na estante ou intocado no celular. Paulo lembra a Timóteo que “toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para mostrar erros, para corrigir, e para instruir na justiça” (2 Timóteo 3:16, Bíblia Livre), e Wesley se dizia homo unius libri, “homem de um só livro” (prefácio dos Sermões, 1746). Quando seguramos uma Bíblia em português, seguramos nas mãos um presente que custou o sangue de gerações inteiras.

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