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A Soberania de Deus e o Livre-Arbítrio Humano (Parte 2)

Diego Gonçalvesatualizado 24 min de leitura4.651 palavras

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Neste texto

Na Parte 1 deste estudo, vimos que calvinistas e arminianos afirmam a soberania de Deus e o livre-arbítrio, mas dão sentidos diferentes a essas palavras. Vimos também que, para a tradição arminiana, a vontade caída só é livre diante de Deus quando a graça preveniente a liberta. Agora vamos ver como a Escritura descreve essa vontade presa e libertada, como a igreja pensou a questão ao longo dos séculos e o que isso muda na vida cristã.

A Vontade Presa e a Vontade Libertada na Escritura

Quem já criou passarinho conhece a cena. Abre-se a porta da gaiola para limpar o bebedouro, e o canário não sai; fica no poleiro, como se as grades continuassem ali. O problema não está só na porta, mas no próprio pássaro, que se acostumou à prisão a ponto de não desejar outra coisa. A Escritura descreve a nossa vontade de modo parecido e, ao mesmo tempo, nos trata como pessoas de quem Deus espera resposta.

O Deus que chama à escolha

A Caim, Deus diz: “o pecado está à porta; contra ti será o seu desejo, porém tu deves dominá-lo” (Gênesis 4:7). Moisés põe diante do povo a vida e a morte: “escolhe, pois, a vida” (Deuteronômio 30:19). E a Bíblia termina com um convite: “quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida” (Apocalipse 22:17).

Esses textos não provam que o pecador tenha força natural para atender ao chamado, como Pelágio pensava, mas mostram que o chamado é sincero e que a recusa é culpa de quem recusa. Jesus chorou sobre Jerusalém: “Quantas vezes eu quis ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas; porém não quisestes!” (Mateus 23:37). Se tudo o que Jerusalém quis tivesse sido determinado pelo próprio Deus, o lamento perderia o sentido.

A vontade escrava

Ao mesmo tempo, a Escritura descreve a vontade humana como escrava. O texto central é o diálogo de Jesus com os judeus que tinham crido nele:

Dizia, pois, Jesus aos judeus que criam nele: Se vós permanecerdes em minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos. E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. Responderam-lhe: Somos descendência de Abraão, e nunca servimos a ninguém; como, pois, dizes: Sereis livres? Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo, que todo aquele que comete pecado é servo do pecado. E o servo não fica em casa para sempre; o Filho fica para sempre. Portanto, se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.

(João 8:31-36, Bíblia Livre)

Os ouvintes se julgavam livres, e Jesus muda o eixo da conversa: a escravidão que importa é a do pecado. Paulo desenvolve o mesmo raciocínio: “a quem vos apresentardes por servos para obedecer, sois servos daquele a quem obedeceis” (Romanos 6:16), e “quando éreis servos do pecado, estáveis livres da justiça” (Romanos 6:20). A liberdade do pecador é real, mas é a de quem só se move dentro da cela.

Paulo afirma ainda que “a mentalidade da carne é inimizade contra Deus, pois não se sujeita à Lei de Deus, porque nem sequer pode” (Romanos 8:7) e que os opositores da verdade precisam que Deus lhes dê arrependimento, para que “se libertem da armadilha do diabo, em que foram presos à vontade dele” (2 Timóteo 2:26). E Jesus diz: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer” (João 6:44).

A vontade libertada

A promessa da nova aliança é a cura da vontade: “tirarei de vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne. E porei meu Espírito dentro de vós, e farei com que andeis em meus estatutos” (Ezequiel 36:26-27). Paulo fala da liberdade como obra do Espírito: “onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2 Coríntios 3:17). O texto que melhor reúne a obra de Deus e a resposta humana é este:

Portanto, meus amados, assim como sempre obedecestes, não somente na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim exercei a vossa salvação com temor e tremor; pois é Deus quem opera em vós tanto o querer como o agir, conforme a sua boa vontade.

(Filipenses 2:12-13, Bíblia Livre)

Paulo não divide a obra em duas metades, uma de Deus e outra nossa. Deus opera o querer e o agir, e justamente por isso os filipenses podem e devem exercer a sua salvação. A graça não substitui a vontade humana, mas a liberta e a põe em movimento.

A graça que pode ser recusada

Essa graça alcança todos: Cristo é “a luz verdadeira, que ilumina a todo ser humano que vem ao mundo” (João 1:9), e “a graça salvadora de Deus se manifestou a todos os homens” (Tito 2:11). E ela pode ser resistida: “Vós sempre resistis ao Espírito Santo!” (Atos 7:51). O mesmo Jesus que disse “ninguém pode vir a mim” disse também: “não quereis vir a mim, para que tenhais vida” (João 5:40). O lado do “ninguém pode” impede o pelagianismo; o lado do “não quisestes” impede o determinismo. A doutrina da vontade libertada pela graça preveniente é a tentativa de guardar os dois.

Como a Igreja Pensou a Questão

A controvérsia entre calvinistas e arminianos não começou em Leiden. A pergunta pela liberdade da vontade acompanha a igreja desde os primeiros séculos, e conhecer esse caminho ajuda a ver que a posição arminiana não é uma novidade.

Pelágio, Agostinho e Orange

Os Pais dos primeiros séculos defenderam a liberdade humana contra o fatalismo pagão e os gnósticos, como mostra o Manual de teologia arminiana (caps. 2 e 5), mas a distinção entre liberdade de escolha e liberdade para o bem só se tornou urgente com Pelágio.

McGrath explica a controvérsia com a imagem da balança. Para Pelágio, a vontade é uma balança em perfeito equilíbrio; daí a sua carta a Demetríade (413), que chama de “loucura” a queixa de quem diz que os mandamentos de Deus são difíceis demais para a fraqueza da carne. Para Agostinho, a balança continua funcionando, mas um peso foi posto no prato do mal, e ela pende sempre para esse lado. A vontade do pecador é um “livre-arbítrio cativo” (liberum arbitrium captivatum), e só a graça a torna um “livre-arbítrio libertado” (liberum arbitrium liberatum); a graça, longe de eliminar a liberdade, é o que a torna possível (McGrath, “As doutrinas da natureza humana, do pecado e da graça”). O Segundo Concílio de Orange (529) condenou a tese semipelagiana de que o início da fé vem da vontade humana, mas não afirmou a irresistibilidade da graça e rejeitou com anátema a predestinação para o mal. A tradição arminiana se reconhece nessas decisões.

Erasmo, Lutero, Calvino e Trento

Em 1524, Erasmo de Roterdã definiu o livre-arbítrio como o poder da vontade pelo qual a pessoa pode aplicar-se ao que conduz à salvação ou afastar-se disso (Do livre-arbítrio). Lutero respondeu com Da vontade cativa (1525), comparando a vontade a um animal de carga que vai aonde Deus quer, se Deus o monta, e aonde Satanás quer, se Satanás o monta, sem escolher o cavaleiro (veja Liberdade e responsabilidade humana: O paradoxo de Lutero). Calvino distinguiu necessidade de coação: pode-se dizer que o homem tem livre-arbítrio “não porque tenha livre escolha igualmente do bem e do mal, mas porque faz o mal voluntariamente, e não por coação” (Institutas, II, 2, 7).

A Fórmula de Concórdia (1577) rejeitou o sinergismo dos discípulos de Melanchthon e comparou o homem não convertido, nas coisas espirituais, a um tronco ou a uma pedra (Declaração sólida, II). O Concílio de Trento (1547) declarou que o livre-arbítrio não se extinguiu, mas ficou “atenuado e enfraquecido”, e que, movido por Deus, coopera com a graça e pode recusá-la (sessão VI, cânones 4-5). O anabatista Balthasar Hubmaier já ensinava que a graça vem antes, liberta a vontade e pode ser recusada.

Armínio e os remonstrantes

O texto mais completo de Armínio sobre o assunto é o décimo primeiro dos debates públicos que presidiu em Leiden, Sobre o livre-arbítrio do homem e seus poderes, de onde vem a passagem sobre o livre-arbítrio “aprisionado, destruído e perdido” que está entre as citações no fim deste artigo. Ali ele descreve o estado da corrupção com uma força que nenhum calvinista superou. Armínio percorre a mente escurecida (1 Coríntios 2:14), as afeições hostis a Deus (Romanos 8:7) e a capacidade de agir, impotente para o bem (João 6:44), e conclui, com João 8:36, que o livre-arbítrio “não é livre para o bem, a menos que seja libertado pelo Filho, por meio de seu Espírito” (XI, 11). Na justiça renovada, o Espírito dá nova luz, novas afeições e novos poderes, e o início, o progresso e a perseverança no bem “não vêm de nós mesmos, mas de Deus” (XI, 12-14).

A Declaração de Sentimentos (1608) diz o mesmo: no estado caído, o homem “não é capaz, por si mesmo e de si mesmo, nem de pensar, nem de querer, nem de fazer aquilo que é verdadeiramente bom”. Logo depois, Armínio atribui à graça “o início, a continuação e a consumação de todo bem” e reduz a controvérsia a uma pergunta: a graça de Deus é uma força irresistível? Os artigos terceiro e quarto da Remonstrância (1610) repetem essas palavras e acrescentam que, quanto ao modo, a graça “não é irresistível”.

Abner Hernández mostra que o centro da doutrina de Armínio é a graça, e não o livre-arbítrio, e que a libertação da vontade é a primeira operação da graça preveniente, obra do Espírito que precede qualquer resposta humana. A vontade, para ele, não estava apenas enfraquecida, à espera de auxílio, mas perdida, e precisou ser libertada (The Doctrine of Prevenient Grace in the Theology of Jacobus Arminius). Expus essa doutrina com mais vagar em A graça preveniente em Armínio: Um estudo completo.

Wesley e a controvérsia com o necessitarismo

Em 1754, Jonathan Edwards publicou A liberdade da vontade, em que a vontade segue sempre o motivo mais forte e o pecador tem a capacidade natural de fazer o que quer, mas não a capacidade moral de querer o bem. Ao ler o filósofo escocês Lorde Kames, Wesley perguntou no diário que bem faria convencer a humanidade de que somos “uma mera peça de relógio” (Diário, 23 de maio de 1774), e no mesmo ano escreveu Pensamentos sobre a necessidade, contra Kames e Edwards: se a vontade é impelida irresistivelmente, ninguém é culpado por ela, e “não pode haver bem ou mal moral, a menos que tenham liberdade, assim como vontade” (III, 7, citado por Don Thorsen, Calvin vs. Wesley, cap. 3).

Seria um erro, porém, fazer de Wesley um defensor do livre-arbítrio natural. Na conferência metodista de 1745, ele perguntou em que ponto os metodistas chegavam “à beira do calvinismo” e respondeu:

Em atribuir todo bem à livre graça de Deus; em negar todo livre-arbítrio natural e todo poder anterior à graça; e em excluir todo mérito do homem, mesmo pelo que ele tem ou faz pela graça de Deus.

Wesley, Atas de algumas conversações, 1º de agosto de 1745

Contra Richard Hill, escreveu que ele e John Fletcher “negam absolutamente o livre-arbítrio natural”, sustentam que a vontade humana é “por natureza livre apenas para o mal” e creem que “todo homem tem uma medida de livre-arbítrio que lhe foi restaurada pela graça” (Coletânea da teologia de João Wesley, “Livre-arbítrio”). Eis a fórmula wesleyana: a liberdade para o bem é graça restaurada, e não natureza remanescente. Maddox mostra que, para Wesley, a graça preveniente restaura em todos ao menos um grau mínimo de liberdade, e que a única alternativa seria a eleição incondicional com a graça irresistível (Responsible Grace, cap. 3).

Por isso Wesley preferia falar de “graça livre”, “livre em todos e para todos” (sermão A graça livre, 1739), a falar de “livre-arbítrio” (Thorsen, cap. 3). No sermão 85, Sobre operar a própria salvação, ele tira de Filipenses 2:12-13 duas conclusões: Deus opera, portanto podemos operar; Deus opera, portanto devemos operar (III, 3-7).

Os herdeiros de Wesley e o Brasil

Os Artigos de Religião que Wesley preparou em 1784, herança doutrinária do metodismo que chegou ao Brasil, dizem no artigo VIII:

A condição do homem depois da queda de Adão é tal que ele não pode converter-se nem preparar-se, por sua força natural e por suas obras, para a fé e a invocação de Deus; por isso, não temos poder para fazer boas obras agradáveis e aceitáveis a Deus sem a graça de Deus por Cristo, que nos previne para que tenhamos boa vontade, e opera conosco quando temos essa boa vontade.

Artigos de Religião metodistas, art. VIII

Watson, Pope e Wiley conservaram a fórmula de Wesley: a liberdade para o bem espiritual é dom da graça preveniente, dado a todos por causa de Cristo (Theological Institutes; A Compendium of Christian Theology; Christian Theology, vol. 2).

No Brasil, o batista A. B. Langston rejeitou o fatalismo, o predeterminismo, o necessarianismo e o determinismo como “teorias errôneas” e lembrou que a liberdade se perde pelo mau uso: o fumante escravizado só escolhe a marca do cigarro; a liberdade ideal “só pode existir numa vida moralmente perfeita” (Esboço de teologia sistemática, “A doutrina do homem”, 7.3-7.4). O pentecostal Walter Brunelli insiste que o pecador, à luz de Romanos 7, “está debaixo de uma lei mais forte do que sua vontade”, e cita Thomas Oden: “Deus prepara a vontade e coopera com a vontade preparada” (Teologia para pentecostais, vol. 3).

Na pregação evangélica brasileira, porém, circula a frase de que “Deus é um cavalheiro” e não arromba a porta do coração (cf. Apocalipse 3:20). Ela guarda uma verdade, porque a graça não violenta a vontade, mas costuma sugerir um Deus parado do lado de fora, à espera de que o pecador tome a iniciativa. Para a teologia arminiana clássica, quem bate à porta já está agindo do lado de dentro: a batida é graça, a luz que mostra a porta é graça, e a mão que se levanta para abrir foi libertada pela graça.

Nem Pelágio nem Determinismo

Em suma, cremos, em primeiro lugar, que Deus criou o ser humano com uma vontade verdadeiramente livre, mas dependente da graça já no estado de inocência. Em segundo lugar, que, pela queda, a vontade conservou a sua natureza de vontade, livre de coação, mas perdeu toda liberdade para o bem espiritual, de modo que o ser humano caído é por natureza livre apenas para o mal e não pode, por si mesmo, pensar, querer nem fazer o que é verdadeiramente bom, nem crer em Cristo. Em terceiro lugar, que Deus, por causa de Cristo, concede a todas as pessoas a graça preveniente, obra do Espírito Santo que ilumina a mente, desperta a consciência e liberta a vontade o bastante para que ela possa responder ao evangelho. Em quarto lugar, que essa graça não age como força irresistível: a vontade libertada pode crer, e pode também resistir. Por fim, que a fé não é mérito, porque recebe o que Deus dá, e que o início, o progresso e a consumação de todo bem pertencem a Deus.

Contra Pelágio e contra Finney

Essa posição se opõe ao pelagianismo, que nega a corrupção da vontade, e ao semipelagianismo, que reconhece a doença mas deixa ao ser humano o primeiro passo. Charles Finney, que leio aqui apenas como contraste, mostra onde passa a linha. Para ele, a “capacidade natural” de obedecer a Deus “é idêntica à liberdade da vontade” (Teologia sistemática, aula 20). Por isso, depois de descrever com exatidão a doutrina metodista da “capacidade da graça”, segundo a qual a humanidade perdeu em Adão todo poder de obedecer a Deus e o recebe de novo, por causa da expiação, pela influência do Espírito dada a todos, Finney conclui: “Esta doutrina de uma capacidade da graça é um absurdo” (aula 21). A recusa dele esclarece o que a teologia wesleyana afirma. Deus não ordena o impossível, mas o possível vem da graça, e não da natureza; o pecador é responsável porque a graça o alcançou, e não porque guardou uma força que a queda não teria tocado.

Pela mesma razão, quando se diz que no pecador resta “um arbítrio no íntimo”, como o próprio Manual chega a escrever (cap. 4), é preciso esclarecer, com Armínio, que o que resta é a faculdade de querer, livre de coação, e não um poder para o bem espiritual.

Contra o determinismo

Do outro lado está o determinismo. Vincent Cheung, cuja posição extrema já apareceu entre as citações deste artigo, afirma também que “o homem não tem livre arbítrio”, que “somente Deus possui livre arbítrio” e que Deus é “a causa definitiva e imediata” de todos os eventos, “sejam físicos ou mentais” (Teologia sistemática, seção sobre a eleição). A objeção arminiana é teológica. Se toda volição humana, inclusive a pecaminosa, é causada imediatamente por Deus, torna-se impossível explicar como ele não é autor do pecado.

Por justiça, a teologia reformada confessional não se reconhece nesse determinismo. A Confissão de Westminster afirma que a vontade humana tem uma liberdade natural que “não é forçada” (IX, 1), e os Cânones de Dort declaram que a graça da regeneração não age nos homens “como em troncos e pedras”, mas vivifica, cura e corrige a vontade, dobrando-a “suave e poderosamente” (III/IV, 16). A divergência entre arminianos e reformados não está em saber se a graça liberta a vontade, ponto em que concordamos, mas em saber se essa libertação é irresistível e dada só aos eleitos, ou resistível e oferecida a todos.

Nem autonomia nem marionete

A palavra “sinergismo”, de synergia, “trabalho conjunto”, sugere duas forças somadas e deve ser usada com cautela. Se for usada, que seja no sentido que Olson chama de sinergismo evangélico: toda a capacidade de crer vem da graça, e a pessoa não acrescenta nada à salvação, apenas deixa de resistir à graça que a liberta. Armínio ilustrou isso com o mendigo que estende a mão para receber a esmola: ninguém diria que a esmola deixou de ser presente porque foi recebida, e, no caso da fé, até a mão estendida é obra da graça (Apologia contra os 31 artigos, art. XXVII). A vontade libertada não é autônoma, porque não se libertou sozinha, nem marionete, porque responde de verdade e pode recusar.

As outras tradições

Ortodoxos e católicos falam de uma liberdade ferida ou enfraquecida, mas não destruída, que coopera com a graça, e a teologia católica liga essa cooperação a uma doutrina do mérito que os protestantes rejeitam. Luteranos e reformados afirmam a escravidão da vontade e a graça eficaz irresistível para os eleitos. A tradição arminiana e wesleyana concorda com eles quanto à escravidão da vontade e à exclusão de todo mérito, diverge da teologia católica e ortodoxa quanto a uma vontade apenas enfraquecida e diverge dos reformados quanto ao modo e ao alcance da graça que liberta. Entre os pentecostais brasileiros, a pregação é amplamente arminiana, e Brunelli afirma que a oportunidade da graça “é oferecida indistintamente a todos” (vol. 3).

O que Isso Muda na Vida Cristã

Em primeiro lugar, a doutrina da vontade libertada orienta a evangelização. Pregamos a todos porque a graça alcança todos, e não porque contamos com uma força natural no ouvinte; por isso a pregação não depende de pressão emocional nem se cala por fatalismo. Paulo pede que se instrua “com mansidão aos que se opõem, pois talvez Deus lhes dê arrependimento” (2 Timóteo 2:25).

Em segundo lugar, ela ilumina o cuidado pastoral. Muitas pessoas chegam à igreja presas a vícios e ouvem que basta “decidir” mudar. A experiência delas confirma Romanos 7: “o querer está em mim; porém o fazer o bem, não” (Romanos 7:18). A resposta cristã não é desprezar a vontade, mas anunciar o Filho que liberta e oferecer os meios de graça, a oração, as Escrituras, a Ceia e a comunhão dos irmãos, pelos quais a liberdade recebida cresce.

Em terceiro lugar, ela forma a vida cristã. Porque Deus opera em nós o querer e o agir, podemos e devemos exercer a nossa salvação com temor e tremor, e a liberdade recebida não é licença: “Somente não useis a liberdade como oportunidade para a carne; em vez disso, servi-vos uns aos outros pelo amor” (Gálatas 5:13).

Por fim, ela nos guarda do orgulho, porque até a mão que recebeu foi libertada por Deus, e do desespero, porque a graça que alcança quem ainda não crê é sincera. Isso vale para todos nós: “pela graça de Deus sou o que sou” (1 Coríntios 15:10).

Voltemos à gaiola. O canário que não sai pela porta aberta é um retrato honesto de cada um de nós, que aprendemos a amar as grades. Deus não se contentou em abrir a porta por fora; o seu Espírito entra na gaiola, desperta o desejo esquecido do céu e devolve às asas a força de voar, e, ainda assim, não arrasta ninguém para fora. “Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36).

Referências Bíblicas

  • “Irmãos, vocês foram chamados para a liberdade. Mas não usem a liberdade para dar ocasião à carne; antes, sirvam uns aos outros humildemente em amor.” – Gálatas 5:13
  • “Se alguém escolher fazer a vontade de Deus, descobrirá se o meu ensino vem de Deus ou se falo por mim mesmo.” – João 7:17
  • “Mas, se lhes parece indesejável servir ao Senhor, escolham hoje a quem irão servir, se aos deuses que os seus antepassados serviram além do Eufrates, ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra vocês estão vivendo. Mas eu e a minha família serviremos ao Senhor.” – Josué 24:15
  • “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo.” – Apocalipse 3:20
  • “Contudo, a todos os que o receberam, aos que creram em seu nome, deu o direito de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne nem da vontade do homem, mas de Deus.” – João 1:12-13
  • “Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês de que coloquei diante de vocês a vida e a morte, bênçãos e maldições. Agora escolham a vida, para que vocês e os seus filhos vivam e para que amem o Senhor, o seu Deus, ouçam a sua voz e se apeguem firmemente a ele. Pois o Senhor é a sua vida, e ele lhes dará muitos anos na terra que jurou dar aos seus pais, Abraão, Isaque e Jacó.” – Deuteronômio 30:19-20
  • “Portanto, ó israelitas, eu os julgarei a cada um de acordo com os seus caminhos, declara o Soberano Senhor. Arrependam-se! Voltem-se de todos os seus delitos, para que o pecado não cause a queda de vocês. Libertem-se de todos os delitos que vocês cometeram e busquem um coração novo e um espírito novo. Por que deveriam morrer, ó nação de Israel? Pois não me agrada a morte de ninguém, declara o Soberano Senhor. Arrependam-se e vivam!” – Ezequiel 18:30-32

Citações

Para outras citações calvinistas sobre a ordenação do pecado por Deus, veja o artigo “Deus Ordena o Pecado?”

Como exemplo: “Deus controla tudo o que existe e tudo o que acontece. Não há uma coisa que exista ou que aconteça que Ele não tenha decretado e causado — nem mesmo um único pensamento na mente do homem. Como isso é verdade, segue-se que Deus decretou e causou a existência do mal. Ele não meramente permitiu, porque nada pode se originar ou acontecer à parte de sua vontade e poder. Como nenhuma criatura pode tomar decisões livres ou independentes, o mal nunca poderia ter começado a menos que Deus o decretasse e causasse, e não pode continuar por um momento a mais sem a vontade de Deus para que continue ou sem o poder de Deus ativamente fazendo-o continuar.” –

Vincent Cheung: O Problema do Mal, A Soberania de Deus (posição extrema, que a própria Confissão de Westminster recusa ao dizer que Deus não é o autor do pecado, 3.1)

“Neste estado, o livre-arbítrio do homem em relação ao verdadeiro bem não está apenas ferido, aleijado, enfermo, inclinado e enfraquecido; mas também está aprisionado, destruído e perdido. E seus poderes não estão apenas debilitados e inúteis a menos que sejam assistidos pela graça, mas ele não tem poderes exceto aqueles que são excitados pela graça divina. Pois Cristo disse: ‘Sem mim nada podeis fazer.’ Santo Agostinho, após meditar diligentemente em cada palavra desta passagem, fala assim: ‘Cristo não diz, sem mim podeis fazer pouco; nem diz, sem mim podeis fazer qualquer coisa árdua, nem sem mim podeis fazê-lo com dificuldade. Mas Ele diz, sem mim nada podeis fazer! Nem diz, sem mim não podeis completar nada; mas sem mim nada podeis fazer.’”

– Jacob Arminius, Disputa Pública 11 Sobre o Livre-Arbítrio do Homem e seus Poderes

O que vem a seguir?

Este artigo foi o terceiro estudo de uma série de posts que descreverão a soteriologia arminiana conforme ensinada por Jacob Arminius e John Wesley. Vou focar em seis ensinamentos específicos do arminianismo:

Para estudar em grupo

  1. Como João 8:31-36 e Romanos 6:16-20 descrevem a escravidão da vontade e a sua libertação?
  2. Compare a imagem da balança em Pelágio e em Agostinho. O que querem dizer as expressões liberum arbitrium captivatum e liberum arbitrium liberatum?
  3. Por que Wesley disse que os metodistas chegavam “à beira do calvinismo”, e em que ponto se afastavam dele?
  4. Por que a crítica de Finney à “capacidade da graça” mostra a diferença entre a teologia wesleyana e o semipelagianismo?
  5. Que correções a teologia arminiana clássica faria à frase “Deus é um cavalheiro e não arromba a porta do coração”?

Sobre as fontes

Esta segunda parte usa as mesmas fontes gerais indicadas na Parte 1, entre elas As Obras de Jacó Armínio, os sermões de John Wesley e Teologia Arminiana: Mitos e Realidades, de Roger Olson.

Os dados completos de algumas dessas obras, e as demais usadas nas seções sobre os termos do debate, a Escritura, a história e a vida cristã, são estes:

  • ARMÍNIO, Jacó. As obras de Armínio. 3 vols. Rio de Janeiro: CPAD, 2015 (Disputas públicas XI; Apologia contra os 31 artigos).
  • ARMÍNIO, Jacó. Declaração de Sentimentos (1608).
  • A Remonstrância (1610).
  • Artigos de Religião metodistas (1784); Cânones de Dort; Confissão de Fé de Westminster; Fórmula de Concórdia; Concílio de Trento, sessão VI.
  • BRUNELLI, Walter. Teologia para pentecostais. Vol. 3. Rio de Janeiro: Central Gospel, 2016.
  • HERNÁNDEZ, Abner F. The Doctrine of Prevenient Grace in the Theology of Jacobus Arminius. Tese (Doutorado). Berrien Springs: Andrews University, 2017.
  • LANGSTON, A. B. Esboço de teologia sistemática. Rio de Janeiro: JUERP, 1980.
  • MADDOX, Randy L. Responsible Grace: John Wesley’s Practical Theology. Nashville: Kingswood Books, 1994.
  • McGRATH, Alister. Teologia sistemática, histórica e filosófica. São Paulo: Shedd Publicações, 2005.
  • SANTOS, Flávyo Henrique Costa. Manual de teologia arminiana. São Paulo: Reflexão, 2021.
  • THORSEN, Don. Calvin vs. Wesley: Bringing Belief in Line with Practice. Nashville: Abingdon, 2013.
  • WATSON, Richard. Theological Institutes. Londres, 1823-1829; POPE, William Burt. A Compendium of Christian Theology. Londres, 1880; WILEY, H. Orton. Christian Theology. Vol. 2. Kansas City: Nazarene Publishing House, 1941.
  • WESLEY, John. Sermões A graça livre, Sobre operar a própria salvação e Que é o homem?; Atas de 1745; Pensamentos sobre a necessidade (1774); em Coletânea da teologia de João Wesley. Rio de Janeiro: Imprensa Metodista, 1995.
  • Para contraste: CHEUNG, Vincent. Teologia sistemática; FINNEY, Charles G. Teologia sistemática, aulas 20 e 21.

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