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HistóriaTeólogos arminianos20 de 176

Donald M. Lake: O professor de Wheaton que defendeu que Cristo morreu por todos

Diego Gonçalves12 min de leitura2.366 palavras

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Neste texto

Em setembro de 1955 um rapaz criado numa fazenda do Missouri chegou ao campus do Wheaton College, em Illinois, para estudar a Bíblia. Donald Max Lake ficaria ligado a essa escola por boa parte da vida: ali se formou, ali voltou como professor em 1970 e ali ensinou teologia por trinta anos. Vinte anos depois de chegar como calouro, numa das faculdades mais associadas ao evangelicalismo americano, ele assinou dois capítulos do livro que reuniu a defesa evangélica do arminianismo nos anos 1970, Grace Unlimited (“Graça ilimitada”). Num deles sustentou que Cristo morreu por todos os seres humanos; no outro, apresentou Jacó Armínio como modelo de pastor e de professor cristão.

Vida

Do Missouri a Wheaton

Donald Max Lake nasceu em 1937 e cresceu no campo, no Missouri; ele mesmo se descrevia como “um menino de fazenda do Missouri”. Em Wheaton cursou a graduação em Bíblia, concluída em 1959, e no ano seguinte o mestrado em teologia do Novo Testamento. A ordem dos estudos diz algo do teólogo que ele se tornou: primeiro o texto bíblico, depois a história da doutrina.

Lake também foi pastor e serviu igrejas no Missouri, em Iowa e em Illinois. Fez o doutorado em teologia histórica na Universidade de Iowa, concluído em 1967. A teologia histórica estuda como a igreja entendeu e formulou as suas doutrinas ao longo dos séculos, e foi por esse caminho que Lake chegou a Armínio e aos debates do século XVII sobre a graça e a predestinação.

Trinta anos de cátedra

Em 1970 Lake voltou a Wheaton, agora como professor do departamento de teologia, onde ficou até 2000. Aposentou-se como professor associado de teologia e recebeu o título de emérito. Era membro da Evangelical Theological Society, a associação dos teólogos evangélicos conservadores dos Estados Unidos, e da American Academy of Religion, a maior associação acadêmica de estudos de religião do país. No ano letivo de 1993-1994 tirou licença sabática para ler e escrever sobre a teologia do Novo Testamento, o campo do seu mestrado.

A maior parte da sua produção escrita foi para obras de referência. Lake escreveu mais de quarenta verbetes para dicionários e enciclopédias, entre eles o New International Dictionary of the Christian Church (1974), organizado por J. D. Douglas, e a Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Bible (1975), em cinco volumes, organizada por Merrill C. Tenney.

Pastor fora da sala de aula

A vida de Lake não ficou restrita à academia. Além dos pastorados, ele dirigiu a King’s Partners International, um programa cristão de moradia. Casou-se com Kristen, e os dois tiveram três filhos e uma filha.

No outono de 1994 a revista dos ex-alunos de Wheaton publicou, numa série em que os professores escreviam sobre o que ocupava a sua mente, um ensaio dele sobre o aprendizado. O texto voltou a circular em 2012, no blog do arquivo da faculdade, com o título “Learning as Integration” (“O aprendizado como integração”). Ali Lake lembra que os alunos esquecem quase tudo o que ouvem em aula: a palestra, o livro, a ideia que parecia decisiva. Mesmo assim, saem mudados. “O esquecimento é uma das dimensões mais incômodas, e também mais valiosas, do nosso ser”, escreveu. Para ele, a mente integra o que vê e ouve, mistura as ideias, os fatos, o estilo do professor e o conteúdo do curso, e incorpora tudo à pessoa, como o leite homogeneizado, em que já não se separa a nata. O resultado duradouro de todo aprendizado é a mudança.

Daí ele tirava uma pergunta que fazia diante de cada turma: “Como eu quero mudar estes alunos?”. Queria pensar no ensino como formação do caráter, mais do que como transmissão de matéria. Criticava a escola que reduz o saber a decorar informação e devolvê-la na prova, e se preocupava com as exigências de credenciamento que empurravam as faculdades cristãs para a uniformidade. Para ilustrar, lembrava que Jesus foi um mestre que não se conformou aos padrões do seu tempo.

Donald Lake morreu em 28 de fevereiro de 2017, aos 80 anos.

Pensamento

Classe: arminiano clássico. Lake escreveu dois dos treze capítulos de Grace Unlimited (1975), o livro em que Clark Pinnock reuniu teólogos evangélicos para defender a universalidade da graça contra a eleição incondicional e a expiação limitada. Defendeu ali a expiação universal, que é o segundo artigo da Remonstrância de 1610, e apresentou Armínio como modelo para a igreja do seu tempo. A Society of Evangelical Arminians o inclui entre os estudiosos arminianos que escreveram nas coletâneas de Pinnock.

O livro de 1975

Grace Unlimited saiu pela Bethany Fellowship, de Minneapolis, e foi reimpresso mais tarde pela Wipf and Stock. Ao lado de Lake escreveram Vernon Grounds, sobre a graça salvadora universal de Deus, Jack W. Cottrell, sobre a eleição condicional, David J. A. Clines, sobre a predestinação no Antigo Testamento, I. Howard Marshall, sobre a predestinação no Novo Testamento, e A. Skevington Wood, sobre John Wesley. O livro foi lido também do outro lado. D. A. Carson, então um jovem professor calvinista, resenhou-o em 1977 no Journal of the Evangelical Theological Society e na revista britânica Themelios, reconhecendo o esforço acadêmico e acusando os autores de explicar de outro modo os textos bíblicos sobre a eleição.

“Ele morreu por todos”

O capítulo de Lake sobre a expiação tem por título “He Died for All: The Universal Dimensions of the Atonement” (“Ele morreu por todos: as dimensões universais da expiação”). A expiação é a obra de Cristo na cruz pela qual o pecado é perdoado e o pecador reconciliado com Deus. A pergunta do capítulo é por quem Cristo a realizou. A tradição calvinista que se fixou no Sínodo de Dort responde que a cruz foi destinada a salvar só os eleitos, a chamada expiação limitada. Os arminianos respondem que Cristo morreu por todos, embora só os que creem recebam o perdão.

Lake começa pela experiência pastoral. “Recém-convertidos e não poucos leigos ficam perplexos”, escreve, quando descobrem que alguns teólogos ensinam que a obra de Cristo é limitada na sua eficácia, isto é, que ela só produz efeito para os eleitos (Grace Unlimited, p. 31). Para ele, o alcance universal da morte, da ressurreição e do sacerdócio de Cristo no Novo Testamento é claro a ponto de parecer óbvio demais para ser questionado, e a tese contrária se apoia “mais em racionalização teológica do que em apoio bíblico”. Os acontecimentos da redenção produziram uma salvação “tão extensa, tão ampla”, que pode potencialmente incluir toda a humanidade (p. 31). A palavra “potencialmente” é importante: Lake não ensina que todos serão salvos, mas que a salvação foi providenciada para todos e oferecida a todos.

Daí vem a consequência que Carson discutiu na resenha. Se Cristo pagou pelos pecados de todos, ninguém é condenado pelos pecados em si, mas pelo pecado de rejeitar a Cristo como Salvador. Carson objetou que, nesse caso, as listas de pecados com que Paulo descreve os que não herdarão o reino de Deus perderiam a força.

É a doutrina que este site defende em expiação: satisfação penal e alcance universal: Cristo morreu por todos (1 Timóteo 2:4-6; Hebreus 2:9; 1 João 2:2), a cruz é suficiente para todos e eficaz para os que creem. A Society of Evangelical Arminians usa o texto de Lake justamente para explicar essa fórmula.

Os que nunca ouviram

A parte mais citada do capítulo trata de uma pergunta antiga: o que acontece com quem morre sem ter ouvido o evangelho? Lake propôs uma resposta a partir da presciência de Deus, o conhecimento que Deus tem de antemão de tudo o que vai acontecer. Deus, escreveu ele, “sabe quem creria no evangelho em circunstâncias ideais e, com base nessa presciência, aplica esse evangelho mesmo que a pessoa nunca o ouça durante a vida” (p. 43).

O teólogo John Sanders classifica essa resposta como uma aplicação da ciência média. O termo vem do jesuíta Luis de Molina, no século XVI, e indica o conhecimento que Deus tem não só do que vai acontecer, mas do que cada pessoa faria livremente em qualquer situação possível. Na leitura de Sanders, a proposta de Lake é a única entre as posições exclusivistas, as que afirmam que só se é salvo por Cristo, que dispensa uma profissão de fé feita nesta vida. A ideia continua em discussão: uma tese de doutorado da Liberty University sobre os “contingentemente perdidos”, os que se perderiam só por terem nascido onde o evangelho não chegou, examina a teodiceia de Lake ao lado da de Jerry Walls. Teodiceia é a defesa da justiça de Deus diante do mal e do sofrimento.

O uso da ciência média tem antecedentes no próprio arminianismo. Eef Dekker, Keith Stanglin e Thomas McCall sustentam que Armínio conhecia e usava essa noção. William Lane Craig, que escreveu na segunda coletânea de Pinnock, desenvolveu depois uma resposta molinista ao mesmo problema. Mas a proposta de Lake se afasta da declaração de fé deste site num ponto. O site afirma que são salvas as pessoas “unidas a Cristo pela fé”, e o arminianismo clássico entende que a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana, alcança todas as pessoas, inclusive por caminhos que não passam pela pregação (graça preveniente em Armínio). Nessa linha, quem nunca ouviu continua sendo alcançado pelo Espírito e chamado a responder à luz que recebeu. Lake, em vez disso, faz a salvação dessas pessoas depender de uma fé que elas teriam em outras circunstâncias.

Armínio, o pastor

O segundo capítulo de Lake, “Jacob Arminius’ Contribution to a Theology of Grace” (“A contribuição de Jacó Armínio para uma teologia da graça”), abre com um diagnóstico: “poucos líderes da Igreja cristã foram mais negligenciados” do que esse teólogo e pastor do século XVI. Lake via três razões para lê-lo no fim do século XX. Armínio viveu a fé nas lutas diárias da igreja, como pastor e não só como professor. Não se retirou das questões sociais e políticas do seu tempo, uma época que levou ao Sínodo de Dort (1618-1619) e viu começar a Guerra dos Trinta Anos. E a sua vida pessoal, mesmo marcada por tragédia, incompreensão e controvérsia, servia de exemplo a cristãos, sobretudo a teólogos e professores.

Lake lembra o pastor de Amsterdã que pregou durante anos a Carta aos Romanos. Foi dessa pregação que saíram as suas posições sobre a predestinação e a natureza humana, e foram os sermões sobre Romanos 7 e Romanos 9 que lhe trouxeram os primeiros problemas sérios. Lake destaca também o pastor que visitava os doentes e os que se desviavam, celebrava casamentos e, durante a peste, arriscou a vida para levar água a cada membro de uma família doente. Quanto ao método, Lake escreve que Armínio “sempre começa pelo começo”: não aceitava uma interpretação só porque era a recebida, voltava ao texto, consultava os pais da igreja e os grandes teólogos, e isso irritava os colegas calvinistas. O seu cuidado com a verdade, diz Lake, o levava “a questionar tudo”, e as questões que levantou “sobreviveram muito a ele”. Lake recusa ainda a acusação de que Armínio seria o pai do humanismo e do secularismo modernos.

O retrato combina com o que Lake disse sobre o ensino em 1994. O Armínio dele é um teólogo que forma pessoas, e o professor que ele quis ser também.

Obras principais

  • Verbetes no New International Dictionary of the Christian Church, org. J. D. Douglas (Zondervan, 1974).
  • Verbetes na Zondervan Pictorial Encyclopedia of the Bible, org. Merrill C. Tenney, 5 volumes (Zondervan, 1975).
  • “He Died for All: The Universal Dimensions of the Atonement”, em Clark H. Pinnock (org.), Grace Unlimited (Bethany Fellowship, 1975), p. 31-50.
  • “Jacob Arminius’ Contribution to a Theology of Grace”, em Clark H. Pinnock (org.), Grace Unlimited (Bethany Fellowship, 1975), p. 223-242.
  • “Learning as Integration”, Wheaton Alumni, outono de 1994.

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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