
HistóriaArminianismo9 de 46
Balthasar Hubmaier: o doutor que defendeu o livre-arbítrio e morreu na fogueira em Viena
Em 10 de março de 1528, Balthasar Hubmaier foi queimado vivo em Viena. Três dias depois, a sua mulher, Elisabeth Hügline, foi afogada no Danúbio. Ele tinha doutorado em teologia, tinha sido aluno de Johann Eck, o grande adversário de Lutero, e o lema que imprimia nos seus livros dizia “a verdade é imortal”.
Vida
Hubmaier nasceu por volta de 1480 em Friedberg, na Baviera, perto de Augsburgo, provavelmente de família camponesa. Estudou na escola latina de Augsburgo e entrou na Universidade de Freiburg em 1503. Foi ordenado padre em 1510 e recebeu o doutorado em teologia na Universidade de Ingolstadt em 1512, sob Johann Eck, de quem se tornou vice-reitor.
A fase católica tem um capítulo sombrio. Como pregador em Regensburg, a partir de 1516, ele ajudou a provocar a expulsão dos judeus da cidade e promoveu uma peregrinação a uma capela de supostos milagres. Convém dizer isso, porque o homem que mais tarde pediria tolerância com os hereges não nasceu tolerante.
Por volta de 1521 mudou-se para Waldshut, perto de Zurique, e ali foi mudando de posição ao estudar as cartas de Paulo. Participou da disputa de Zurique de outubro de 1523, criticou as imagens e a missa, e conheceu Ulrico Zuínglio (sobre ele, veja Ulrich Zwingli e a Reforma Suíça). Casou-se em 1524. No mesmo ano escreveu as Dezoito Teses, em que defende que só a fé salva e que a Ceia é um memorial.
A dúvida sobre o batismo de crianças o levou ao batismo de adultos: em 1525 ele foi batizado de novo. As fontes divergem quanto a quem o batizou, Wilhelm Reublin ou Konrad Grebel. Depois da repressão em Waldshut, fugiu para Zurique, onde Zuínglio o fez prender. Sob tortura, ele negou as suas posições, e depois, já fora da cidade, retirou a negação, dizendo que poderia errar como homem, mas não era herege.
O período mais fértil foi em Nikolsburg, na Morávia, por volta de 1526 e 1527, sob a proteção dos senhores de Liechtenstein. Ali ele escreveu vários folhetos e batizou muita gente. Com a chegada de Fernando I da Áustria ao controle da Boêmia, foi preso, levado a Viena em julho de 1527, interrogado por antigos colegas e condenado. Sustentou até o fim as suas posições sobre o batismo e a Ceia.
Pensamento
Classe: anabatista, proto-arminiano. Hubmaier viveu quase oitenta anos antes de Armínio e nunca ouviu falar dele. Mas Roger Olson, que o chama de “arminiano antes de Armínio”, afirma que a teologia da salvação dele é basicamente a mesma que os remonstrantes desenvolveriam depois. Veja também Jacó Armínio e Simão Episcópio.
Nós o lemos assim, em palavras comuns:
- A queda tirou a liberdade, e a graça a devolve. Em Sobre o livre-arbítrio (1527), ele ensina que Deus manda a sua Palavra a todos e dá a todos a força para aceitá-la ou rejeitá-la. É o que os arminianos chamam de graça preveniente, a graça que vem antes da nossa resposta. A liberdade vem de Cristo e do Espírito, e não de uma capacidade natural que teria sobrado.
- A culpa da rejeição é de quem rejeita. Ele compara Pedro e Herodes, que ouviram a mesma palavra de Cristo: o problema do segundo foi a própria maldade, e não Deus. Sobre o tema, veja A soberania de Deus e o livre-arbítrio humano e Predestinação e livre-arbítrio: a tensão bíblica.
- Dois modos da vontade de Deus. Hubmaier distinguia a vontade absoluta de Deus, que está além do nosso alcance, da vontade ordenada, que Deus revelou e na qual quer a salvação de todos. Segundo Kirk MacGregor, a maioria dos eleitos o é pela previsão de Deus da sua resposta livre ao Evangelho. Esse é o ponto próximo do arminianismo, que ensina a eleição condicional, isto é, ligada à fé.
- Batismo de crentes. O batismo vem depois da fé, como testemunho público. Nisso coincidimos, como diz a nossa declaração de fé. Sobre o assunto, veja Batismo infantil: por que uns batizam bebês e outros não.
Há diferenças a registrar, sem polêmica. Segundo MacGregor, Hubmaier admitia que Deus elege alguns pela vontade absoluta, sem relação com a fé prevista, o que o arminianismo clássico não faz. Ele também aceitava que o cristão usasse a espada no governo e na justiça, o que o separava dos anabatistas pacifistas como Menno Simons. Sobre o movimento, veja Anabatistas: a terceira via da Reforma Protestante e Anabatistas de 1525: a Reforma Radical contra o Estado. Os estudiosos ainda discutem se ele deve ser chamado de anabatista.
Obras principais
As datas seguem a Wikipédia e o verbete da EBSCO.
- Dezoito Teses (Achtzehn Schlussreden), 1524.
- Sobre os hereges e os que os queimam, por volta de 1524, escrito em Schaffhausen, contra a morte de hereges pela espada e pelo fogo.
- Sobre o batismo cristão dos crentes, 1525.
- Sobre a liberdade da vontade, 1527, em dois folhetos.
- Sobre a espada, 1527.
A coletânea em inglês é Balthasar Hubmaier: Theologian of Anabaptism, traduzida por H. Wayne Pipkin e John Howard Yoder (1989).
Livros em português
Até onde pude verificar, ainda não há livros dele traduzidos para o português.
Para aprofundar
- Wikipédia, Balthasar Hubmaier, biografia e obras.
- EBSCO Research Starters, Balthasar Hubmaier, vida e escritos.
- Evangelical Arminians, Early Anabaptist theologian Balthasar Hubmaier on Prevenient Grace, com a citação de Sobre o livre-arbítrio e a comparação de Olson.
- Kirk R. MacGregor, Hubmaier’s Concord of Predestination with Free Will, Direction 35.2 (2006).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
- Teólogos Arminianos
- Personagens
- Arminianismo
- Anabatistas