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HistóriaReforma Protestante56 de 121

Anabatistas: A verdadeira fé cristã e o discipulado

A fé que se vive com os pés: O que os anabatistas ensinaram sobre o discipulado

Diego Gonçalves3 min de leitura674 palavras

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Quando estudamos os livros tradicionais sobre a Reforma do século XVI, os holofotes costumam ficar em cima dos grandes reformadores que tinham o apoio de reis e príncipes, como Martinho Lutero na Alemanha e João Calvino na Suíça. Enquanto esses teólogos reorganizavam as igrejas oficiais das cidades, porém, um grupo muito mais radical e perseguido pagava com o próprio sangue por levar a sério as palavras do Sermão da Montanha (Mateus 5–7): os anabatistas.

Para os anabatistas, cujo nome começou como um apelido pejorativo dado pelos inimigos para dizer “aqueles que rebatizam”, a Reforma iniciada por Lutero e Zuínglio tinha parado no meio do caminho. Eles concordavam que a salvação é um presente da graça de Deus, recebido pela fé, mas achavam que os outros protestantes tinham criado uma ortodoxia cômoda demais: a pessoa decorava o catecismo, afirmava a doutrina certa com a cabeça, batizava o bebê na igreja da cidade e continuava vivendo exatamente como antes.

Gravura de Jan Luyken do anabatista Dirk Willems, que volta para salvar de afogamento o guarda que o perseguia, num lago congelado
Jan Luyken, Dirk Willems salva seu perseguidor, gravura para O Espelho dos Mártires, 1685. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O líder anabatista Hans Denck resumiu o problema numa frase que atravessou os séculos: “Ninguém pode verdadeiramente conhecer a Cristo a menos que o siga na vida cotidiana”.

Para eles, a fé genuína nunca foi apenas um assentimento intelectual: era o discipulado prático, o seguimento dos passos de Jesus no chão da vida. Essa visão se desdobrava em três convicções que não negociavam.

A primeira era o batismo de crentes conscientes. Para a mentalidade medieval e até para os primeiros reformadores, batizar bebês era a cola que mantinha a sociedade unida: ao ser batizada, a criança virava membro da igreja e cidadã do Estado ao mesmo tempo. Os anabatistas romperam com isso. Eles abriram o Novo Testamento e não encontraram nenhum batismo de recém-nascidos. Para eles, o batismo é um compromisso voluntário de um adulto que se arrependeu, professou a fé em Cristo e decidiu viver debaixo do senhorio de Jesus numa comunidade local.

A segunda era a separação radical entre Igreja e Estado. Eles diziam que o reino de Deus opera por uma lógica oposta à dos reinos do mundo. Por isso recusavam-se a prestar juramentos cívicos e, principalmente, a pegar em armas ou ir para a guerra. Acreditavam que um discípulo de Jesus não tem autorização para matar ninguém, nem mesmo em nome da pátria: se Jesus mandou amar os inimigos e orar pelos perseguidores (Mateus 5:44), a espada não tem lugar nas mãos de um cristão.

A terceira convicção era a vida comunitária de amor prático. A igreja não era um prédio de pedra sagrado nem uma repartição pública; era a reunião de irmãos que repartiam o pão nas casas, cuidavam das viúvas, dividiam recursos com os mais pobres e praticavam a disciplina mútua com amor para restaurar quem caía em pecado.

Essa postura radical enfureceu tanto as autoridades católicas quanto as protestantes. Os governantes viam o pacifismo e a recusa aos juramentos como uma ameaça à ordem pública. O resultado foi uma das perseguições mais brutais da história cristã. Milhares de homens e mulheres anabatistas foram decapitados, queimados em praças públicas ou jogados em rios com pedras amarradas ao pescoço, uma paródia cruel que os juízes chamavam de “o terceiro batismo”. A memória dessa fidelidade heroica foi registrada no clássico O Espelho dos Mártires.

Os anabatistas deixaram um legado que interpela a igreja contemporânea. Eles nos lembram de que a fé cristã não é uma teoria para ser debatida em congressos nem um verniz social que nos deixa confortáveis, mas a coragem de andar com os próprios pés no caminho estreito de Cristo (Mateus 7:13-14), mesmo quando a cultura ao redor exige conformismo.

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