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HistóriaTeólogos arminianos22 de 176

Donald Stamps: o missionário que escreveu as notas da Bíblia de Estudo Pentecostal

Diego Gonçalves13 min de leitura2.565 palavras

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Neste texto

No começo dos anos 1980, um missionário americano que servia às Assembleias de Deus no Brasil viu que o avivamento abria congregações mais depressa do que as igrejas conseguiam formar pastores, e que muitos dos novos obreiros eram jovens e sem estudo teológico. Para eles, Donald Carrel Stamps começou a escrever um pequeno manual de teologia. O manual cresceu até virar notas para a Bíblia inteira. Stamps trabalhou nelas por cerca de dez anos, nos últimos já doente de câncer, e morreu em novembro de 1991, cerca de um mês depois de entregar o trabalho. A obra saiu em inglês como The Full Life Study Bible e no Brasil, em 1995, como Bíblia de Estudo Pentecostal, que se tornou a Bíblia de estudo mais vendida do país.

Vida

Da gangue à conversão

Donald Stamps nasceu em 10 de novembro de 1938, em Oklahoma City, nos Estados Unidos. Na adolescência entrou para uma gangue e, aos 14 anos, foi preso por violência e vandalismo, o que trouxe muito sofrimento aos pais. A conversão aconteceu na Igreja Batista do Livre-Arbítrio de Capitol Hill, no sul de Oklahoma City. Os batistas do livre-arbítrio (Free Will Baptists) são a ala batista que rejeita a eleição incondicional e ensina que o crente pode cair da graça, de modo que Stamps nasceu para a fé num ambiente arminiano. Pouco depois, por influência de dois amigos que tinha feito na igreja, passou a frequentar a Igreja do Nazareno, uma denominação do movimento de santidade, herdeira da teologia de John Wesley.

Em 1958, aos 20 anos, sentiu o chamado para as missões. Em 1960 entrou no curso de Teologia do Bethany Nazarene College, a faculdade nazarena de Bethany, vizinha de Oklahoma City, onde se formou em 1964. No ano seguinte começou o mestrado e escreveu a dissertação sobre o crescimento da igreja no Brasil.

O Brasil e o pentecostalismo

O Brasil entrou na vida dele por um livro. William R. Read, missionário presbiteriano e estudioso do crescimento de igrejas, publicou em 1965 New Patterns of Church Growth in Brazil, e ali afirmou que o futuro do evangelismo no país pertencia às Assembleias de Deus, a igreja fundada em Belém do Pará pelos suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren. Stamps leu também A Cruz e o Punhal, de David Wilkerson, e ouviu no Seminário Teológico Nazareno, em Kansas City, uma série de palestras sobre o avivamento pentecostal brasileiro. Essas leituras confirmaram o chamado e o levaram às doutrinas pentecostais. Numa Assembleia de Deus de Kansas City, ele buscou e recebeu o batismo no Espírito Santo.

Stamps se casou com Linda Kathleen Sodowsky, com quem teve três filhos. Em 1971 a Igreja do Nazareno o enviou ao Brasil como missionário. Ele ficou apenas 14 meses no campo e foi chamado de volta, porque defendia as doutrinas pentecostais, e o falar em línguas era uma prática estranha à tradição nazarena. Em 1978 Linda também foi batizada no Espírito Santo, e no mesmo ano a família passou para as Assembleias de Deus. Em 1980 voltaram ao Brasil, desta vez como missionários das Assembleias de Deus dos Estados Unidos. O pastor Antonio Gilberto, que se tornaria o grande professor da Escola Dominical assembleiana, o ajudou com o português e o apresentou à liderança pentecostal do país.

Uma Bíblia para os pastores do avivamento

Em 1980 Stamps começou o manual de teologia para os jovens pastores e, encorajado por outros, passou a escrever notas e estudos para uma Bíblia de estudo inteira, escrita do ponto de vista pentecostal. Loren Triplett, das missões estrangeiras das Assembleias de Deus americanas, apoiou o projeto, e em 1983 a Divisão de Missões Estrangeiras o aprovou como projeto mundial, para ser traduzido em muitas línguas. J. Wesley Adams entrou na equipe e escreveu as introduções aos livros bíblicos. O trabalho contou ainda com a colaboração de teólogos pentecostais como William Menzies e Stanley Horton.

Stamps terminou as notas do Novo Testamento em 1989, e a Zondervan publicou o Full Life Study Bible: New Testament, com o texto da New International Version, em 1990. Quando recebeu o diagnóstico de câncer, continuou escrevendo. Concluiu as notas do Antigo Testamento, terminando por Malaquias, e as entregou para publicação. Morreu em 7 de novembro de 1991, três dias antes de completar 53 anos.

A Bíblia depois do autor

A Bíblia completa saiu nos Estados Unidos em 1992. Em 1993 veio a edição em espanhol e, em 1995, a brasileira, pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), com o texto da Almeida Revista e Corrigida e Antonio Gilberto como editor. No Brasil ela passou de um milhão de exemplares.

Em 1996 a liderança missionária das Assembleias de Deus confiou o projeto à Life Publishers International, que passou a produzir as edições em outras línguas. No caminho a obra virou Life in the Spirit Study Bible e, por fim, Fire Bible, nome que lhe deram os crentes da China continental. Em 2013 saiu a edição alemã, a Stamps Studienbibel, e hoje a Fire Bible existe em mais de sessenta línguas. A vida de Stamps foi contada por Bob Burke e David Womack em Push Back the Darkness (1995), com prefácio de Loren Triplett, então diretor executivo das Missões Estrangeiras das Assembleias de Deus, publicado no Brasil pela CPAD como Repreendendo as Trevas.

Pensamento

Pentecostal arminiano

Donald Stamps foi um pentecostal arminiano. Converteu-se entre batistas do livre-arbítrio, formou-se entre nazarenos wesleyanos e serviu às Assembleias de Deus, e as três tradições rejeitam a eleição incondicional e a graça irresistível. A prova mais clara está na própria Bíblia de Estudo Pentecostal, no estudo “Eleição e predestinação”, escrito para Efésios 1:4-5. A Society of Evangelical Arminians reproduz esse artigo como um resumo arminiano da doutrina e põe Stamps entre os autores arminianos.

O artigo começa pela pessoa de Cristo. “A eleição é cristocêntrica”, escreve Stamps, e “ninguém é eleito sem estar unido a Cristo pela fé”. O próprio Cristo é o primeiro eleito de Deus (Mateus 12:18), e a eleição tem por fundamento o sangue dele derramado na cruz. Em seguida, Stamps explica que a eleição é, em primeiro lugar, coletiva: Deus escolheu um povo, o corpo de Cristo, e o indivíduo participa dessa escolha quando se une a esse corpo pela fé. Aqui ele cita expressamente Elect in the Son, de Robert Shank, o batista que defendeu a eleição corporativa e a perseverança condicional. O propósito de Deus para a igreja não falhará, porque Cristo a apresentará “santa e irrepreensível” (Efésios 5:27). Para o crente individual, o cumprimento desse propósito depende de ele permanecer na fé, como diz Colossenses 1:22-23. A eleição para a salvação “é oferecida a todos” (João 3:16; 1 Timóteo 2:4-6; Tito 2:11) e se torna real em cada pessoa pelo arrependimento e pela fé.

Para resumir a doutrina, Stamps usou a imagem de um grande navio que viaja para o céu. Deus escolheu o navio, que é a igreja, e Cristo é o seu Capitão e Piloto. Todos podem embarcar pela fé viva em Cristo e, enquanto permanecem a bordo com o Capitão, estão entre os eleitos. “Caso alguém abandone o navio e o seu Capitão, deixará de ser um dos eleitos.” A predestinação, nesse quadro, diz respeito ao destino do navio e ao que Deus preparou para quem nele permanece: ser chamado, justificado, adotado, santificado e glorificado (Romanos 8:29-30; Efésios 1:5-14). A imagem se difundiu entre os pentecostais brasileiros, e o site discute os acertos e os limites dela em Presciência, Eleição e Predestinação.

No estudo sobre Romanos 9 a 11, Stamps lê a escolha de Jacó em lugar de Esaú como escolha de duas nações para um papel na história, sem relação com o destino eterno dos irmãos, e atribui a incredulidade de Israel à sua desobediência, e não a um decreto incondicional.

A graça que vem antes

Quando Stamps escreve que “tanto Deus quanto o homem têm responsabilidade na eleição”, a frase precisa ser lida ao lado do estudo “Fé e graça”, escrito para Romanos 5:21. Ali ele define a graça como “a presença e o amor de Deus em Cristo Jesus”, comunicados pelo Espírito Santo, e afirma que toda a vida cristã, “desde o seu início até o fim”, depende dela. A primeira obra dessa graça alcança quem ainda não crê: Deus concede uma medida da sua graça “como dádiva aos incrédulos”, a fim de que possam crer em Cristo (Efésios 2:8-9; Tito 2:11). É o que a tradição de Jacó Armínio e de Wesley chama de graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana e torna a resposta possível. A fé, para Stamps, é “a única condição prévia” que Deus requer para a salvação, e ela recebe o dom sem merecê-lo.

Essa graça é real e poderosa, mas não irresistível. O estudo enumera cinco maneiras de lhe dar as costas: ela pode ser resistida (Hebreus 12:15), recebida em vão (2 Coríntios 6:1), apagada (1 Tessalonicenses 5:19), anulada (Gálatas 2:21) e abandonada (Gálatas 5:4). É nesse ponto, o modo como a graça opera, que o arminianismo se separa do calvinismo, e Stamps fica claramente do lado arminiano.

A apostasia possível

Daí vem o estudo “A apostasia pessoal”, escrito para Hebreus 3:12. Apostatar, para Stamps, é cortar a relação salvadora com Cristo e abandonar a união viva com ele, e por isso só pode apostatar quem de fato foi salvo e regenerado (Lucas 8:13; Hebreus 6:4-5). Ele distingue a apostasia teológica, que rejeita o ensino apostólico, da apostasia moral, em que o antigo crente volta à escravidão do pecado, e recusa esvaziar as advertências do Novo Testamento com a ideia de que elas são reais mas o perigo não é. O estudo termina com uma palavra pastoral. Quem se preocupa sinceramente com o próprio estado espiritual e deseja voltar arrependido a Deus tem nisso “uma clara evidência” de que não cometeu a apostasia sem volta, porque Deus não quer que ninguém pereça (2 Pedro 3:9). É a perseverança condicional que o site expõe em Perseverança e apostasia na teologia arminiana: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé.

O Espírito, a Palavra e a santidade

Como pentecostal clássico, Stamps ensinou que o batismo no Espírito Santo é “uma experiência subsequente à regeneração”, destinada a revestir o crente de poder para testemunhar (Lucas 24:49; Atos 1:8), e que o falar em outras línguas é o sinal inicial desse batismo (Atos 2:4; 10:45-46; 19:6). Para ele, uma experiência que não se expressa em oração, testemunho e santidade logo se torna “uma glória desvanecente”.

A outra marca do seu pensamento é a primazia da Escritura sobre a experiência. Num ensaio dos seus últimos anos, Contending for the Faith of Historic Pentecostalism, ele apontou o que chamou de “o calcanhar de Aquiles do pentecostalismo”: a suposição de que experiências e manifestações espirituais valem mais que a doutrina apostólica para provar o que é verdade. O pentecostalismo histórico, argumentava, “começou com uma doutrina e não com uma experiência religiosa”: os primeiros pentecostais voltaram ao Novo Testamento e por isso viveram o livro de Atos. Agora o amor distorcido pela experiência os afastava dessa verdade, e o fruto era tolerância com a falsa doutrina e uma teologia centrada no homem, que prega saúde e riqueza mais que a cruz e a renúncia. Contra isso ele pedia fidelidade às doutrinas fundamentais e a uma vida separada do mundo, porque o Espírito que enche o crente é, antes de tudo, o “Espírito de santidade” (Romanos 1:4). E dava o testemunho do seu campo: só no Brasil, mais de dez milhões de pentecostais tinham nascido para o reino de Deus pela pregação dessa mensagem.

A mesma ênfase atravessa as notas da Bíblia. O estudo “A santificação” ensina que ela é ao mesmo tempo um ato definitivo, pelo qual o crente rompe com o pecado para viver para Deus (Romanos 6:18), e um processo de toda a vida, em que o Espírito o transforma à imagem de Cristo (2 Coríntios 3:18). Admite ainda uma “experiência específica e decisiva”, depois da conversão, em que o crente se consagra a Deus como sacrifício vivo e recebe “graça, pureza, poder e vitória” (Romanos 12:1-2).

Diferenças com a declaração de fé do site

Na salvação, Stamps e a declaração de fé do Diego dizem o mesmo: salvação oferecida a todos, graça que precede e capacita, graça resistível, perseverança condicional. As diferenças estão em outros pontos. Na santificação, a declaração afirma a inteira santificação wesleyana, uma obra posterior à regeneração que purifica o coração do pecado original e o enche de amor perfeito. Stamps admite uma consagração decisiva depois da conversão, mas descreve a santificação sobretudo como ato inicial e processo, como as Assembleias de Deus. Na escatologia, as notas dele ensinam o arrebatamento da igreja antes da Grande Tribulação e um reino milenar depois da volta de Cristo, enquanto a declaração do site é amilenista.

Obras principais

  • The Full Life Study Bible: New Testament (Zondervan, 1990), editor geral e autor das notas.
  • The Full Life Study Bible (Zondervan, 1992), Bíblia completa, editor geral com J. Wesley Adams.
  • Bíblia de Estudo Pentecostal (CPAD, 1995), edição brasileira, com Antonio Gilberto como editor.
  • Life in the Spirit Study Bible e Fire Bible, edições revistas das mesmas notas; a Fire Bible: Global Study Edition saiu pela Hendrickson e pela Life Publishers International.
  • Contending for the Faith of Historic Pentecostalism, ensaio dos últimos anos de vida, republicado em 2001.

Livros em português

  • Bíblia de Estudo Pentecostal (CPAD, 1995), notas e estudos de Donald C. Stamps, texto da Almeida Revista e Corrigida. Ver na Amazon · Ver na Shopee

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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