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Presciência, Eleição e Predestinação (Parte 2)

Diego Gonçalvesatualizado 27 min de leitura5.280 palavras

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Neste texto

Esta é a segunda parte do estudo sobre presciência, eleição e predestinação. Na Parte 1, vimos o que as três palavras querem dizer na Bíblia, como arminianos e calvinistas as usam e por que a eleição arminiana é condicional sem ser meritória: Deus elege, em Cristo, os que creem. Terminamos com a parábola do banquete de casamento, em que “muitos são chamados, mas poucos são escolhidos”. Agora vem a passagem mais desafiadora, Romanos 9, e depois dela a oliveira de Romanos 11, Cristo como o Eleito, a história da doutrina e a posição arminiana clássica e wesleyana.

Um Desafio em Romanos

No nono capítulo de Romanos, Paulo discute a soberania de Deus na eleição. Aqui, Paulo está focado em Israel, o povo escolhido de Deus no Antigo Testamento. Nos versículos 6-9, ele aponta que ser descendente de Abraão não faz de ninguém, só por isso, parte dos eleitos de Deus. E ele deixa isso ainda mais claro nos versículos 10-13, com o exemplo de Esaú e Jacó.

10E não somente isso, mas também Rebeca, quando esteve grávida por intermédio de um só, Isaque, nosso ancestral 11(pois, como não eram ainda nascidos, não haviam feito bem ou mal, para que o propósito de Deus, segundo a escolha, continuasse; não pelas obras, mas por causa daquele que chama) 12foi dito a ela: “O mais velho servirá o mais jovem”; 13como está escrito: “Amei Jacó, mas odiei Esaú”.

(Romanos 9:10-13, Bíblia Livre)

Esta passagem pareceria apoiar a visão calvinista da eleição, especialmente se tomada isoladamente. Mas se Deus ama o mundo todo (João 3:16), não quer que ninguém pereça (2 Pedro 3:9) e quer que todos sejam salvos (1 Timóteo 2:4), então esta passagem não pode simplesmente significar que Deus escolhe incondicionalmente alguns para a salvação e outros para a reprovação. Como, então, entendê-la à luz do restante da Bíblia?

O Propósito de Deus na Eleição

Qual é o propósito de Deus na eleição? Por que Ele escolhe pessoas? 1 Pedro 2:9-10 dá pelo menos uma resposta parcial a isso.

9Mas vós sois a geração escolhida, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido; a fim de que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz. 10Antes, vós não éreis povo, mas agora sois povo de Deus. Antes, não havíeis recebido misericórdia, mas agora recebestes misericórdia.

(1 Pedro 2:9-10, Bíblia Livre)

Escolhidos para Louvar

Somos um povo escolhido, ou eleito, para que possamos anunciar os louvores daquele que nos chamou das trevas para a sua luz. Na parábola do banquete de casamento, quem eram os que louvariam o rei que os convidou? Eram aqueles que foram escolhidos. Mas eles o louvariam porque foram escolhidos? Ou foram escolhidos porque atenderam ao convite? É provável que seja o último. Os não escolhidos não se importavam em vir e provavelmente não estavam inclinados a louvar o rei.

Assim, o propósito de Deus na eleição pareceria ser formar para si, em Cristo, um povo que, alcançado pela graça, crê e O louva. Romanos 9:11-12 deixa claro que a eleição não se baseia em obras: eu não posso fazer nada para ser escolhido, e um arminiano clássico concordaria com isso. Na verdade, quando se lê a passagem como eleição para a salvação, a única discordância entre um arminiano e um calvinista sobre ela é que o arminiano não aceita que a eleição seja incondicional.

Respondendo ao Desafio de Romanos

Deus quer que todos sejam salvos, ainda que por nós mesmos sejamos incapazes de responder à sua oferta de salvação. Mas Deus nos capacita a responder, e todos os que respondem são escolhidos de acordo com o propósito de Deus para nós; o propósito de nos tornarmos a possessão especial de Deus que anunciará seus louvores. Falta entender o caso de Jacó e Esaú. Os arminianos o leem de duas maneiras, e as duas partem da pergunta que o próprio Paulo está respondendo no capítulo.

A Pergunta de Paulo em Romanos 9

Para entender o capítulo, ajuda muito prestar atenção à pergunta que o próprio Paulo está respondendo. Ele confessa “grande tristeza” (9:2) pelos israelitas que rejeitavam o Messias, e a questão do capítulo é a fidelidade de Deus: se o povo eleito rejeitou o Cristo, teria falhado a palavra de Deus? Paulo responde: “Não que a palavra de Deus tenha falhado; porque nem todos os que são de Israel são verdadeiros israelitas” (9:6). Ou seja, “não são os filhos da carne que são os filhos de Deus; mas sim os filhos da promessa que são contados como descendência” (9:8).

Segundo Armínio, Paulo responde aos judeus que reivindicavam o título de povo de Deus pela aliança e julgavam contrário ao decreto divino que só os crentes em Cristo fossem contados como tal. A promessa nunca abrangeu “todos os israelitas, universalmente, sem eleição e distinção”, mas os “filhos da promessa”, e os excluídos são os que procuravam ser justificados “pelas obras da lei” (Exame do panfleto de Perkins, em As obras de Armínio, vol. 3). O fim do capítulo confirma essa leitura: Israel não alcançou a justiça “porque não a buscavam pela fé, mas sim, como que pelas obras” (9:32). Wesley chegou à mesma conclusão. Para ele, o propósito de Paulo era mostrar que a rejeição dos judeus e a recepção dos gentios concordavam com a palavra de Deus, e o resumo do capítulo não diz uma palavra sobre reprovação pessoal (Romanos: notas explicativas, cap. 9).

Jacó e Esaú

Até aqui, Armínio e Wesley caminham juntos: os dois entendem que Paulo defende a fidelidade de Deus diante da incredulidade de Israel. A diferença aparece quando se pergunta quem são Jacó e Esaú dentro desse argumento. Há duas respostas na tradição arminiana, e vale conhecer cada uma com os seus argumentos.

A leitura pessoal e condicional

A primeira lê a passagem, antes de tudo, como eleição pessoal, em Cristo, dos que creem. Jacó foi escolhido em vez de Esaú não porque tivesse feito algo bom ou fosse melhor que Esaú, nem por algum mérito que Deus tivesse previsto nele, mas porque Deus escolhe segundo o Seu propósito, e não por obras (v. 11): Ele elege em Cristo os que, alcançados pela graça, creem. O “não pelas obras” do versículo 11, por sua vez, exclui o mérito sem tornar a fé indiferente. Como lembrou Armínio, o propósito “segundo a eleição” é um propósito de graça em Cristo, e a promessa “é pela fé, para que seja conforme a graça” (Romanos 4:16; Debate amistoso com Francisco Júnio, em As obras de Armínio, vol. 3).

Essa leitura tem raiz no próprio Armínio. Na análise de Romanos 9 que escreveu em resposta a Gellius Snecanus, ele entende que Paulo trata ali do decreto pelo qual Deus justifica os que creem e rejeita os que buscam a justiça pelas obras. Jacó e Esaú entram no argumento como tipos: Jacó, dos filhos da promessa, e Esaú, dos filhos da carne, a mesma distinção do versículo 8. Os apoios dessa leitura estão no próprio capítulo: os “filhos da promessa” contados como descendência (9:8), os gentios que alcançaram a justiça pela fé (9:30) e Israel, que não a alcançou porque a buscava “como que pelas obras” (9:32). É a leitura mais próxima de Armínio e do arminianismo clássico, e ela combina com a eleição individual pela presciência que vimos na Parte 1.

A leitura coletiva ou nacional

A segunda entende que a passagem trata de povos e de papéis na história da salvação, e não do destino eterno de Jacó e Esaú como indivíduos. Em Gênesis 25:23 e Malaquias 1:2-3, Jacó e Esaú representam povos, e a escolha diz respeito ao papel de Israel na história da salvação. Quem lê assim se apoia nos detalhes do caso. O oráculo diz a Rebeca: “Duas nações há em teu ventre” (Gênesis 25:23), e Esaú nunca serviu pessoalmente a Jacó; foram os edomitas que se sujeitaram a Israel. A frase “Amei Jacó, mas odiei Esaú” vem de Malaquias, que fala de Edom e da sua terra: “E odiei a Esaú; e tornei seus montes em desolação” (Malaquias 1:3). Além disso, “odiar”, no idioma bíblico, exprime muitas vezes preferência: Jacó amava Raquel “mais que a Lia”, e a Bíblia Livre traduz por “mal-amada” a palavra hebraica que chama Lia de “odiada” (Gênesis 29:30-31).

Essa é a leitura de Wesley. Nas notas sobre Romanos 9, ele anotou que o versículo 13 não trata das pessoas de Jacó e Esaú nem do estado eterno deles (Romanos: notas explicativas, 9:13). É também a leitura mais comum na tradição wesleyana: Richard Watson, como veremos adiante, aplicou o capítulo à eleição de povos para privilégios religiosos, com Jacó e Esaú como nações. Ela é vizinha da eleição corporativa de que falamos na Parte 1, mas não idêntica a ela, porque fala do papel de povos na história, enquanto a eleição corporativa fala do povo escolhido em Cristo para a salvação.

O que as duas têm em comum

Dentro da teologia arminiana, as duas leituras concordam no essencial: nenhuma lê a passagem como decreto incondicional de salvação ou de perdição eterna de indivíduos. As duas leem os versículos 10 a 13 à luz da pergunta do versículo 6 e do fim do capítulo, e as duas negam que Deus tenha destinado Esaú, ou qualquer outra pessoa, à perdição antes de nascer. Elas diferem no que Jacó e Esaú representam. Para a leitura pessoal, os irmãos são tipos de duas classes de pessoas, e a passagem fala, por meio deles, da justificação dos que creem e da rejeição dos que buscam a justiça pelas obras. Para a leitura nacional, eles são duas nações, e a passagem fala do papel de Israel e de Edom na história; a eleição para a vida eterna é tratada a partir de outros textos, como Watson fez com 1 Pedro 1:2. Uma está mais perto de Armínio, e a outra, de Wesley, mas as duas cabem na mesma teologia, e cada leitor pode pesá-las diante do texto.

O Direito do Oleiro

À pergunta “há injustiça da parte de Deus?” (9:14), Paulo responde com Êxodo 33:19: “Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia” (9:15). Em Êxodo, essa frase acompanha o perdão de Israel depois do bezerro de ouro, pela intercessão de Moisés, o mediador, e afirma que a misericórdia é livre, sem dizer que seja concedida sem condição. Wesley a parafraseou assim: “conforme os termos que eu próprio estabeleci” (Romanos: notas explicativas, 9:15). Por isso a salvação “não depende daquele que quer, nem daquele que se esforça, mas sim, de Deus, que se compadece” (9:16). Ninguém a obtém pela vontade natural ou pelas obras, como Israel tentava, mas todos a recebem da misericórdia, nos termos que Deus fixou. E o versículo 16 nada diz contra a fé, que o mesmo capítulo apresenta como o caminho pelo qual os gentios alcançaram a justiça (9:30). A fé não se apresenta a Deus como título, mas como mão vazia.

Faraó “agravou seu coração” (Êxodo 8:15) antes que o texto diga que “o SENHOR endureceu o coração de Faraó” (Êxodo 9:12). O endurecimento é juízo sobre uma resistência já presente, ou, como diz Wesley, Deus abandona o homem “à dureza de seu coração” (Notas, Romanos 9:18). A imagem do oleiro (Romanos 9:20-21) vem dos profetas, e em Jeremias ela é explicitamente condicional: se a nação ameaçada “se converter de sua maldade”, Deus diz: “eu mudarei de ideia quanto ao mal que tinha pensado lhe fazer” (Jeremias 18:8). Paulo diz que os “vasos da ira” são suportados “com muita paciência” e estão “preparados para a perdição” (9:22), sem dizer quem os preparou, ao passo que dos vasos da misericórdia diz que Deus os “preparou com antecedência para a glória” (9:23). E logo diz quem são esses vasos: “somos nós, aos quais ele chamou, não somente dentre os judeus, mas também dentre os gentios” (9:24). O capítulo defende, contra a confiança na descendência e nas obras, o direito de Deus de formar o seu povo segundo a fé.

O Remanescente e a Oliveira

Romanos 9 não encerra a discussão. No capítulo 10, Paulo ora pela salvação de Israel (10:1); no capítulo 11, fala de “um remanescente, escolhido pela graça” (11:5). E a imagem da oliveira mostra como a eleição do povo e a fé pessoal se articulam:

20É verdade. Por causa da incredulidade eles foram quebrados, e tu, por causa da fé estás firme. Não tenhas orgulho, mas sim temor, 21pois, se Deus não poupou os ramos naturais, ele poderá não poupar a ti também. 22Olha, pois, a bondade e severidade de Deus; a severidade sobre os que caíram, mas a bondade de Deus sobre ti, se continuares na bondade; de outra maneira, também tu serás cortado fora.

(Romanos 11:20-22, Bíblia Livre)

A oliveira permanece, e os ramos entram e saem dela pela fé e pela incredulidade. O povo eleito tem raiz e continuidade, e a participação de cada um é condicional. O desfecho é universal na intenção: “Deus pôs todos debaixo da desobediência, a fim de ter misericórdia para com todos” (11:32).

Cristo, o Eleito

Voltemos a 1 Pedro 2. Poucos versículos antes da passagem citada acima, Pedro chama Cristo de pedra viva, “rejeitada pelos seres humanos, mas escolhida e preciosa para Deus”, e diz que os que se aproximam dele são edificados “como casa espiritual e sacerdócio santo” (1 Pedro 2:4-5). Cristo é a pedra escolhida, e os que se aproximam dele tornam-se, nele, a “geração escolhida”. Pedro está juntando fios que atravessam a Bíblia inteira.

A doutrina bíblica da eleição começa com um povo. Deus chamou Abraão com uma promessa que incluía “todas as famílias da terra” (Gênesis 12:3), e Moisés lembrou a Israel que o Senhor o escolheu não por ser maior que os outros povos, pois eram “os menores de todos os povos”, “mas sim porque o SENHOR vos amou, e quis guardar o juramento que jurou a vossos pais” (Deuteronômio 7:7-8). Geerhardus Vos, teólogo reformado, chama essa eleição de “um meio particular cuja finalidade era universalista” (Teologia bíblica). Era a eleição de um povo na pessoa do seu cabeça, Jacó, cujo nome se tornou o da nação. E era uma eleição aberta e exigente: estrangeiras como Rute entravam no povo (“Teu povo será meu povo”, Rute 1:16), e o israelita que desprezava a aliança podia ser cortado dele.

Mais tarde, o título de Israel passa ao Servo do Senhor: “Eis aqui meu servo, a quem sustento; meu escolhido, em quem minha alma se agrada” (Isaías 42:1). Na cruz, os líderes zombam de Jesus chamando-o, sem saber o que diziam, de “o escolhido de Deus” (Lucas 23:35). Para Lothar Coenen, toda a eleição culmina no Filho, e o favor de Deus chega ao homem “de modo eficaz, na chamada que sai e o convida através de Cristo” (art. “Eleger”). Por isso o Novo Testamento não conhece eleição para a salvação fora de Cristo, nem anterior a ele.

Escolhidos Nele

É exatamente isso que Paulo diz no começo de Efésios:

3Bendito seja o Deus e Pai do nosso Senhor Jesus Cristo, que nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo. 4Assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor.

(Efésios 1:3-4, Bíblia Livre)

Três coisas chamam a atenção nesse capítulo. Em primeiro lugar, “em Cristo”, “nele” e “no Amado” aparecem cerca de dez vezes em doze versículos: Deus não escolheu primeiro indivíduos para depois lhes providenciar um Salvador. Armínio, respondendo a William Perkins, chamou Cristo de “por assim dizer, a causa meritória, com respeito à qual foi feita a eleição” (Exame do panfleto de Perkins). Em segundo lugar, Paulo passa do “nós” que “primeiro esperamos em Cristo” ao “vós” que, “depois que ouvistes a palavra da verdade”, crestes e fostes selados com o Espírito (Efésios 1:12-13). O capítulo seguinte explica que os gentios, antes “excluídos da comunidade de Israel” (2:12), se tornaram “membros de um mesmo corpo” (3:6); a carta celebra a formação, em Cristo, de um só povo eleito de judeus e gentios. Em terceiro lugar, a eleição “antes da fundação do mundo” e a fé no tempo aparecem juntas, e Armínio concluiu que Deus “não reconhece como seu e não escolhe para a vida eterna nenhum pecador, a menos que o considere como um crente em Cristo, e feito um só, com Ele, pela fé” (Exame do panfleto de Perkins).

A obra do Espírito faz parte dessa mesma eleição. Deus nos escolheu “para a salvação, em santificação do Espírito, e fé na verdade” (2 Tessalonicenses 2:13), e os crentes são escolhidos “segundo a presciência de Deus Pai” pela santificação do Espírito (1 Pedro 1:2). O propósito eterno do Pai, firmado no Filho, chega às pessoas no tempo pela obra do Espírito.

A Dimensão Pessoal da Eleição

Nada disso apaga a eleição de pessoas, que a Escritura também ensina. Paulo chama Rufo de “o escolhido no Senhor” (Romanos 16:13) e diz aos tessalonicenses que Deus os escolheu “desde o princípio” (2 Tessalonicenses 2:13). Jesus manda os discípulos se alegrarem “por vossos nomes estarem escritos nos céus” (Lucas 10:20), e o Apocalipse fala dos que não têm o nome escrito “no livro da vida desde a fundação do mundo” (Apocalipse 17:8), frase que só faz sentido se outros nomes estiverem escritos desde o princípio. Armínio mostrou que o “conhecer de antemão” de Romanos 8:29 pode guardar também o seu sentido afetivo, porque Deus não pode “amar previamente e considerar, afetuosamente, como seu” nenhum pecador “a menos que Ele o conheça previamente, em Cristo, e o considere como um crente em Cristo” (Exame do panfleto de Perkins).

Quanto a Atos 13:48, “creram todos quantos estavam determinados para a vida eterna”, Wesley observou que Lucas fala do que Deus fazia naquele momento, pela pregação, abrindo os corações como abriu o de Lídia (Atos 16:14), e não de uma ordenação desde a eternidade (Notas explicativas sobre o Novo Testamento, Atos 13:48).

O Chamado Global ao Arrependimento

Uma última coisa em relação à eleição diz respeito ao convite de Deus para a salvação. O Novo Testamento está repleto de passagens que convocam as pessoas ao arrependimento e a terem fé em Jesus. E como crentes, somos chamados a compartilhar as boas novas com todas as pessoas. Mas se apenas alguns são eleitos, e isso é independente de qualquer coisa que eles façam, então o chamado global ao arrependimento e fé pareceria ser uma farsa. Por que Deus atrairia as pessoas com algo que Ele não está disposto a lhes dar?

Entre as muitas passagens que convocam todos ao arrependimento está Romanos 10:9-13, apenas alguns versículos após a passagem discutida acima. O versículo 13 expressa claramente que “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.” Claro, não podemos invocar seu nome sem a ajuda da graça de Deus. Mas se essa graça não é estendida a todos, então você tem que ignorar o claro significado do que Paulo está dizendo aqui. ‘Todo aquele’ indicaria que a oferta está aberta a todos, não apenas a alguns poucos. E, se a eleição incondicional fosse verdadeira, por que as pessoas são instruídas a invocar o nome do Senhor? Isso não aconteceria automaticamente quando o Espírito irresistivelmente as chamasse?

A Eleição na História

Dos Pais à Reforma

Os Pais da Igreja anteriores a Agostinho ligavam a predestinação à presciência (Justino, I Apologia, 44), e o próprio Agostinho, por volta de 394, explicou a escolha de Jacó pela presciência da fé. Em 396, respondendo a Simpliciano, mudou de leitura e passou a ver na eleição a escolha gratuita de indivíduos dentro da “massa” condenada, mudança que reconheceu nas Retratações. Calvino herdou essa leitura (Institutas, III, 22), e o Sínodo de Dort declarou que a eleição não se fez com base na fé prevista, e sim para a fé (Cânones, I, 9). Os reformados, segundo a sua própria compreensão, veem na eleição incondicional a garantia de que a salvação é toda de Deus. Em nossos dias, John Piper (The Justification of God, 1983) e Thomas Schreiner defenderam que Romanos 9 trata da salvação eterna de pessoas, e não do papel histórico de povos.

Armínio e os Remonstrantes

Armínio expôs Romanos 9 em Amsterdã em 1593. Sustentou que o capítulo trata do propósito de Deus “segundo a eleição”, que inclui os que buscam a justiça pela fé; que a eleição se faz em Cristo, “como em um mediador” e “cabeça”; e que Deus elege pessoas determinadas, conhecidas como crentes. É o que diz o quarto decreto da sua Declaração de Sentimentos (1608): Deus decretou salvar e condenar “certas pessoas em particular”, segundo a presciência dos que, pela graça preveniente, creriam e, pela subsequente, perseverariam. A ordem dos quatro decretos de Armínio está estudada com mais vagar na lição sobre os decretos de Deus e a predestinação.

Nas disputas de Leiden, Armínio juntou as duas dimensões da eleição ao definir a forma da predestinação como “a relação pré-existente e pré-ordenada e ordenação dos fiéis em Cristo, a sua Cabeça, cujo fruto eles recebem por meio de uma união real com Cristo” (Disputas públicas, XV, 8). A eleição é pessoal, porque se refere a fiéis determinados, e corporativa, porque eles são eleitos como membros de um corpo. A Remonstrância (1610, art. 1) resumiu o ensino: Deus decretou, “em Jesus Cristo”, salvar os que, “pela graça do Espírito Santo”, haveriam de crer e perseverar.

Wesley e os Teólogos Wesleyanos

Wesley definiu no seu dicionário os eleitos como todos os que verdadeiramente creem em Cristo (Randy Maddox, Responsible Grace, cap. 2). Richard Watson aplicou Romanos 9 à eleição de povos para privilégios religiosos, com Jacó e Esaú como nações, e tratou a eleição para a vida eterna, a partir de 1 Pedro 1:2, como eleição dos crentes (Theological Institutes). William Burt Pope escreveu que “a eleição sempre pressupõe o chamado, mas o chamado nem sempre resulta em eleição” (Compendium, vol. 2, p. 345), o que lembra o “muitos são chamados, mas poucos são escolhidos” da parábola do banquete. H. Orton Wiley falou de uma “predestinação de classe”, a dos crentes. A sequência mostra a tendência wesleyana de pensar a eleição a partir do povo de Deus em Cristo, sem negar o conhecimento eterno de cada pessoa.

O Debate Atual e o Brasil

Entre os arminianos, a leitura corporativa ganhou força com Robert Shank (Elect in the Son, 1970), William Klein (The New Chosen People, 1990) e Brian Abasciano. Abasciano lê Romanos 9 à luz de Êxodo 32 a 34 e ouve no desejo de Paulo de ser “separado de Cristo” (9:3) o eco do pedido de Moisés: “apaga-me agora de teu livro” (Êxodo 32:32). Ele resume que, na eleição bíblica, os indivíduos “eram eleitos, mas só como membros do povo eleito” (Journal of the Evangelical Theological Society 49, 2006). Picirilli e Forlines preferiram a eleição individual, e Picirilli julgou que Shank se aproximava demais de negar a eleição pessoal ensinada por Armínio.

No Brasil, a leitura corporativa se difundiu entre os pentecostais pelas notas de Donald Stamps na Bíblia de estudo pentecostal, que comparam a igreja a um navio eleito rumo ao céu. Walter Brunelli afirma que, em Efésios 1, “a predestinação é claramente corporativa” (Teologia para pentecostais, vol. 3), e Vinícius Couto escreveu que Deus escolheu “não os israelitas, mas Israel”. O Manual de teologia arminiana reage ao exagero: negar a eleição de pessoas é negar vários textos, e o navio põe o corpo de Cristo “longe das pessoas”, quando nós mesmos somos o corpo (1 Coríntios 12:27). E quando Brunelli escreve que “somos eleitos porque aceitamos o convite”, é preciso acrescentar que a aceitação só é possível porque a graça veio antes.

A Posição Arminiana Clássica e Wesleyana

Uma Definição

Reunindo o que vimos, cremos que a eleição para a salvação é o decreto eterno e gracioso pelo qual Deus escolheu, em Cristo, o seu povo e, nele, cada um dos que, pela graça preveniente, haveriam de crer e, pela graça subsequente, perseverar, para fazê-los santos, filhos adotivos e herdeiros da glória. A causa da eleição é somente o amor de Deus; o fundamento é Cristo, o Mediador; a condição é a fé, que a própria graça torna possível; o fim é a santidade dos eleitos e o louvor da glória da graça; e o meio pelo qual ela chega às pessoas é a obra do Espírito, que chama, convence, liberta e sela os que creem.

Duas Faces de uma Só Eleição

As duas maneiras arminianas de expor a eleição, a individual e a corporativa, deixam de ser rivais quando nenhuma é tomada isoladamente. A dimensão corporativa preserva o que Romanos 9 a 11, Efésios 1 e 1 Pedro 2 dizem com clareza: Deus escolheu Cristo e, nele, um povo, e ninguém é eleito fora da Cabeça e do corpo. A dimensão pessoal preserva o que Romanos 16:13, Lucas 10:20 e Apocalipse 17:8 dizem com a mesma clareza: Deus conhece os seus pelo nome. Quando Deus escolhe Cristo, escolhe a Cabeça e o corpo, e o corpo é feito de pessoas conhecidas desde a eternidade, como resume o Manual. Isolada, a leitura corporativa reduz a eleição a um plano sem pessoas, e a individual pode sugerir um Deus espectador, que apenas assiste à decisão humana. Juntas, elas mostram um Deus que forma um povo em Cristo e conhece cada um dos que, pela graça, farão parte dele.

Por que a Condição Não Diminui a Graça

A objeção mais séria à eleição condicional afirma que ela faz do homem o autor da diferença entre salvos e perdidos. Abasciano responde que Deus de fato escolhe: escolhe a Cabeça, o povo e a condição de entrada. Armínio acrescenta que a fé é dada por Deus, e que, a quem achasse que a sua definição deixava a fé por conta da vontade humana, bastava completar a palavra “fiéis” com “a quem Ele decidiu dar a fé” (Exame do panfleto de Perkins). Na diferença entre o que crê e o que não crê, o único ato que o homem pode chamar de inteiramente seu é a resistência à graça. Por isso a condenação lhe pertence, e a salvação pertence a Deus.

Charles Finney, que cito aqui apenas como contraste, também falou de eleição condicionada, mas supunha que “a administração mais sábia possível, do governo moral, asseguraria a livre concorrência de alguns e não de outros” (Teologia sistemática). Como não admitia a incapacidade da vontade caída, a eleição se torna nele o cálculo de quem a persuasão moral alcançaria. A eleição arminiana parte do ponto oposto: a vontade está presa até que a graça a liberte.

As Tradições em Comparação

TradiçãoObjeto da eleiçãoRelação com a fé
Reformada (Dort)Um número certo de pessoas, sem condição previstaA fé é fruto da eleição
Luterana (Concórdia)Os filhos de Deus em Cristo, sem reprovação correspondenteA fé é dom; a perdição vem da resistência
Arminiana, ênfase pessoalPessoas conhecidas como crentes em CristoA fé, dom da graça, é condição
Arminiana, ênfase corporativaO povo de Deus em CristoA fé une a pessoa ao povo eleito

A divergência fica marcada como divergência: cremos que Deus elege em Cristo os que, pela graça, creem, e não que elege alguns, sem condição, para que somente eles possam crer.

Duas Objeções

A primeira vem de Vincent Cheung, que também cito apenas como contraste. Com base em Romanos 9:13, ele escreve que “é melhor dizer que Deus ama os eleitos mas odeia os réprobos” (Teologia sistemática). Como vimos, nenhuma das duas leituras arminianas de Jacó e Esaú chega a essa conclusão: a frase de Malaquias fala de Edom e da sua terra, “odiar” exprime muitas vezes preferência, e, mesmo quando Esaú é lido como tipo dos filhos da carne, a rejeição recai sobre os que buscam a justiça pelas obras. Além disso, o próprio Paulo cita Oseias para dizer que Deus chamará “Amada” a que não era amada (Romanos 9:25). O Deus de Romanos quer “ter misericórdia para com todos” (11:32) e quer que todos sejam salvos (1 Timóteo 2:4).

A segunda pergunta se a eleição condicional tira a segurança do crente. Na verdade, ela põe a segurança no lugar certo. Quem está em Cristo pela fé está entre os eleitos e não precisa investigar um decreto oculto, e por isso Pedro manda “confirmar vosso chamamento e escolha” (2 Pedro 1:10). A eleição, porém, não autoriza a presunção, porque o ramo permanece “se continuares na bondade” (Romanos 11:22), tema do estudo sobre a segurança da salvação.

Implicações para a Fé, a Igreja e a Vida

Em primeiro lugar, essa doutrina dá ao crente uma certeza centrada em Cristo. Ninguém precisa perguntar se o seu nome está numa lista secreta, mas se está em Cristo, e a essa pergunta respondem a promessa e o testemunho do Espírito. Em segundo lugar, ela sustenta a evangelização, porque podemos dizer a qualquer pessoa, no bairro, no presídio ou na aldeia, que há lugar para ela no povo de Deus. Em terceiro lugar, ela nos ensina humildade, e isso vale para todos nós: “não és tu que sustentas a raiz, mas sim, a raiz a ti” (Romanos 11:18). Por fim, ela dá à igreja consciência de missão e de santidade, porque somos “geração escolhida” para anunciar as virtudes de Deus (1 Pedro 2:9) e fomos escolhidos “para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Efésios 1:4).

O que vem a seguir?

Este artigo foi o quinto estudo de uma série de posts que descreverão a soteriologia arminiana conforme ensinada por Jacob Arminius e John Wesley. Vamos olhar seis ensinamentos específicos do arminianismo:

Para Estudar em Grupo

  1. Como Armínio e Wesley descrevem o propósito de Paulo em Romanos 9, e como interpretam Jacó e Esaú?
  2. Como Jeremias 18 e a oliveira de Romanos 11 ajudam a ler Romanos 9?
  3. Por que a eleição individual pela presciência e a eleição corporativa podem ser vistas como complementares?

Sobre as fontes

Os recursos gerais deste estudo estão descritos na Parte 1. As obras citadas nesta segunda parte são estas:

  • ABASCIANO, Brian J. Paul’s Use of the Old Testament in Romans 9:1-9. Londres: T&T Clark, 2005; “Corporate Election in Romans 9: A Reply to Thomas Schreiner”. Journal of the Evangelical Theological Society 49/2 (2006), p. 351-371.
  • AGOSTINHO. Exposição de algumas proposições da Epístola aos Romanos; A Simpliciano; Retratações.
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