AssineApoie

HistóriaReforma Protestante47 de 59

Calvino e o medo de reis com poder absoluto

Por que Calvino tinha medo de reis com poder absoluto

Diego Gonçalvesatualizado 3 min de leitura531 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Se você perguntar a qualquer estudante de história sobre João Calvino, a primeira imagem que costuma vir à cabeça é a de um teocrata severo governando Genebra com mão de ferro. A caricatura é antiga e fácil de vender, mas esconde um fato histórico fascinante: a democracia representativa moderna e o sistema de freios e contrapesos devem muito mais à teologia reformada do que a maior parte das pessoas imagina.

A chave para entender isso é simples: Calvino desconfiava profundamente do coração humano.

Retrato de João Calvino, de perfil e com barba, vestido de preto, pintura do século 16
Anônimo, Retrato de João Calvino, c. 1550. Museu Catharijneconvent, Utrecht. Domínio público, via Wikimedia Commons.

No século 16, a Europa caminhava a passos largos para o absolutismo. Monarcas diziam governar por direito divino e acumulavam poder sem prestar contas a ninguém. A regra do jogo era a cartilha de Maquiavel: a vontade do governante estava acima de qualquer lei.

Calvino, que antes de ser teólogo havia estudado direito na França, olhava esse cenário com muito ceticismo. A Bíblia ensina com clareza que todo ser humano é marcado pelo pecado: “todos pecaram, e estão destituídos da glória de Deus” (Romanos 3:23, Bíblia Livre). Quando alguém compreende a fragilidade moral humana, a última coisa que vai querer é pôr poder ilimitado nas mãos de uma única pessoa ou de um pequeno grupo de elite.

Para ele, a melhor forma de governo não era a monarquia absoluta nem a tirania das massas, mas um modelo em que o poder fosse compartilhado e fiscalizado por conselhos eleitos. O raciocínio era bem prático: como os homens são falhos e inclinados ao abuso, é muito mais seguro ter vários magistrados que se vigiem mutuamente e protejam a liberdade do povo.

Essa visão foi aplicada primeiro dentro da própria igreja. Em vez de uma hierarquia piramidal, com um papa ou bispos vitalícios no topo mandando em todos, as igrejas reformadas organizaram o sistema presbiteriano, em que líderes e pastores eram escolhidos pela congregação e governavam juntos, em colegiado.

O passo seguinte foi natural. Quando as pessoas aprendem a escolher seus líderes na igreja e veem decisões tomadas por consenso e com prestação de contas, deixam de aceitar reis autoritários mandando em sua vida civil. As ideias de Genebra cruzaram fronteiras, alimentaram a resistência contra tiranos na França e na Escócia, influenciaram a república na Holanda e, mais tarde, deixaram marcas na formação da constituição dos Estados Unidos.

A grande lição dessa história é urgente para os nossos dias. Temos uma mania perigosa de procurar salvadores da pátria, figuras messiânicas que prometem resolver todos os problemas se receberem carta branca para mandar. Só que a sabedoria bíblica e a história ensinam o exato contrário: nenhum ser humano é bom o bastante para ter poder absoluto sobre os outros. Governos justos não nascem da ilusão de governantes perfeitos, mas de leis firmes e de instituições que limitem as ambições humanas.