AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

TeologiaReforma Protestante124 de 130

Católicos e anglicanos: a autoridade do papa em questão

Católicos e anglicanos: O que está em jogo na autoridade do papa?

Diego Gonçalves5 min de leitura1.081 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste texto

Quem entra pela primeira vez numa catedral anglicana tradicional pode pensar que entrou numa igreja católica romana por engano. O altar está lá, os vitrais coloridos estão lá, o sacerdote veste batina e casula, há o cheiro suave de incenso, o sinal da cruz, a recitação dos credos históricos e a celebração da Eucaristia com solenidade litúrgica.

Tanto os católicos romanos quanto os anglicanos prezam a herança dos primeiros séculos, reconhecem os três ofícios tradicionais da igreja (bispos, presbíteros e diáconos) e afirmam a continuidade histórica da fé apostólica.

Retrato de Henrique VIII da Inglaterra, de chapéu com pluma, pintado por Holbein
Hans Holbein, o Jovem, Retrato de Henrique VIII da Inglaterra, c. 1537. Museu Thyssen-Bornemisza, Madri. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Há, porém, uma fronteira que separa as duas tradições desde o século XVI: a figura e a autoridade jurídica do Bispo de Roma, o papa.

A origem da ruptura: o século XVI e a autonomia nacional

Para a Igreja Católica Romana, a autoridade papal não é uma invenção administrativa tardia, mas o desdobramento direto da promessa de Jesus a Pedro em Mateus 16:18-19, quando Cristo diz a Pedro:

“E eu também te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja; e as portas do Xeol não prevalecerão contra ela. A ti darei as chaves do Reino dos céus; e tudo o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e tudo o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.”

(Mateus 16:18-19, Bíblia Livre)

Roma consolidou ao longo dos séculos a convicção de que o Bispo de Roma é o legítimo sucessor de Pedro na sé apostólica, ocupando o papel de pastor supremo e visível de toda a cristandade na terra.

A Igreja da Inglaterra (o berço do Anglicanismo) trilhou outro caminho. Embora a separação tenha ganhado força pública no turbulento divórcio do rei Henrique VIII, que desejava anular seu casamento com Catarina de Aragão, o movimento reformador liderado pelo arcebispo Thomas Cranmer tinha raízes teológicas bem mais fundas, entre elas o princípio de que a Escritura é a autoridade suprema da Igreja (sola Scriptura).

Em 1534, o Parlamento inglês aprovou o Ato de Supremacia, declarando que o monarca era o único chefe supremo terreno da Igreja na Inglaterra. O argumento dos reformadores ingleses era que o bispo de Roma não possuía qualquer jurisdição divina sobre os cristãos britânicos. Eles afirmavam que as igrejas nacionais e regionais dos primeiros séculos do cristianismo eram governadas por seus próprios concílios e bispos locais, sem que o patriarca de Roma desse a palavra final sobre todas as dioceses do mundo. Os Trinta e Nove Artigos, de 1563, resumem a posição: “O bispo de Roma não tem jurisdição neste reino da Inglaterra” (Artigo 37, em tradução livre). Os reformadores em geral também liam Mateus 16 de outro modo: a rocha seria a confissão de Pedro, “Tu és o Cristo”, e não a pessoa de Pedro e seus sucessores, pois o único fundamento da Igreja é Jesus Cristo (1 Coríntios 3:11).

Primazia universal e infalibilidade versus sinodalidade e colegiado

O contraste doutrinário em relação à autoridade papal envolve duas posições:

  1. A posição católica (primazia de jurisdição e infalibilidade): No catolicismo, a autoridade do papa é plena, suprema, imediata e universal. O papa não é apenas uma figura de honra; ele tem poder jurídico real para nomear ou destituir bispos em qualquer país do planeta e estabelecer diretrizes doutrinárias vinculantes para todos os fiéis. Além disso, o Concílio Vaticano I (1870) definiu o dogma da infalibilidade papal: quando o papa fala ex cathedra (a partir da cátedra de Pedro), definindo oficialmente uma doutrina de fé ou moral a ser crida por toda a Igreja, ele é preservado de erro pelo Espírito Santo.
  2. A posição anglicana (bispos em sinodalidade e primus inter pares): O anglicanismo rejeita tanto a jurisdição universal de Roma quanto a infalibilidade papal. Os anglicanos mantêm o governo por bispos (episcopado histórico), mas a autoridade funciona de forma conciliar e descentralizada. Não existe um “papa anglicano”. O Arcebispo de Canterbury, na Inglaterra, é considerado apenas o primus inter pares (o primeiro entre iguais). Ele é o líder espiritual e o símbolo de comunhão das dioceses anglicanas ao redor do mundo, mas não tem poder jurídico para ditar ordens, intervir em igrejas de outros países ou definir dogmas sozinho. Cada província nacional (como a Igreja Episcopal nos Estados Unidos ou a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil) é administrativamente autônoma.

Unidade centralizada versus diversidade com tensões

Essas duas formas de enxergar a liderança moldaram o cotidiano de cada igreja:

  • No catolicismo romano: a figura papal garante uma unidade notável de doutrina e disciplina em escala global. Quando o Vaticano publica uma encíclica social, uma decisão do magistério ou uma instrução litúrgica, aquele documento serve de guia para uma paróquia em Roma, em Salvador ou em Tóquio. Essa centralização protege a igreja contra desvios rápidos de rota, mas também gera uma máquina institucional pesada e rígida.
  • No anglicanismo: a estrutura descentralizada e a tradição da Via Media (um caminho do meio entre a herança católica litúrgica e a herança teológica da Reforma) abrem espaço para grande flexibilidade pastoral e diversidade cultural. As decisões sobre doutrina e liturgia são tomadas em sínodos formados por bispos, clérigos e leigos. No entanto, essa autonomia regional gera tensões internas frequentes, como nos debates contemporâneos sobre a ordenação de mulheres ao episcopado e as questões de moralidade sexual, onde diferentes províncias anglicanas adotam posições opostas.

O significado do debate

A diferença entre católicos e anglicanos em torno do papa nos ajuda a pensar sobre como a igreja de Cristo deve ser conduzida.

O debate não é sobre ter ou não ter líderes, mas sobre como essa liderança é exercida. Roma nos lembra do valor histórico de manter a unidade visível e clara da fé em meio a um mundo em constante fragmentação. O anglicanismo nos lembra do cuidado de não concentrar poder excessivo em um único homem, resgatando a sabedoria da escuta mútua, da sinodalidade e da responsabilidade compartilhada entre pastores e leigos. Ambas as tradições mostram que o maior desafio da liderança cristã é manter a fidelidade ao Evangelho sem esquecer que o único verdadeiro Cabeça da Igreja continua sendo Jesus Cristo.

140pal/min