
HistóriaTeólogos arminianos8 de 195
George Bryson: O pastor da Calvary Chapel que não quis ser chamado de calvinista nem de arminiano
Neste texto
- Vida
- Costa Mesa e o Shiloh
- Eugene e o rádio
- A missão na Rússia
- Os livros contra o calvinismo
- Os anos de conflito
- Pensamento
- Nem calvinista nem arminiano
- O sistema que fica de pé ou cai inteiro
- A fé vem antes do novo nascimento
- Eleição, cruz e graça que pode ser recusada
- Segurança eterna
- Obras principais
- Para aprofundar
Durante mais de dez anos, George Bryson apresentou um programa de rádio cristão com participação de ouvintes, o Scripturally Speaking (“Falando pelas Escrituras”). Num desses programas, um convidado calvinista discutia com um ouvinte arminiano se a Bíblia ensina a predestinação, e Bryson ficou do lado do convidado: ensina, sim. Os dois concluíram que o apresentador era calvinista, e ficaram confusos quando ele disse que não era. Bryson contou essa história na abertura de The Five Points of Calvinism (1996) porque ela resumia a tese que defenderia pelo resto do ministério: o que separa o calvinismo dos outros evangélicos é a sua definição de predestinação, e não o simples fato de afirmá-la. E quem recusa a definição calvinista, dizia ele, não precisa por isso aceitar o nome de arminiano.
Vida
Costa Mesa e o Shiloh
George L. Bryson se converteu em 1968 na Calvary Chapel de Costa Mesa, na Califórnia, pelo ministério de Chuck Smith. Era o tempo do Movimento de Jesus, com a igreja cheia de jovens vindos da contracultura. Bryson começou a trabalhar com a Calvary Chapel naquele mesmo ano e nunca saiu do movimento. Décadas depois, ainda se descrevia como “Calvary to the core”, Calvary até a medula.
Durante cerca de nove anos foi ministro itinerante de jovens no Shiloh, um braço da Calvary Chapel voltado para a contracultura, e chegou a ser um dos diretores desse ministério. O Shiloh nasceu de uma casa comunitária para jovens convertidos que John Higgins abriu em Costa Mesa com o apoio da igreja de Smith e levou depois para o Oregon. No começo de 1978 reunia cerca de 1.500 membros em 37 casas comunitárias e vinte igrejas, e muitos que passaram por ele foram depois pastores da Calvary Chapel e da Vineyard.
Eugene e o rádio
No fim dos anos 1970 Bryson fundou a Calvary Chapel de Eugene-Springfield, no Oregon, e foi o seu pastor titular. No começo dos anos 1980 acrescentou ao pastorado o Scripturally Speaking, programa diário de rádio com perguntas dos ouvintes. Ao mesmo tempo estudava: fez grego do Novo Testamento e hebraico bíblico e, mais tarde, cursos de pós-graduação em Novo Testamento e teologia sistemática.
Em 1991 publicou com o médico William L. Playfair The Useful Lie (“A mentira útil”, Crossway), uma crítica ao que os dois chamavam de indústria cristã da recuperação. Para eles, o alcoolismo e a dependência de drogas são pecados de comportamento, pelos quais a pessoa responde diante de Deus, e a igreja evangélica errava ao tratá-los como doenças.
A missão na Rússia
Em 1988 Bryson fez a primeira de muitas viagens à União Soviética. Depois de 1991 passou a ajudar a plantar e a acompanhar igrejas da Calvary Chapel na Rússia, na Ucrânia e em Belarus. Para isso fundou a Calvary Chapel Church Planting Mission (Missão de Plantação de Igrejas da Calvary Chapel), dedicada principalmente à Rússia, que continuou dirigindo nas décadas seguintes.
Um exemplo do trabalho é Omsk, na Sibéria. Max Gorbunov, intérprete em conferências cristãs, se converteu em março de 1996. No verão daquele ano Bryson foi a Omsk, e os dois passaram um dia conversando e orando sobre a abertura de uma Calvary Chapel na cidade. O primeiro culto aconteceu em 2 de março de 1997, e em julho de 2001 Gorbunov assumiu o pastorado da igreja.
A esposa de Bryson, Debbi, dirige um ministério de ensino bíblico para mulheres, o Bible Bus Stop Ministries, e os dois apresentam juntos um programa semanal sobre missões, The Field Report, na rede de satélite da Calvary Chapel.
Os livros contra o calvinismo
Em 1996 Bryson publicou The Five Points of Calvinism: Weighed and Found Wanting (“Os cinco pontos do calvinismo: pesados e achados em falta”, com a frase de Daniel 5:27) pela The Word for Today, a editora de Chuck Smith. Na primeira parte, explica cada um dos cinco pontos com as palavras de calvinistas como R. C. Sproul, Loraine Boettner e J. I. Packer; na segunda, responde a cada ponto pela Escritura. A Society of Evangelical Arminians publicou o livro inteiro no seu site, observando que o autor não se considera arminiano.
O segundo livro sobre o tema levou sete anos para ficar pronto. The Dark Side of Calvinism: The Calvinist Caste System (“O lado sombrio do calvinismo: o sistema de castas calvinista”) saiu em 2004 pela Calvary Chapel Publishing, com 398 páginas e prefácio de Chuck Smith, que o chamou de leitura obrigatória para quem já se debateu com o calvinismo. Resenhando o livro para a Grace Evangelical Society, Jeremy Myers o descreveu como uma obra “cheia de graça” e situou Bryson no campo da chamada teologia da graça livre (Free Grace).
Os livros o puseram diante do apologista reformado James White. Debateram em 2 de abril de 2002, na Vineyard de Anaheim, sobre a pergunta “Quem controla a salvação?”. Em dezembro de 2003 voltaram a se enfrentar, por três dias, no programa de rádio Bible Answer Man, de Hank Hanegraaff. Depois do programa, conta Bryson, vários sites reformados chamaram a sua posição de arminiana, semipelagiana e até pelagiana. Do debate ficou o conselho que Bryson repetia a White: “leia o meu livro”.
Os anos de conflito
Nos últimos anos de vida de Chuck Smith, Bryson mandava aos pastores do movimento uma série de artigos por e-mail chamada Stay the Course (“Mantenham o rumo”). Numa carta divulgada em 2012, chamou o pastor calvinista dentro do movimento de “cavalo de Troia” e pediu que nenhum calvinista ocupasse cargos de ensino nas igrejas. Em 20 de julho de 2013 reuniu pastores numa conferência na Calvary Chapel de Cypress para defender as marcas tradicionais do movimento. Smith morreu em 3 de outubro daquele ano. Em 12 de fevereiro de 2014 a Calvary Chapel Association avisou aos pastores que Bryson seguiria por um caminho próprio e que as igrejas que o acompanhassem teriam de mudar de nome. Bryson escreveu depois que a associação lhe deu “o pé esquerdo da comunhão”, invertendo a “destra de comunhão” de Gálatas 2:9.
Mesmo assim, não se afastou do movimento: “ainda me vejo no movimento Calvary Chapel”, escreveu em 2018. Quando as igrejas se dividiram entre a Calvary Chapel Association e a Calvary Global Network, Bryson se recusou a tomar partido e disse ter amigos antigos dos dois lados. E lembrava um e-mail de Smith de julho de 2013: “Nenhuma Calvary está acima ou abaixo de outra Calvary”.
Em 2016 começou a publicar a série The Biblical Doctrines of Grace (“As doutrinas bíblicas da graça”), planejada em cinco livros, e em 2017 A Calvary Chapel Statement of Faith, uma declaração de fé que, segundo ele, representa os pastores que trabalharam com Smith.
Pensamento
Nem calvinista nem arminiano
Classe: simpatizante. Bryson rejeita os cinco pontos do calvinismo e rejeita, com a mesma clareza, o nome de arminiano. Em The Dark Side of Calvinism afirmou conhecer o que Jacó Armínio cria, os artigos da Remonstrância e as correntes arminianas posteriores, sobretudo as que vêm de John Wesley, e disse discordar de todas as marcas distintivas dos dois sistemas. Chamava a própria posição de “biblicismo”. É a mesma linha de Chuck Smith, de Dave Hunt e de batistas como Adrian Rogers.
Ele próprio, porém, reconhece onde está ao lado dos arminianos. “Creio firmemente que os arminianos estão certos” sobre uma expiação que torna a salvação possível para todos e se aplica aos que creem, escreveu no mesmo livro. Nos temas debatidos no Sínodo de Dort, Bryson fica com os arminianos na eleição condicional, na expiação por todos e na graça que pode ser recusada, e também põe a fé antes do novo nascimento. Separa-se deles na perseverança, onde defende a segurança eterna.
O sistema que fica de pé ou cai inteiro
O argumento central dos dois livros parte de Loraine Boettner, para quem os cinco pontos formam um sistema tão unido que, se um deles for provado falso, o sistema inteiro cai. Bryson aceita a premissa: basta então mostrar pela Escritura que um ponto está errado. Em 2018 resumia: o calvinismo não é um bufê em que se escolhe o que agrada e se deixa o resto.
Daí o título do livro de 2004. O calvinismo tem um lado claro, a eleição incondicional de alguns para a vida, e um lado escuro, a reprovação incondicional dos outros. Para Bryson, um não existe sem o outro, como uma moeda não tem só uma face. Mesmo assim, chamava a discussão de assunto “de família”: considerava os calvinistas verdadeiros cristãos e os via como vítimas do sistema, e não como inimigos.
A fé vem antes do novo nascimento
Bryson insistiu sobretudo na ordem da salvação. Contra a tese calvinista de que a pessoa nasce de novo para depois crer, ele lê João 1:12-13: os que receberam Cristo, os que creram no seu nome, receberam o direito de ser feitos filhos de Deus. E João 20:31 diz que os sinais foram escritos para que, crendo, tenhamos vida. Se a fé vem para que haja vida, a vida não pode vir antes da fé, senão seria preciso “ter a vida para conseguir a vida”.
Isso não faz da fé uma obra. Bryson cita J. Gresham Machen, para quem a fé consiste em receber, e não em fazer alguma coisa, e conclui que a fé como condição da salvação não faz do crente um “cossalvador” nem lhe dá crédito algum. Também afirma que o pecador, deixado a si mesmo, não busca a Deus: sem a ajuda graciosa de Deus, quando o Pai atrai e o Espírito convence, ninguém viria a Cristo pela fé. Isso fica muito perto do que os arminianos chamam de graça preveniente, a graça que vem antes da fé, alcança todos e os torna capazes de crer.
A diferença em relação ao arminianismo clássico está na descrição do pecador. Armínio ensinou, na Declaração de Sentimentos, que a vontade caída está perdida para o bem e que a graça precisa libertá-la antes que a pessoa possa crer. Bryson rejeita a depravação total no sentido calvinista porque ela leva à regeneração antes da fé, e fala da obra do Espírito como ajuda e convencimento. O arminiano clássico concorda com ele sobre a ordem e acrescenta que a graça primeiro liberta uma vontade que estava morta.
Eleição, cruz e graça que pode ser recusada
A tese positiva de Bryson aparece em poucas linhas no blog, em 2018: Deus deseja que todos sejam salvos e determinou que todos podem ser salvos e serão, sob a condição de crer em Jesus Cristo. Cristo morreu de modo redentor e propiciatório “por todos os pecados de todos os pecadores” (1 João 2:2). A estrutura é a da eleição condicional em Cristo, sem o nome.
Contra a graça irresistível, Bryson usa o lamento de Jesus sobre Jerusalém (Mateus 23:37): se a cidade não quis porque não podia querer, a recusa deixaria de ser escolha. E liga tudo isso à evangelização: em The Dark Side of Calvinism sustenta que os calvinistas que evangelizam o fazem apesar do calvinismo. De Charles Spurgeon, diz que talvez cresse como calvinista, mas pregava como biblicista, oferecendo a salvação a todos.
Segurança eterna
O ponto em que Bryson se afasta dos arminianos é a perseverança. Ele afirma que todo crente verdadeiro está “absolutamente seguro em Cristo”, mas rejeita a doutrina calvinista da perseverança dos santos, que segundo ele mina a verdadeira segurança eterna. Perseverar, para Bryson, é o que o crente deve fazer, e não algo que fará de modo inevitável. Por isso Paulo exorta: “Como, pois, recebestes o Senhor Jesus Cristo, assim também andai nele” (Colossenses 2:6). Se a perseverança fosse automática, as exortações de João 15 e de 2 Pedro 1 seriam inúteis. Ele resume assim: o calvinismo tira do crente a certeza, e o arminianismo tira dele a segurança.
Aqui a distância em relação ao arminianismo clássico e à declaração de fé deste site é real. Armínio deixou a questão em aberto na Declaração de Sentimentos; os remonstrantes posteriores e Wesley afirmaram a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a fé pode ser abandonada (João 15:4-6; Hebreus 3:12-14). A apostasia, nesse ensino, é abandono da fé, e não perda da salvação a cada pecado, e a certeza vem do testemunho do Espírito (Romanos 8:16), como mostra o texto sobre a segurança da salvação no arminianismo. Também não procede a ideia de que os arminianos misturam justificação e santificação: Wesley disse que sobre a justificação não diferia de Calvino “nem um fio de cabelo”. Há ainda uma diferença na escatologia. Bryson defende o arrebatamento antes da tribulação, e a declaração de fé deste site é amilenista.
Obras principais
- The Useful Lie, com William L. Playfair (Crossway, 1991)
- The Five Points of Calvinism: Weighed and Found Wanting (The Word for Today, 1996)
- The Dark Side of Calvinism: The Calvinist Caste System (Calvary Chapel Publishing, 2004)
- The Person and Purpose of God’s Saving Grace, volume 1 da série The Biblical Doctrines of Grace (CreateSpace, 2016)
- The Provision and Proclamation of God’s Saving Grace, da série The Biblical Doctrines of Grace (CreateSpace, 2016)
- A Calvary Chapel Statement of Faith (CreateSpace, 2017)
Para aprofundar
- George L. Bryson, About the author e Books, blog Scripturally Speaking.
- George L. Bryson, The Five Points of Calvinism: “Weighed and Found Wanting”, texto completo publicado pela Society of Evangelical Arminians (2013).
- George L. Bryson, The Dark Side of Calvinism, edição digital no SermonIndex.
- Chuck Smith, Foreword to The Dark Side of Calvinism, reproduzido no blog Scripturally Speaking (2018).
- George L. Bryson, The Biblical Doctrines of Grace, The Calvinism of Calvin, Calvary Chapel Movement e CCA and CGN, blog Scripturally Speaking (2018).
- The Person and Purpose of God’s Saving Grace, ficha e nota biográfica no Google Livros.
- Jeremy D. Myers, resenha de The Dark Side of Calvinism, Grace Evangelical Society.
- David Tabb Stewart, Shiloh Youth Revival Centers, World Religions and Spirituality Project.
- Calvary Chapel Antelope Valley, Omsk, Russia.
- Calvary Grapevine, George and Debbie Bryson.
- James White, sobre o debate na Vineyard de Anaheim e The famous “Read My Book” debate on Calvinism now on mp3, Alpha and Omega Ministries.
- George Bryson’s Letter to Calvary Chapel Pastors, School of Fish (2012).
- Daniel Silas, George Bryson & Calvary Chapel, Hold the Line (2014).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
- Teólogos Arminianos
- Personagens