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HistóriaReforma Protestante91 de 128

Conversão de John Knox, o reformador da Escócia

A Conversão de John Knox

Diego Gonçalvesatualizado 5 min de leitura938 palavras

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Neste texto

John Knox foi a figura central da Reforma na Escócia, e o ministério dele moldou a identidade espiritual do país por séculos. Só que, antes de enfrentar monarcas no palácio de Holyrood e pregar com autoridade de profeta na Catedral de St. Giles, Knox era um sacerdote discreto e tabelião apostólico (quer dizer, quem reconhece e registra documentos da Igreja) nos arredores de Edimburgo. Vivia da burocracia dos registros eclesiásticos.

Retrato pintado de John Knox, de barba longa e touca escura, em trajes de pregador
Segundo Adrian Vanson, Retrato de John Knox, cópia de retrato do século XVI. Universidade de St Andrews. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Knox nasceu por volta de 1514, perto de Haddington, e foi ordenado sacerdote católico em 1536. Nessa época, a Igreja na Escócia estava em profunda degradação moral: boa parte do clero era analfabeta e vivia acumulando benefícios feudais.

A Espada de Wishart e o Despertar

A virada na vida de Knox começou pelo contato com os primeiros reformadores escoceses. Ele acompanhou de longe o impacto da morte de Patrick Hamilton, queimado vivo em 1528 por ensinar a justificação pela fé. Anos depois, conheceu pessoalmente o erudito George Wishart, cuja pregação das doutrinas da graça tomou conta das cidades escocesas.

Fascinado pela clareza bíblica de Wishart, Knox virou discípulo e protetor dele. Forte e corajoso, o jovem sacerdote passou a acompanhar o pregador itinerante com uma espada pesada, de duas mãos, pronto para defender ele de emboscadas dos homens do cardeal David Beaton.

Em janeiro de 1546, quando percebeu que ia ser preso, Wishart mandou Knox entregar a espada e voltar para o trabalho de professor com os alunos. Disse com calma: “Volte para os seus rapazes; um homem é suficiente para o sacrifício”. Wishart foi capturado e queimado na fogueira diante do castelo de St. Andrews poucas semanas depois.

A morte serena do mestre marcou a conversão definitiva de Knox. Ele rompeu de vez com o sacerdócio papal e abraçou o Evangelho de Cristo. Mais tarde, Knox declarou que foi no capítulo 17 do Evangelho de João que ele “lançou a primeira âncora” da sua alma: a certeza do sacerdócio perfeito de Cristo e da vida eterna que o Pai dá de graça a quem crê no Filho. Era a descoberta de que a salvação é dom de Deus, recebido pela fé somente em Cristo, e não conquista de sacerdotes nem de ritos (sola gratia, sola fide, solus Christus).

O Pregador das Galés

A congregação cercada no castelo de St. Andrews chamou Knox para assumir o púlpito. Ele resistiu até chorar, sabendo do peso que era pregar. Quando finalmente subiu, expôs as profecias de Daniel com uma clareza que deixou os ouvintes espantados.

Depois disso vieram anos de sofrimento. Capturado por tropas francesas, Knox foi condenado a dezenove meses de trabalhos forçados, acorrentado como remador nas galés da marinha francesa, aguentando espancamentos, febres e frio. Sobreviveu ao cativeiro e voltou à Grã-Bretanha com a convicção ainda mais firme de que o destino das nações depende da fidelidade à Palavra de Deus.

A tradição atribui a ele algumas frases que viraram lemas da causa da liberdade cristã. Nem todas têm fonte segura nos escritos de Knox, mas resumem bem o homem:

“Quando o coração se sente perdido e dolorido, ele se alegra com as próprias sílabas da Escritura.”

“Nunca temo o diabo, mas tremo toda vez que entro no púlpito.”

“Um homem com Deus é sempre a maioria.”

“Não sou senhor de mim mesmo, mas servo dAquele que me ordena a falar claramente e a não lisonjear ninguém sobre a face da terra.”

O Confronto com a Coroa

Quando voltou à Escócia, em 1559, Knox liderou a adoção da Confissão de Fé Escocesa e a organização da Igreja Reformada da Escócia (a Kirk). Enfrentou cara a cara a rainha Mary Stuart, em audiências famosas no palácio real. A rainha tentou intimidar ele, dizendo que os súditos deviam obedecer cegamente à religião dos príncipes. Knox respondeu que a consciência pertence a Deus e que os governantes estão debaixo da autoridade das Escrituras. Conta a tradição que a própria rainha confessava temer mais as orações de John Knox do que um exército de dez mil soldados em armas.

Knox morreu em Edimburgo, em novembro de 1572, e foi sepultado no cemitério de St. Giles, na Royal Mile. Diante da cova aberta, o regente da Escócia, lorde Morton, resumiu a vida dele numa única frase, que ficou na história: “Aqui jaz um homem que nunca temeu a face de homem algum”.

Uma observação sobre a tradição de Knox.

Knox viveu em Genebra, ao lado de João Calvino, e foi um dos autores da Confissão de Fé Escocesa. Quando o texto fala em “doutrinas da graça”, usa uma expressão da tradição reformada, a tradição de Knox, que ensina que a salvação nasce da iniciativa soberana de Deus, que elege e conduz o pecador de ponta a ponta. A Confissão que Knox ajudou a redigir traz essa doutrina da eleição por escrito. Cristãos de outras tradições, como a wesleyana, também confessam que a salvação é só pela graça e entendem de outro jeito como a graça de Deus e a resposta da pessoa agem juntas. As duas tradições caminham lado a lado na fé em Cristo, na autoridade das Escrituras e na justificação pela fé, e a coragem de Knox diante dos poderosos é admirada por cristãos de todas elas.

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