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Lutero e a Ceia: a presença real de Cristo no pão
O que Martinho Lutero realmente ensinava sobre a Ceia
Em 1529, os líderes da Reforma Protestante se reuniram no Castelo de Marburgo, na Alemanha, para tentar formar uma frente unida contra as ameaças do Sacro Império Romano e do papa. O encontro reuniu Martinho Lutero e o reformador suíço Ulrico Zuínglio. Os dois concordaram em quase todos os pontos fundamentais da fé: a justificação pela fé, a autoridade da Bíblia, o sacerdócio de todos os crentes e a rejeição do purgatório. Mas, quando sentaram para discutir a Santa Ceia, o acordo travou de vez. Lutero pegou um pedaço de giz, escreveu na mesa a frase latina Hoc est corpus meum (“Isto é o meu corpo”) e não arredou o pé: dali ele não sairia.
Para entender o que Lutero ensinava sobre a Ceia, é preciso ver que ele lutava em duas frentes ao mesmo tempo.
De um lado, Lutero rejeitava a transubstanciação defendida pela Igreja Católica Romana, a ideia, tomada da filosofia de Aristóteles, de que o pão e o vinho deixam de existir como substâncias e só restam as aparências. Para ele, o pão continuava sendo pão de verdade, colhido no campo e assado no forno, e o vinho continuava sendo vinho.
Do outro lado, Lutero temia o simbolismo de Zuínglio, que ensinava que a mesa era apenas uma lembrança, um memorial do que Cristo fez. Quando Jesus disse aos discípulos: “Tomai, comei; isto é o meu corpo” (Mateus 26:26, Bíblia Livre), Lutero queria que o verbo “ser” fosse levado a sério, no sentido literal. Ele não aceitava diluir a frase em “isto significa o meu corpo”.
A resposta de Lutero ficou conhecida como união sacramental. Muitos a chamam de consubstanciação, nome que os próprios luteranos rejeitam, porque sugere uma mistura entre o corpo e o pão. Lutero dizia que, quando as palavras de Cristo são proclamadas, o corpo e o sangue reais e glorificados do Salvador estão verdadeiramente presentes “em, com e sob” o pão e o vinho. Não há transformação dos elementos. Assim como um ferro em brasa continua sendo ferro ao mesmo tempo em que está todo penetrado pelo calor do fogo, o pão continua sendo pão enquanto carrega a presença real de Cristo.
Para sustentar essa posição diante dos críticos, Lutero recorreu à comunicação de atributos (communicatio idiomatum), a doutrina de que as propriedades das duas naturezas de Cristo, a divina e a humana, pertencem à mesma pessoa. Ele argumentava que, depois da ressurreição e da ascensão, a natureza humana de Jesus, unida à divina, participa da onipresença. Por isso o corpo de Cristo não está preso a um canto do céu e pode se fazer presente em todas as mesas de comunhão onde a sua Palavra é anunciada.
Outro traço da visão luterana é a convicção de que a presença de Jesus na mesa não depende da piedade nem do sentimento de quem comunga. A presença é objetiva, amarrada à promessa do Senhor. Por isso Lutero ensinava que até quem participa da Ceia sem fé recebe o corpo e o sangue do Senhor, não para a salvação, mas para o seu próprio juízo (1 Coríntios 11:27-29).
Outros herdeiros da Reforma foram por outro caminho. Calvino também falava em presença real, mas espiritual: Cristo está presente pelo Espírito Santo, e o crente o recebe pela fé, enquanto o corpo glorificado permanece no céu. Na tradição wesleyana, a Ceia é um meio de graça em que o Senhor ressuscitado se faz presente ao seu povo pelo Espírito, sem que o pão e o vinho deixem de ser pão e vinho.
Para Lutero, a Ceia do Senhor nunca foi um símbolo vago da nossa lembrança, mas um abraço concreto do próprio Cristo, que desce à nossa fraqueza em elementos simples da terra para dizer ao coração do pecador aflito: “Isto é dado por você, para o perdão dos seus pecados”.
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