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Lutero e o Natal: o escândalo da encarnação
O Natal de Lutero e o escândalo da encarnação
A memória que a maioria dos protestantes guarda de Martinho Lutero é a de um homem de ferro: o monge obstinado que desafiou o papa, encarou o imperador em Worms, traduziu a Bíblia trancado em um castelo e empregou uma retórica pesada e cortante contra os seus adversários. Esse Lutero existiu e teve papel decisivo na história.
Os sermões natalinos de Lutero, porém, revelam uma faceta que poucos evangélicos de hoje conhecem. Sempre que subia ao púlpito em Wittenberg para falar sobre o nascimento de Jesus, o reformador alemão falava com ternura desconcertante, descrevendo os detalhes mais simples e vulneráveis daquela noite em Belém.
Essa insistência na fragilidade do presépio não era sentimentalismo de fim de ano. Era uma batalha teológica pela plena humanidade de Jesus Cristo.
A luta oculta contra o docetismo
Desde os primeiros séculos, a Igreja enfrentou a heresia do docetismo, termo que vem do grego dokein, “parecer” ou “aparentar”. Os docetistas julgavam a matéria física indigna de Deus. Para eles, o Filho de Deus não havia assumido de fato um corpo humano de carne, osso e sangue; apenas parecia homem, como uma espécie de fantasma divino que pairava sobre a terra sem nunca sujar os pés no pó do mundo. O apóstolo João já respondia a esse erro: “E aquela Palavra se fez carne, e habitou entre nós” (João 1:14, Bíblia Livre).
Lutero percebeu, com agudeza pastoral, que o docetismo, embora condenado nos grandes concílios da Antiguidade, continuava vivo na piedade popular do seu tempo. Tendia-se a fazer de Jesus uma figura etérea e inacessível, e de Maria uma estátua de mármore, impassível e sem os sentimentos humanos normais.
Para o reformador, quando Maria virava pedra, a encarnação virava farsa. E, se a encarnação fosse farsa, a cruz não teria redimido a nossa humanidade de verdade: só um Salvador que assumiu a nossa carne pode morrer em lugar de carne pecadora. Por isso a carta aos Hebreus nos lembra que temos um Sumo Sacerdote “provado em tudo, conforme a nossa semelhança, porém sem pecado” (Hebreus 4:15, Bíblia Livre).
O Deus que chora e precisa de leite
Por isso Lutero insistia em pregar sobre a realidade crua do curral de Belém. Lembrava à congregação que Maria era uma jovem simples de Nazaré, de apenas quinze ou dezesseis anos, que deu à luz em pleno inverno, sem parteira, sem água quente, sem aquecimento e sem o conforto de uma casa de família.
Lutero dizia aos seus ouvintes: “Não façam de Maria uma pedra. Seus olhos estavam úmidos de choro e cansaço, embora ela soubesse que aquele bebê era o Filho de Deus”. E sobre o menino Jesus, o reformador falava sem rodeios: “Aquele bebê não era uma ilusão mágica; Ele tinha carne real, sangue real, braços e pernas de verdade. Ele dormia no colo, sentia frio, chorava com fome e fazia tudo o que qualquer bebê faz, apenas sem pecado”.
Para Lutero, o grande milagre do Natal não é Deus mostrar poder nos céus, mas o Deus Todo-Poderoso se apequenar a ponto de caber em uma manjedoura e depender do leite de uma mulher para não morrer de fome.
A proximidade da graça
Essa teologia do Natal atinge o centro da nossa fé. Temos o vício de buscar a Deus apenas nas alturas da glória, na força política, nos grandes espetáculos e no sucesso visível. Esperamos um Deus triunfante que esmague as nossas fraquezas com poder bruto.
No presépio de Belém, Deus desmente as nossas expectativas de grandeza humana. Ele vem ao nosso encontro na fraqueza mais desarmada possível e desce até a nossa miséria, para que ninguém tenha medo de se aproximar dEle.
O Lutero que chorava diante do presépio compreendeu a verdade mais consoladora do Evangelho: na manjedoura fria de Belém, o Criador do universo não veio nos julgar de longe. Fez-se nosso irmão de sangue para nos abraçar na nossa própria carne e nos levar de volta aos braços do Pai.
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