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HistóriaReforma Protestante51 de 121

Anabatistas: A terceira via da Reforma Protestante

Os anabatistas e a terceira via da Reforma

Diego Gonçalves6 min de leitura1.164 palavras

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Quando estudamos o século XVI, a tendência quase automática é dividir o mapa religioso europeu em duas grandes trincheiras: de um lado a Igreja Católica Romana, defendendo a tradição medieval e a autoridade papal; do outro, os reformadores protestantes como Martinho Lutero e Ulrico Zuínglio, que contestavam os abusos de Roma. Só que essa divisão em dois blocos ignora uma terceira força que surgiu no calor daqueles mesmos debates e acabou perseguida por ambos os lados: os anabatistas, os expoentes da chamada Reforma Radical.

Para os primeiros anabatistas — homens como Conrad Grebel, Felix Manz e mais tarde Menno Simons —, os reformadores magisteriais tinham parado na metade do caminho. Lutero e Zuínglio corrigiram a teologia da justificação e combateram as indulgências, mas mantiveram a estrutura de cristandade onde a Igreja e o Estado andavam de mãos dadas. Na prática, se o príncipe ou o conselho da cidade era luterano ou reformado, todos os bebês que nasciam naquele território tinham de ser batizados na religião oficial. Para o grupo que ficou conhecido como anabatista (termo pejorativo que significava “rebatizadores”), essa união entre a espada do magistrado e a cruz de Cristo representava a raiz de toda a corrupção do cristianismo desde o imperador Constantino.

A convicção central dos anabatistas era a restauração do padrão do Novo Testamento: uma igreja formada exclusivamente por pessoas que decidiram seguir a Jesus por vontade própria. Por essa razão, eles rejeitavam categoricamente o batismo infantil. Para eles, conforme as Escrituras, a água do batismo só fazia sentido se viesse depois de uma profissão consciente de fé e de um compromisso público de abandonar o pecado. Quando esses dissidentes começaram a batizar adultos já batizados quando bebês em Zurique, no ano de 1525, as autoridades civis e religiosas enxergaram o gesto como traição e crime de sedição. Naquela época, o registro de batismo era a própria certidão de nascimento e cidadania civil; quebrar esse elo parecia abalar os alicerces da ordem social.

Gravura de Dirk Willems, anabatista preso, voltando ao gelo quebrado para salvar o guarda que o perseguia
Jan Luyken, Dirk Willems salva seu perseguidor no gelo, em Asperen, 1685 (ilustração do Espelho dos Mártires). Rijksmuseum, Amsterdã. CC0, via Wikimedia Commons.

Essa ruptura se desdobrava em dez pilares, doutrinários e práticos:

Primeiro, a natureza da fé cristã. Para os anabatistas, crer em Jesus não podia ser reduzido a um mero assentimento intelectual a um credo ortodoxo nem a uma confiança abstrata na imputação da justiça de Cristo. A fé precisava se traduzir em discipulado visível no cotidiano. O coração, a boca e as mãos deveriam andar em sintonia rigorosa. Embora os reformadores os acusassem de legalismo, eles sustentavam que a obediência e as boas obras eram o fruto natural de quem tinha nascido de novo. Somos salvos pela graça, mediante a fé em Cristo, e não pelas obras; mas essa fé é aquela “que opera por meio do amor” (Gálatas 5:6, Bíblia Livre).

Segundo, o mandamento do amor vivido na prática. O amor fraterno não era uma ideia poética, mas um dever diário de socorrer os necessitados, perdoar ofensas, consolar os aflitos e renunciar expressamente à vingança pessoal.

Terceiro, a comunidade dos crentes e a disciplina fraterna. A igreja não era um templo suntuoso nem a população inteira de uma cidade protegida por guardas armados. A igreja era a comunhão concreta dos santos reunidos em casas, celeiros ou cavernas. A disciplina eclesiástica, com a aplicação do banimento espiritual como último recurso para corrigir quem se desviava, servia para preservar a pureza do testemunho cristão sem jamais recorrer à prisão ou à violência do Estado.

Quarto, a generosidade e a partilha de bens. Eles entendiam que o discípulo de Cristo não podia viver escravizado pela ganância. Embora a maioria reconhecesse a legitimidade da propriedade privada, todos colocavam seus bens materiais à disposição para socorrer qualquer irmão em necessidade. Grupos específicos, como os huteritas, levaram essa convicção ao extremo, criando colônias agrícolas de completa comunhão de bens, onde nada pertencia a um indivíduo isolado.

Quinto, o batismo como aliança de arrependimento. Sendo reservado estritamente para quem compreendia o evangelho, o batismo representava uma aliança voluntária de morrer para o mundo e viver sob o senhorio de Cristo, aceitando a instrução e a correção dos irmãos de fé.

Sexto, a defesa pioneira da liberdade de consciência. Numa época em que príncipes queimavam hereges vivos por divergências litúrgicas, os anabatistas foram das primeiras vozes a proclamar que a fé não pode ser imposta pela força da espada e que o Estado não tem competência para ditar o que a consciência de um indivíduo deve crer diante de Deus.

Sétimo, a autoridade das Escrituras interpretadas na comunidade. Embora considerassem a Bíblia como regra máxima de fé e prática, eles davam um peso especial aos ensinamentos éticos e ao modelo de vida de Jesus, especialmente o Sermão do Monte, lido e aplicado comunitariamente sob a iluminação do Espírito Santo.

Oitavo, a dessacralização de lugares e ritos. Rompendo com o cerimonial do catolicismo e até com certas solenidades luteranas, eles rejeitavam a ideia de templos sagrados, vestes clericais pomposas e relíquias. Reuniam-se em qualquer lugar simples, celebravam a Ceia com pão e vinho comuns e afirmavam que a verdadeira santidade habita no coração transformado, não em objetos de madeira ou pedra.

Nono, a recusa categórica da espada e dos juramentos civis. Baseando-se nas palavras de Jesus sobre não jurar e amar os inimigos (Mateus 5:34 e 44), os anabatistas se recusavam a pegar em armas para lutar nas guerras dos governantes, a fazer juramentos cívicos e a ocupar cargos de magistratura que exigissem a aplicação da pena de morte. Foi esse pacifismo irredutível que os tornou alvos preferenciais de suspeita política, e muitos foram rotulados, injustamente, de anarquistas perigosos para a nação.

Décimo, a teologia do martírio e da igreja sofredora. Para eles, sofrer perseguição fazia parte do custo do discipulado autêntico. Esperavam ser odiados pelo mundo, como Cristo foi (João 15:18-20). O famoso livro O Espelho dos Mártires registrou milhares de relatos de homens e mulheres anabatistas afogados nos rios da Suíça, queimados na fogueira na Alemanha ou degolados nos Países Baixos, cantando salmos e perdoando seus executores até o último suspiro.

Apesar de quase terem sido varridos do mapa pelas perseguições implacáveis tanto da Inquisição católica quanto dos tribunais protestantes, os anabatistas deixaram marcas profundas que moldaram o mundo moderno. Princípios que hoje tratamos como patrimônio comum da civilização cristã ocidental — a nítida separação entre Igreja e Estado, o fim da coerção civil sobre a fé religiosa, o batismo por convicção pessoal e o compromisso comunitário com a paz — foram pagos com o sangue desses crentes anônimos que se recusaram a negociar o Sermão do Monte em troca da segurança política.

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