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Eric Hankins: O pastor batista que escreveu a Declaração Tradicional e recusa o rótulo de arminiano
No fim de 2012, o diácono emérito Sylvester Moorhead entregou ao seu pastor uma cópia das atas da junta diaconal de 1968. A Primeira Igreja Batista de Oxford, no Mississippi, tinha votado em abril daquele ano, contra a entrada de negros nos seus cultos. O pastor, Eric Hankins, só então leu a história inteira. Pregou sobre arrependimento coletivo a partir de 2 Samuel 21, onde Davi repara a quebra da aliança que Saul, já morto, tinha feito com os gibeonitas. Em 21 de julho de 2013, mais de seiscentos membros votaram a favor de uma resolução que declarava “totalmente pecaminoso” o voto de 1968, contra quatro votos contrários. A Segunda Igreja Batista da cidade, uma congregação negra, aceitou o pedido de perdão. Um ano antes, o mesmo pastor tinha escrito o texto que deu nome ao movimento “tradicionalista” entre os batistas do Sul dos Estados Unidos.
Vida
Do sudoeste da Louisiana a Fort Worth
Eric Hankins cresceu no sudoeste da Louisiana, filho de David e Patty Hankins, e tem dois irmãos, Andy e Adam. O pai foi pastor no Texas e, a partir de 1985, da Trinity Baptist Church, em Lake Charles; depois serviu no Comitê Executivo da Convenção Batista do Sul e, de 2005 a 2019, dirigiu a Convenção Batista da Louisiana.
Eric sentiu o chamado para o ministério aos 18 anos. Formou-se em religião no Louisiana College, em Pineville, em 1994, e fez o mestrado em Divindade, com ênfase nas línguas bíblicas, no New Orleans Baptist Theological Seminary, em 1997. Trabalhou com jovens e foi pastor da Gillsburg Baptist Church, no Mississippi, de 1997 a 2000, e pastor titular da Galloway Avenue Baptist Church, em Mesquite, no Texas, de 2000 a 2005. Enquanto pastoreava, fez o doutorado em teologia no Southwestern Baptist Theological Seminary, em Fort Worth, concluído em 2007. É casado com Janet, e o casal tem três filhos.
Oxford
Em 2005 assumiu a Primeira Igreja Batista de Oxford. Ali ajudou a fundar a One8, uma rede de igrejas batistas do Mississippi e dos estados vizinhos dedicada a plantar igrejas, e fez parte da sua liderança.
Em 2011, num número do Journal for Baptist Theology and Ministry, do seminário de Nova Orleans, Hankins abriu o seu artigo com uma tese ousada: “Depois de quatrocentos anos, o calvinismo e o arminianismo continuam num impasse.”
Desse artigo saiu, em 30 de maio de 2012, “Uma declaração da compreensão batista do Sul tradicional do plano de salvação de Deus”, conhecida como Declaração Tradicional. O preâmbulo apontava o motivo: o avanço do Novo Calvinismo, movimento que, segundo o texto, queria fazer dos cinco pontos do calvinismo a posição central da convenção. O documento tem dez artigos, cada um com uma afirmação e uma negação, e foi publicado no site SBC Today. Em meados de junho já tinha mais de 650 assinaturas, entre elas as de seis ex-presidentes da convenção e de dois presidentes de seminário, como Jerry Vines e Paige Patterson. Em 2017 eram cerca de 1.200.
A reação veio dos dois lados. Albert Mohler, presidente do seminário de Louisville e calvinista, e o arminiano Roger Olson escreveram que partes do texto soavam semipelagianas. Hankins, então com 40 anos, disse à Christianity Today que a linguagem da declaração incomodava calvinistas e arminianos “não porque seja heterodoxa, mas porque a terminologia e as categorias deles não são empregadas”.
Em junho de 2012 Hankins disputou a segunda vice-presidência da convenção e perdeu no segundo turno. Em agosto, Frank Page, presidente do Comitê Executivo, chamou-o para o grupo consultivo que deveria encontrar uma forma de calvinistas e não calvinistas trabalharem juntos em missões e evangelização. Ali estavam também Mohler, Patterson e David L. Allen. O relatório unânime, “Verdade, confiança e testemunho num tempo de tensão”, saiu em maio de 2013 e foi apresentado à convenção em Houston, em junho. Hankins foi um dos seus principais redatores. O texto pedia aos batistas que concedessem uns aos outros liberdade nesses pontos e se unissem pela Grande Comissão.
Com Adam Harwood e Allen, organizou dois números do Journal for Baptist Theology and Ministry que comentam a declaração artigo por artigo. Escreveu o ensaio sobre a “salvabilidade” e o comentário sobre a eleição; o pai comentou o primeiro artigo.
Em 7 de novembro de 2013, Mohler o convidou para pregar na capela do Southern Baptist Theological Seminary e para uma conversa pública sobre o calvinismo diante de alunos e professores. Hankins contou que um amigo o avisara antes da publicação: “os calvinistas vão te despedaçar”. Disse que houve “feiura demais” no debate e, quando Mohler lembrou que isso valia para os dois lados, concordou sem reservas. No fim, ambos afirmaram que a Fé e Mensagem Batista de 2000, a confissão da convenção, era larga o bastante para os dois grupos.
Fairhope
No fim de 2016 Hankins deixou Oxford para pastorear a Primeira Igreja Batista de Fairhope, no Alabama. No mesmo ano saiu Anyone Can Be Saved (“Qualquer um pode ser salvo”), organizado por ele, Allen e Harwood, em defesa dos dez artigos da declaração. A edição brasileira, Todos podem ser salvos, saiu em 2020 pela Verbum, com recomendação de Thiago Titillo.
Em 13 de junho de 2017, em Phoenix, Hankins fez o discurso principal no banquete da Connect316, a associação de batistas tradicionalistas, nos cinco anos da declaração. Chamou a posição do grupo de “oposição leal” ao avanço do calvinismo e disse que os tradicionalistas, “embora sejamos a maioria teológica na convenção, somos a minoria em liderança e influência”. Sugeriu emendar a Fé e Mensagem Batista para deixar “cristalino” o amor de Deus por todos e a morte de Cristo pelos pecados de todos. Em 2023 integrava o conselho editorial do Journal for Baptist Theology and Ministry, e continua à frente da igreja de Fairhope.
Pensamento
Nem calvinista, nem arminiano
Classe: simpatizante. Hankins rejeita os pontos centrais do calvinismo, mas recusa de forma expressa o nome de arminiano. Na conversa com Mohler, em 2013, rejeitou o termo, entre outros motivos, porque o arminianismo nega a segurança eterna do crente. Detesta o termo “não calvinista” e propôs “tradicionalista” para dizer que a soteriologia batista do Sul sempre teve com o calvinismo uma relação de apreço e de crítica. Ele liga essa tradição a nomes como E. Y. Mullins, Herschel Hobbs, W. A. Criswell e Adrian Rogers, e hoje a mesma corrente também se chama provisionismo. No artigo de 2011 resumiu a atitude: diante dos dois sistemas, “nós simplesmente afirmamos que somos ‘nenhum dos dois’”.
Os quatro pressupostos
No artigo de 2011, Hankins aponta quatro pressupostos que calvinistas e arminianos compartilham e que, para ele, explicam o impasse.
O primeiro é bíblico: a eleição individual. Quando a Bíblia fala da eleição para a salvação, diz ele, refere-se sempre a um povo, e quando fala da escolha de um indivíduo, trata da vocação dele dentro do plano de Deus. A aliança com Israel foi oferecida à nação inteira, mas o israelita que andasse na dureza do próprio coração seria separado do povo (Deuteronômio 29:18-21). Daí a conclusão mais forte do texto: Agostinho, Calvino e Armínio “simplesmente erraram” ao construir a eleição de indivíduos, uns sem levar em conta a fé, o outro com base na fé prevista.
O segundo é filosófico: a oposição entre determinismo e livre-arbítrio. Para Hankins, Deus governa, soberano, um mundo em que a vontade humana livre é uma das forças que ele mesmo criou, e conhece desde a eternidade todos os atos livres sem causá-los. Por isso pede aos batistas que troquem a linguagem do “compatibilismo” e do “mistério” por um libertarismo moderado: a vontade, limitada por muitas circunstâncias, ainda escolhe entre opções reais.
O terceiro é teológico: a teologia federal, a ideia de um pacto de obras com Adão cuja culpa seria imputada a toda a descendência. Para Hankins, Adão foi chamado a confiar em Deus e a aceitar a sua aliança (Gênesis 1:26-28), e a aliança em Cristo é o ponto da Bíblia desde o começo, e não um “plano B”.
O quarto é antropológico: a depravação total, entendida como incapacidade completa de responder a Deus. Hankins afirma que todos são pecadores, incapazes de mudar o rumo da própria rebelião e de pagar a sua dívida. Mas nega que o pecado de Adão tenha tirado de alguém a capacidade de responder com fé. Ninguém crê, escreve, sem a revelação especial de Deus em Cristo e sem a atração do seu Espírito; e quem ouve o evangelho no poder do Espírito pode recebê-lo.
Salvabilidade e eleição
No ensaio de 2012 ele deu nome à convicção que une a declaração: savability, “salvabilidade”. Qualquer pessoa que ouve o evangelho é objeto da ação salvadora do Espírito e pode responder com arrependimento e fé, ou com rebeldia e incredulidade. A palavra, explica, “não fala da capacidade de alguém salvar a si mesmo (o próprio termo é fundamentalmente passivo), mas da capacidade de Deus de salvar qualquer um”.
No comentário sobre a eleição, propõe cinco traços. A eleição é pactual, porque serve à promessa de Deus de abençoar todas as nações por meio de Abraão (Gênesis 12:1-3); cristocêntrica, porque Cristo é o Eleito e os crentes são escolhidos nele (Efésios 1:4); categórica, porque a decisão de ter um povo é só de Deus e não depende de nenhum mérito previsto; concorrente, porque a soberania de Deus e a resposta humana são verdadeiras ao mesmo tempo; e coletiva, porque o objeto da eleição é um povo, do qual o indivíduo passa a fazer parte pela união com Cristo pela fé. Em Romanos 9-11, Paulo trata de judeus e gentios, e o argumento termina com Deus querendo “usar de misericórdia para com todos” (Romanos 11:32).
Aqui a proximidade com a teologia arminiana é real. A eleição em Cristo e a leitura coletiva da eleição de Brian Abasciano dizem quase o mesmo. A declaração também afirma a substituição penal de Cristo pelos pecados de todos, uma graça que toma “toda a iniciativa” e pode ser resistida, uma fé que não é obra meritória e a regeneração que acompanha a fé, e não vem antes dela. Em todos esses pontos o arminianismo clássico concorda.
Onde ele se afasta do arminianismo clássico
A distância aparece em quatro lugares, e o próprio Hankins a marca.
Em primeiro lugar, a graça preveniente. Em 2011 ele a chamou de especulação, um dos “fatores de ajuste” criados para sustentar a síntese de Agostinho. O artigo 2 da declaração nega que o pecado de Adão tenha incapacitado o livre-arbítrio de qualquer pessoa. Armínio ensinou o contrário. Na Declaração de Sentimentos (1608), o homem caído não é capaz, por si mesmo, de pensar, querer ou fazer o bem, e só a graça preveniente, obra sobrenatural do Espírito que vem antes de qualquer resposta, liberta a vontade para crer. Foi essa a objeção de Olson em 2012, que pediu que a frase sobre a vontade fosse apagada. Hankins atribui a iniciativa a Deus, pela pregação e pela atração do Espírito; o arminiano clássico responde que isso não basta sem uma graça que primeiro liberte a vontade.
Em segundo lugar, o alcance dessa ação. Hankins liga a ação salvadora do Espírito à pregação; Armínio e Wesley ensinaram que a graça preveniente alcança todas as pessoas, também antes da pregação e além dela.
Em terceiro lugar, o pecado original. A declaração nega que alguém seja culpado antes de pecar pessoalmente, e Hankins lê Romanos 5:12-21 como uma passagem sobre a morte física e a vida eterna, e não sobre a culpa herdada. A nossa declaração de fé diz que “todos nascemos pecadores e sob a justa condenação de Deus”, incapazes de fazer qualquer coisa para nos salvar (ver o pecado original e a depravação total na teologia arminiana).
Em quarto lugar, a segurança. O artigo 9 nega até a possibilidade da apostasia, e foi isso que Hankins citou para recusar o nome de arminiano. Desde a Remonstrância, os arminianos ensinam a perseverança condicional: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a fé pode ser abandonada.
Hankins também quer sair da grade “monergismo ou sinergismo”. Admite que, nessas categorias, a sua posição seria sinergista, mas prefere falar em “confiança”, “rendição” e “relacionamento”: ninguém pode fazer nada para se salvar, e ninguém é salvo contra a própria vontade.
Obras principais
- “Beyond Calvinism and Arminianism: Toward a Baptist Soteriology”, Journal for Baptist Theology and Ministry 8.1 (2011).
- “A Statement of the Traditional Southern Baptist Understanding of God’s Plan of Salvation” (2012), a Declaração Tradicional.
- “Savability: Southern Baptists’ Core Soteriological Conviction and Contribution”, Journal for Baptist Theology and Ministry 9.2 (2012).
- “Commentary on Article 6: The Election to Salvation”, Journal for Baptist Theology and Ministry 9.2 (2012).
- Anyone Can Be Saved: A Defense of “Traditional” Southern Baptist Soteriology (Wipf & Stock, 2016), organizado com David L. Allen e Adam Harwood.
Livros em português
- Todos podem ser salvos (Verbum, 2020), organizado com David L. Allen e Adam Harwood. Ver na Amazon
Para aprofundar
- Eric Hankins, “Beyond Calvinism and Arminianism: Toward a Baptist Soteriology”, Journal for Baptist Theology and Ministry 8.1 (2011).
- Eric Hankins, “Savability”, o texto integral da Declaração Tradicional e o comentário sobre o artigo 6, Journal for Baptist Theology and Ministry 9.2 (2012).
- Weston Gentry, “As Baptists Prepare to Meet, Calvinism Debate Shifts to Heresy Accusation”, Christianity Today (2012).
- Roger E. Olson, “Is an Anti-Calvinist Statement by SBC Leaders Actually Semi-Pelagian?”, republicado do blog do autor (2012).
- Biblical Recorder, “Lino, Miller snag first, second VP elections” (2012).
- Michael Foust, “Page names advisory team on Calvinism”, Baptist Press (2012).
- Roger S. Oldham, “Calvinism report 9 months in process”, Baptist Press (2013).
- David Roach, “Mississippi church seeks racial reconciliation”, SBC Life (2013).
- WCBI, “An Oxford pastor apologizes for a 1968 vote that banned African Americans” (2013).
- Baptist Press, “Calvinism: Mohler, Hankins hold ‘conversation’” (2013), e a gravação da conversa em AlbertMohler.com.
- The Alabama Baptist, “Eric Hankins” (2016).
- David Roach, “Connect316 honors Steve Gaines with Jerry Vines Award”, Baptist Press (2017).
- Baptist Message, “Friends, family celebrate David Hankins’ leadership”, Baptist Press (2019).
- First Baptist Church Fairhope, página da equipe pastoral.
- Verbum Publicações, página de Todos podem ser salvos.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
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- Personagens
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