
TeologiaArminianismo8 de 22
Presciência, Eleição e Predestinação (Parte 1)
Neste texto
- Presciência
- Presciência no Calvinismo
- Presciência no Arminianismo
- Predestinação
- De acordo com o Plano de Deus
- A Crucificação de Jesus
- O Mistério da Redenção
- Eleição
- Três Sentidos de Eleição
- Visões Contrastantes da Eleição
- Eleição Individual e Eleição Corporativa
- A Parábola do Banquete de Casamento
- Resumo
- Para Estudar em Grupo
- Sobre as fontes
Um dos desafios ao estudar teologia é a terminologia. Por exemplo, as três palavras no título deste post. Presciência, eleição e predestinação são todas palavras bíblicas, mas nem todos as interpretam da mesma maneira.
Isso é particularmente verdadeiro no debate entre Arminianismo e Calvinismo. Ambos os lados acreditam na presciência, eleição e predestinação, mas eles significam algo bem diferente quando usam esses termos. Este post é escrito principalmente para descrever como um arminiano os usaria. Mas também irá contrastar esse uso com o calvinismo.
Presciência
A palavra traduzida como presciência tem formas substantivas e verbais. Segundo o “Critical Greek Lexicon” de Bullinger, o verbo “presciência” significa “conhecer, perceber, aprender ou entender de antemão, tomar nota de.” Esta palavra é usada em Romanos 8:29, “Pois aqueles que Deus conheceu de antemão, Ele também predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho.” Também em Romanos 11:2, “Deus não rejeitou o seu povo, que de antemão conheceu.”
De acordo com Bullinger, o substantivo presciência significa: “uma percepção antecipada”. Esta palavra é usada em Atos 2:23, onde Jesus “foi entregue a vocês [os judeus] pelo plano deliberado e presciência de Deus,” e em 1 Pedro 1:2, onde encontramos que fomos “escolhidos segundo a presciência de Deus Pai.”
Como vemos nas definições, ambas as variações da palavra expressam que algo é conhecido ou percebido antes de acontecer, e nas Escrituras, isso se aplica a Deus: Deus sabe de antemão o que acontecerá no futuro. Além disso, Deus não apenas sabe pouco antes de acontecer. Sua presciência do universo se estende à eternidade passada. Deus sempre soube o que acontecerá durante o curso de nossa história.
Presciência no Calvinismo
Como Deus conhece o futuro? Como Ele pode ter presciência? Muitos calvinistas diriam que Deus conhece o futuro porque Ele o decretou. Que o universo e tudo nele estão operando de acordo com o plano determinista de Deus. Para o calvinista, a presciência é baseada na predestinação.
Nos quatro versículos acima que tratam da presciência, o calvinista assume a predestinação devido à sua visão determinista; um exemplo de interpretar as Escrituras para apoiar sua teologia. Mas se você não está preso ao determinismo, então essas passagens simplesmente dizem que Deus sabia de antemão. Ele sabia o que faríamos. E Ele sabia quem viria a Ele com fé. Afinal, é isso que presciência significa: uma percepção antecipada.
Presciência no Arminianismo
O arminianismo concorda que Deus tem um plano para o universo que Ele está desenvolvendo, mas nega o determinismo. A maior falha vista no determinismo é que ele logicamente faz de Deus o autor do mal. Se tudo está acontecendo exatamente como Deus planejou, então é difícil não vê-lo como sendo responsável pelo pecado e pelo mal. Muitos calvinistas negam que Deus seja o autor do mal. Mas parece difícil evitar essa conclusão em um universo determinista.
Os arminianos acreditam que Deus conhece todo o futuro, sem causar tudo o que acontece. Existem várias explicações desenvolvidas para expressar como Deus conhece o futuro. O determinismo é uma delas. O molinismo é outra que alguns, mas não todos, arminianos aceitam. Atualmente, não consigo descrever adequadamente o molinismo. Para mim, é suficiente reconhecer que o Deus eterno e onisciente está presente em todo o tempo; nosso passado, presente e futuro são todos agora para Ele. Escrevi mais extensivamente sobre isso em um post anterior, se você estiver interessado nas minhas reflexões sobre o assunto.
John Wesley disse algo parecido no sermão Sobre a predestinação. Ele observou que, a rigor, não há em Deus presciência nem “pós-ciência”, porque toda a eternidade lhe está presente, e que a palavra fala de Deus segundo a maneira dos homens (citado por Flávyo Henrique Costa Santos no Manual de teologia arminiana, cap. 6). Ao mesmo tempo, Deus age antes da nossa fé, pela graça que liberta a vontade, e conhece de antemão quem responderá com fé, sem causar a incredulidade de ninguém. Por isso o arminianismo clássico rejeita o teísmo aberto, que nega a Deus o conhecimento das decisões livres futuras.
Predestinação
Outra palavra semelhante é proorizō. Esta é traduzida na NVI quatro vezes como predestinado, uma vez como “decidido de antemão,” e uma vez como destinado. Bullinger define esta palavra como “definir limites, decretar ou ordenar de antemão.” Esta palavra poderia facilmente ser pensada como predestinação; expressando que Deus determinou algo que acontecerá no futuro.
As duas primeiras utilizações desta palavra estão em Romanos 8:29-30; “aqueles que Deus conheceu de antemão Ele também predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho” e “aqueles que Ele predestinou, Ele também chamou.” Em ambos os usos, a predestinação é baseada na presciência de Deus. Deus escolheu fazer algo com base no que Ele conhece de antemão.
Em Efésios 1:5, Paulo diz que “em amor Ele [Deus] nos predestinou para a adoção de filiação por meio de Jesus Cristo.” Isso é semelhante ao uso em Romanos, com esta passagem descrevendo Deus como predestinando alguns para serem adotados como filhos. Em Efésios, a razão dada para a predestinação à filiação é o amor de Deus; em Romanos, é a Sua presciência. O teólogo nazareno H. Orton Wiley resumiu esse ponto num debate de 1959: “não somos predestinados para a vida ou para a morte; somos predestinados para a adoção de filhos”.
De acordo com o Plano de Deus
Esta palavra é usada novamente em Efésios 1:11, onde Paulo diz que “Nele [Cristo] também fomos escolhidos, tendo sido predestinados de acordo com o plano daquele que realiza tudo conforme o propósito da sua vontade.” Nesta passagem, a predestinação é baseada no plano de Deus. Embora esta passagem possa facilmente ser usada para apoiar o determinismo, é preciso perguntar: quão detalhado é o plano de Deus? Deus planejou tudo em detalhes minuciosos? Ou seu plano é salvar todos os que crerem? Ou algo intermediário?
Se você aceitar que o plano é em grande detalhe, então você precisa estar disposto a creditar a Deus todo o mal que acontece no mundo; algo que a maioria dos arminianos não está disposta a fazer. Acreditamos que as Escrituras indicam que a vontade de Deus é mais permissiva. Ele dá à humanidade uma liberdade real, para fazer escolhas e ser responsável por elas. E o plano de Deus é salvar todos os que crerem.
A Crucificação de Jesus
Em Atos 4:28, Pedro, falando sobre a crucificação de Jesus, diz aos outros crentes que “Eles [os judeus] fizeram o que o teu [Deus] poder e vontade tinham decidido de antemão que acontecesse.” Os líderes religiosos judeus, assim como Pilatos e Herodes, agiram para cumprir o propósito de Deus de crucificar Jesus. O que foi que Deus decidiu de antemão que acontecesse? Que Jesus fosse crucificado? Ou que judeus específicos crucificassem Jesus com Pilatos e Herodes como cúmplices?
Entendo isso como significando que o que Deus decidiu de antemão realizar foi o sacrifício expiatório de Jesus na cruz. E que Deus, em sua presciência, sabia que Pilatos, Herodes e os judeus escolheriam cumprir o propósito de Deus.
O Mistério da Redenção
Em 1 Coríntios 2:7, Paulo, falando sobre o mistério de Deus, diz à igreja de Corinto: “Não, declaramos a sabedoria de Deus, um mistério que estava oculto e que Deus destinou para a nossa glória antes do começo dos tempos.” Paulo não define explicitamente o que é o mistério que Deus tinha oculto. Mas inclui a crucificação de Jesus e seu significado para nós.
Isso se encaixa com o que Pedro diz em 1 Pedro 1:18-20, “Pois vocês sabem que não foi com coisas perecíveis como prata ou ouro que vocês foram redimidos da maneira vazia de viver que lhes foi transmitida por seus antepassados, mas com o precioso sangue de Cristo, um cordeiro sem mancha ou defeito. Ele foi escolhido antes da criação do mundo, mas foi revelado nestes últimos tempos em favor de vocês.” Cristo foi escolhido antes da criação para nos redimir; uma escolha que foi oculta, ou um mistério. Deus predestinou que Cristo fosse crucificado para nos redimir do pecado, antes da criação do mundo.
Eleição
Eleição é uma palavra frequentemente usada com predestinação, mas tem um significado distinto. O adjetivo eklektos significa ‘escolhido, preferido, selecionado’. É traduzido na NVI como escolhido doze vezes e como eleito dez vezes. O substantivo eklogē significa “uma escolha, seleção, aquilo que é escolhido”. É traduzido na NVI como escolhido três vezes, como eleição três vezes e uma vez como eleito. Geralmente, as palavras são usadas para se referir àqueles que Deus escolheu para ser seu povo; Deus elege os eleitos. Para ambos arminianos e calvinistas, Deus faz a eleição, e aqueles que Ele elege se tornam os eleitos.
O Antigo Testamento usa sobretudo o verbo hebraico bāḥar, “escolher”, e o Novo Testamento junta ao adjetivo e ao substantivo o verbo eklegomai, “escolher para si”. No artigo “Eleger” do Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento, Lothar Coenen faz três observações que ajudam muito nesta discussão. Em primeiro lugar, quem escolhe é quase sempre Deus, e a escolha não se apoia em qualidades do escolhido. Em segundo lugar, a eleição, no Antigo Testamento, visa a um serviço e só conserva o sentido quando conduz à obediência; por isso Deus pode rejeitar quem escolheu, como rejeitou Saul (1 Samuel 16:1). Por fim, no Novo Testamento eklektos aparece quase sempre no plural, para falar do povo de Deus; no singular, aplica-se a Cristo (Lucas 23:35; 1 Pedro 2:4, 6) e uma única vez a um membro da igreja, “Rufo, o escolhido no Senhor” (Romanos 16:13).
Três Sentidos de Eleição
Também ajuda perceber que a Bíblia não usa a palavra num sentido só. John Wesley e Richard Watson distinguem três. Há a eleição de pessoas para uma tarefa, como Ciro ou os doze apóstolos, que não garante a salvação de ninguém: Jesus escolheu os doze e, ainda assim, disse que um deles “é um diabo” (João 6:70). Há a eleição coletiva de um povo para os privilégios da aliança, primeiro Israel e depois a igreja. E há a eleição para a vida eterna, que Wesley declarou “condicional tanto quanto a condenação” (A predestinação calmamente considerada, 16-17). Muita confusão no debate nasce de tomar um sentido pelo outro, por exemplo quando se lê como eleição para a vida eterna um texto que trata do papel de um povo na história.
Visões Contrastantes da Eleição
A grande diferença em como arminianos e calvinistas entendem a eleição está no que o eleitor, Deus, e os eleitos, humanos, contribuem para a eleição. Os calvinistas são monergistas, acreditando que o Espírito Santo é totalmente responsável pela regeneração, incluindo a escolha de quem será regenerado. Não há esforço humano envolvido na regeneração. Nem a seleção para regeneração é baseada em qualquer coisa que a pessoa possa fazer ou escolher. Isso é geralmente conhecido como eleição incondicional: Deus decide quem crerá.
Os arminianos, por outro lado, creem que a regeneração é obra somente de Deus, mas que a graça que conduz a ela pode ser resistida. Se alguém quiser chamar isso de sinergismo, será um sinergismo evangélico, em que toda a capacidade de crer vem da graça. Os arminianos reconhecem a total incapacidade da humanidade de participar da regeneração. Mas a graça preveniente de Deus nos capacita a poder nos submeter à obra de Deus ou recusá-la. Render-se à obra do Espírito Santo não contribui em nada para ela: é deixar de resistir e receber. Por isso a eleição arminiana é chamada de eleição condicional: Deus elege, em Cristo, os que creem.
Condicional, porém, não quer dizer meritória. A fé é condição da eleição, mas não é causa dela, e muito menos mérito. O próprio Armínio ensinou que a causa da eleição é somente o beneplácito de Deus, que “exclui todas as causas” que se pudessem tirar dos homens, que Cristo é “a fundação” do decreto e que os eleitos são os fiéis, não os que creriam “pelos seus próprios méritos ou força”, mas os que, “pela bondade gratuita e peculiar de Deus, creriam em Cristo” (Disputas públicas, XV, 4, 5 e 7, em As obras de Armínio, vol. 1). A fé é condição como a mão estendida do mendigo, que recebe o pão sem pagar por ele. Assim, a eleição condicional nada tem de uma escolha dos que Deus “viu que eram bons”, nem de uma resposta de Deus a um primeiro passo humano, o que seria semipelagianismo. O primeiro passo é sempre da graça preveniente.
Eleição Individual e Eleição Corporativa
Entre os próprios arminianos, essa eleição condicional é exposta de duas maneiras. A eleição individual pela presciência, ensinada por Armínio, pelos remonstrantes, por Wesley e, hoje, por Robert Picirilli e F. Leroy Forlines, afirma que Deus escolheu desde a eternidade pessoas determinadas, conhecidas de antemão como crentes. A eleição corporativa, defendida por Robert Shank, William Klein e Brian Abasciano, afirma que Deus escolheu em Cristo um povo e que cada pessoa participa dessa eleição ao unir-se a ele pela fé. Para Shank, a eleição é “primariamente corporativa, e secundariamente particular” (Eleitos no Filho, p. 45). O Manual de teologia arminiana, de Flávyo Henrique Costa Santos, conclui que as duas só são adequadas “se tomadas em conjunto” (cap. 6), e mais à frente veremos por quê.
A Parábola do Banquete de Casamento
O que as Escrituras dizem sobre a eleição? Na maior parte, as passagens que se referem à eleição não esclarecem muito essa questão. Elas simplesmente se referem àqueles que são os eleitos de Deus. Mas há duas passagens que considero úteis para entender a eleição.
A primeira está em Mateus 22:1-14, a parábola do banquete de casamento. Nesta parábola, todos os que puderam ser encontrados foram convidados para o banquete. Muitos dos que foram convidados primeiro se recusaram a vir. Enquanto muitos dos que foram convidados depois comparecem ao banquete de casamento. E havia um que veio vestido de forma inadequada e foi expulso. No final da parábola, Jesus disse que “muitos são chamados, mas poucos são escolhidos.” O chamado foi feito a toda a população, mas só os que atenderam ao convite foram escolhidos, ou eleitos. Esta parábola apoiaria a visão arminiana da eleição. A próxima, porém, é bem mais desafiadora.
Resumo
A presciência refere-se ao conhecimento de Deus sobre o futuro, embora não implique que Deus ordene ou decrete o futuro. Ele pode vê-lo porque é onisciente. A predestinação refere-se ao ato de Deus de ordenar algo para ocorrer. Às vezes, Deus apenas vê o futuro, e em outras vezes Deus determina, ou predestina, o futuro. E a eleição refere-se à escolha de Deus de certos indivíduos para serem sua possessão especial. O povo de Deus são os eleitos.
Qual é a relação entre esses três termos, todos usados em conexão com nossa salvação? Acredito que a presciência logicamente vem primeiro. Em Romanos 8:29, Paulo diz que aqueles que Deus conheceu de antemão Ele também predestinou, implicando que a predestinação é baseada na presciência de Deus. Também acredito que a eleição se encaixa entre esses dois, que Deus elege aqueles que Ele conhece de antemão e então os predestina. Deus, em sua presciência, sabe quem responderá à graça preveniente e à sua oferta de salvação; Ele escolhe esses para serem seu povo especial; e então os predestina para serem conformes à imagem de Cristo.
A segunda passagem, Romanos 9, fica para a Parte 2 deste estudo. Ali veremos Jacó e Esaú, o oleiro e a oliveira de Romanos 11, Cristo como o Eleito, a história da doutrina, de Agostinho a Wesley, e a posição arminiana clássica e wesleyana sobre a eleição.
Para Estudar em Grupo
- O que o uso de eklektos no Novo Testamento ensina sobre quem é eleito?
- Quais são os três sentidos de eleição distinguidos por Wesley e Watson, e por que confundi-los atrapalha a leitura da Bíblia?
- Em que sentido a fé é condição da eleição sem ser causa nem mérito?
Sobre as fontes
Sou grato à Sociedade dos Arminianos Evangélicos por este esboço e vou utilizar muitos de seus recursos. Também usarei “Teologia Arminiana: Mitos e Realidades” de Roger Olson e “Cristianismo Clássico: Uma Teologia Sistemática” de Thomas Oden, os “Cinco Artigos da Remonstrância”, alguns “sermões de John Wesley” e, claro, “As Obras de Jacó Armínio” como recursos para este estudo.
As demais obras citadas ao longo do texto são estas:
- ABASCIANO, Brian J. Paul’s Use of the Old Testament in Romans 9:1-9. Londres: T&T Clark, 2005; “Corporate Election in Romans 9: A Reply to Thomas Schreiner”. Journal of the Evangelical Theological Society 49/2 (2006), p. 351-371.
- ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. 3 vols. Rio de Janeiro: CPAD, 2015 (Disputas públicas XV).
- Dicionário internacional de teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova (art. “Eleger”, de Lothar Coenen).
- FORLINES, F. Leroy. Classical Arminianism. Nashville: Randall House, 2011.
- KLEIN, William W. The New Chosen People: A Corporate View of Election. Grand Rapids: Zondervan, 1990.
- SANTOS, Flávyo Henrique Costa. Manual de teologia arminiana. São Paulo: Reflexão, 2021.
- SHANK, Robert. Eleitos no Filho. São Paulo: Reflexão, 2015.
- WATSON, Richard. Theological Institutes. Londres, 1823-1829.
- WESLEY, John. A predestinação calmamente considerada (1752); Sobre a predestinação. Em Coletânea da teologia de João Wesley. Rio de Janeiro: Imprensa Metodista, 1995.
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