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HistóriaReforma Protestante101 de 121

Reforma Inglesa e o conflito de Isabel I pela igreja

A Briga pela Alma da Igreja na Inglaterra

Diego Gonçalves4 min de leitura735 palavras

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Quando a rainha Isabel I estabeleceu o acordo religioso que consolidou a Igreja da Inglaterra na segunda metade do século XVI, ela acreditava ter encontrado a fórmula da paz social: uma teologia da salvação protestante, que os Trinta e Nove Artigos de 1563 resumem na justificação pela fé, revestida de uma liturgia solene com bispos, vestes cerimoniais e catedrais preservadas do passado medieval. Essa conciliação política, porém, desagradou profundamente a ala mais fervorosa dos cristãos ingleses: os homens e mulheres que a história batizou com o nome de puritanos.

O termo “puritano” nasceu como um apelido pejorativo usado pelos nobres da corte para zombar daqueles pastores e leigos que pareciam exigentes demais, obcecados em “purificar” a igreja de qualquer resquício de tradição papal. A maioria desses crentes havia passado os anos de terror sob o reinado de Maria Sanguinária no exílio, em Genebra, na Suíça, e em Frankfurt, na Alemanha. No continente europeu, eles conviveram com João Calvino e Henrique Bullinger, assistindo a cultos simples, despojados de velas e altares pomposos, centrados quase só na pregação expositiva da Bíblia.

Retrato de Isabel I da Inglaterra, de vestido ricamente bordado, com a esquadra naval ao fundo
Escola inglesa (atribuído a George Gower), Retrato da Armada de Isabel I, c. 1588. Museus Reais de Greenwich, Londres. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Quando voltaram para a Inglaterra com a coroação de Isabel, esses crentes ficaram chocados. Eles olhavam para a nova Igreja Anglicana e viam uma reforma incompleta. Para a mentalidade puritana, a Bíblia era a regra suficiente e exclusiva para regular não apenas o caminho da salvação pessoal, mas também o modo exato como a igreja deve cultuar a Deus (sola Scriptura aplicada ao culto). Tudo aquilo que as Escrituras não ordenavam expressamente no culto deveria ser sumariamente banido como invenção humana perigosa.

A briga começou em torno de questões aparentemente pequenas, mas que carregavam um peso teológico imenso para a época. Os puritanos se recusavam a usar a sobrepeliz — a túnica branca de linho tradicional dos sacerdotes —, argumentando que aquela roupa perpetuava a ilusão de uma casta clerical com poderes mágicos diante de Deus. Eles também contestavam a obrigatoriedade de se ajoelhar para receber o pão e o vinho na Ceia do Senhor, vendo no gesto uma sobrevivência da adoração idólatra da hóstia; protestavam contra o uso de alianças nas cerimônias de casamento e contra o sinal da cruz traçado na testa dos bebês no batismo.

A coroa inglesa respondeu com mão de ferro. Os monarcas Stuart, Tiago I e depois seu filho Carlos I, viam na insubmissão litúrgica dos puritanos uma ameaça direta à autoridade do trono. Como dizia o rei Tiago: “Sem bispos, não há rei”. Pastores puritanos que se recusavam a usar as vestes e a ler o Livro de Oração Comum foram suspensos de seus púlpitos, multados pesadamente e lançados em prisões insalubres.

Essa repressão implacável gerou duas reações históricas que mudaram a geografia do mundo. Uma parte dos puritanos mais radicais, os chamados separatistas, concluiu que a Igreja da Inglaterra era irrecuperável e decidiu romper definitivamente com ela, embarcando no navio Mayflower em 1620 para fundar as primeiras colônias na América do Norte em busca de liberdade religiosa.

A outra parte permaneceu na Inglaterra lutando por reformas internas até que a tensão chegou ao ponto de ruptura na década de 1640, culminando na Guerra Civil Inglesa. Liderados por Oliver Cromwell, os puritanos derrotaram o exército real, decapitaram o rei Carlos I, aboliram temporariamente a monarquia e o episcopado e convocaram a famosa Assembleia de Westminster, que redigiu a Confissão de Fé e os Catecismos que se tornaram o padrão doutrinário do presbiterianismo mundial.

A vitória militar durou pouco e a monarquia foi restaurada em 1660 com a volta dos bispos e da liturgia anglicana tradicional, empurrando os puritanos para fora da igreja oficial através do Grande Despejo de 1662. Mas a teologia e a espiritualidade que eles produziram no calor daquela perseguição — centrada na leitura diária da Bíblia no lar, na integridade moral nos negócios, na disciplina pessoal e na santificação do dia do Senhor — continuam falando à consciência de qualquer cristão que se recusa a negociar as convicções da Palavra por conveniência política.

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